08 de julho de 2026
Geral

Sentindo a solidão

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 7 min

Solidão

Solidão

Texto: Gustavo Cândido

Não é raro que ela apareça mesmo sem ser convidada. A solidão é um dos sentimentos mais comuns nos seres humanos e ao mesmo tempo um dos mais indesejáveis. Algumas pessoas convivem bem com ela mas a grande maioria, porém, a detesta. E não é para menos, enquanto pode proporcionar paz e tranqüilidade, ela também gera insegurança e medo, sensações que ninguém gosta. Como diz a canção de Alceu Valença: "...a solidão é fera, a solidão devora". Veja como lidar com ela.

A dona de casa América Aparecida de Jesus reclama de viver só. Viúva, ela diz ter saudade do tempo que a sua casa era "cheia de gente", referindo-se aos filhos, que cresceram e mudaram de cidade. "Tenho uma sobrinha que sempre está comigo mas ela também tem vida dela e não pode me fazer companhia a toda hora, principalmente

à noite, quando ficar sozinha é pior, ainda mais na minha idade", lamenta.

Por outro lado, a professora aposentada Izabel Ramos já sofreu muito por solidão, aprendeu a lidar com ela mas sabe o quanto foi difícil voltar a se sentir bem. Há quatro anos ela mora sozinha no seu apartamento no centro da cidade, desde quando seus familiares faleceram só restando ela.

"Cheguei a ser internada por causa da depressão que a solidão me causou", conta. Recuperada, ela contratou uma pessoa para trabalhar na sua casa e ai mesmo tempo fazer companhia durante o dia. Isso ajudou, mas o grande segredo para ter vencido a solidão foi estar sempre ocupada com algo. Síndica do prédio onde mora há anos, ela também encontrou na igreja, onde é ministra da eucaristia, uma fonte de atividades e inspiração. "A gente tem que se apegar a alguma coisa para conseguir superar as coisas", ensina.

Cada pessoa lida de maneira diferente com a solidão e cria suas próprias formas para conviver com ela ou sair dela. Maria Regina Vanin, psicóloga, explica que a solidão está relacionada à forma como as pessoas aprendem a ver o mundo e uns aos outros. Assim, experiências desfavoráveis na primeiras fases da vida podem levar as pessoas a verem o mundo como um lugar ameaçador e hostil e com isso, terem medo de se relacionar, de se comunicar, porque estão sempre esperando receber críticas, rejeição ou diferença, o que gera a solidão.

"Quem aprender a dar e receber amor vai estar mais apto a perceber o outro como ele é, a encontrar pontos de identificação com o outro e estabelecer relações afetivas e a sentir-se parte de um grupo" diz Regina Vanin. Ela afirma que é comum também que as pessoas se sintam sós nos grandes centros urbanos por causa ameaças reais, como o aumento da violência, que gera desconfiança de tudo e de todos e faz com que a pessoa de afaste de relacionamentos, por mais comuns que sejam e se sinta só. "Se olharmos para o mundo sob uma visão holística, veremos que estamos mais interligados do que parece. Saber que no universo existe uma unidade e que somos parte dela, pode não acabar com a solidão, mas ajuda a enxergar o mundo de uma outra maneira", revela.

Ela apareceu e agora?

Às vezes ela vem após uma briga ou a perda de alguém, mas a solidão também pode estar ali quase sem ser notada. A estudante Cláudia (nome fictício) conta que com ela foi assim: "sempre estive cercada de amigas, ou de pessoas que achava que eram minhas amigas, e me divertia muito. Vivi muito tempo no embalo dos acontecimentos. Um dia cheguei em casa meio triste, nem lembro mais porque, e dai vi que não havia ninguém em que pudesse confiar de verdade. Minha família estava longe e também não estava dentro do que eu estava passando e minhas amigas... acho que se eu me abrisse elas iriam se aproveitar do meu momento de fraqueza, como eu as vi fazendo várias vezes". Cláudia afirma que demorou para sair da crise de solidão. Acabou encontrando apoio nos braços de um amigo, "de verdade", segundo ela, que se tornou seu namorado.

Regina Vanin diz que muitas vezes a solidão está ligada à dificuldade da pessoa em se comunicar e colocar para fora os seus sentimentos. Isso faz com que ela se isole ou em um certo momento se veja isolada.

Sandra Amorim, também estudante não buscou apoio na companhia específica de um namorado, mas se comunicou. Como mesmo disse: "caiu na vida", o que significa que procurou conhecer pessoas e fazer coisas diferentes, que não estava acostumada. "Mudei meus hábitos para poder ver as coisas de outra maneira", conta.

Amantes da solidão

"Nem sempre ela é ruim, aliás acho até que é legal", afirma sobre a solidão o professor de inglês Carlos Alberto dos Santos, que se diz muito "chato" com as suas coisas e por isso prefere morar sozinho. "Já morei com meus pais, e já morei em república e acho melhor agora que estou sozinho", diz. O estudante universitário André Matoso, concorda com Santos: "moro sozinho há três anos e acho que é muito bom, quando quero sair saio e vejo pessoas, quando não quero vou para casa e lá ninguém me incomoda".

Porque se conhecem bem e sabem lidar com a sua personalidades e com o mundo em que vivem Carlos Alberto e André estão felizes. "O auto-conhecimento é um dos caminhos para se entender e lidar melhor com a solidão", explica Regina Vanin.

8 maneiras de espantar a solidão

1- Saia de casa e pare de ficar se sentindo uma vítima do mundo

2- Mude o seu visual e as coisas de lugar na sua casa. É preciso ver o mundo com outros olhos

3- Deixe de lado a timidez e fale mesmo

4- Cante. Cantar alegra a vida

5- Dedique-se a alguma atividade, faça um curso, comece uma coleção, em outras palavras ocupe a sua mente

6- Visite pessoas na mesma situação que você. Vá a um asilo ou a um orfanato e acabe com a sua solidão acabando com a solidão de alguém

7 - Viaje e veja novos lugares

8 - Arrume um namorado

Texto da Solidão

A solidão nunca foi desamparo, porque visão tão estreita.

Conclusão mau acabada, o que dizer ao véu das copas?

Desejos vãos como estreitos pensamentos, sem dizer para onde nem saber porque.

Aquela alma que não diz nada, pede apenas apelo a algum deus se escrúpulos, mas diz muito mais do que quer dizer da vida...

A solidão consegue memórias jamais vistas, antes apenas enclausuradas em suas próprias amarras mau ditas, talvez mau concebidas. Ou sem visão do que seja.

Cerca o passo num segundo, diz algo além das próprias palavras. Porque já não esta em nada, ou talvez se aproxima da própria morte, de conseqüentes entalhes.

Aquele vício do desejo, até nem é o mesmo, mas torna-se vício sempre que pode não mais estreito, nem mesmo imediato, mas transparente de se afagar num barco a vela, a luz de velas, em pleno e onipotente mar, mergulho num silêncio opaco ao mesmo tempo irreversível.

Donde se encontra algo ofuscado, mas tarde cessa, daí já

é pleno, porque já não coube o indefinível.

Este silêncio de entranhas onde se perde a visão, mas esclarece a cor, se é que existe no silêncio piedade, não piedade, palavra para o momento amorfa, perdida em seu silêncio e solidão...

É muito pouco ainda o que pedes a solidão, e ao seu momento de iniciação, mas pedir o que aprouver

é sempre a mesma nau.

E a solidão é descabida e contempla todos os pensamentos diante de um pedestal.

Será mesmo a mais forte de todas as palavras?

Não, apenas o momento que se faz em memória de outros momentos.... que estão pôr vir, estão por estar.

Agradecer a face da terra por ilustrar tão bem, o repartir a solidão em mim em nós e na pedra...

Plena ficção de final de dia,

porém resulta um modelo em alguns, trespassa e fica fazendo margens se perdendo no adeus e em algumas gotas de sombra mar adentro...

Noite de lua cheia

Autor desconhecido