08 de julho de 2026
Geral

Evangelização

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 8 min

Padre agita Santa Bárbara

Padre agita Santa Bárbara

Texto: Marcos Zibordi

Os métodos de evangelização de Edmílson Zanin fizeram dele um líder popular e religioso. Cidade está mobilizada em torno do padre

Águas de Santa Bárbara - Há cinco anos e dois meses morando em Águas de Santa Bárbara, vindo de Botucatu, onde ficou por um ano após se ordenar padre, Edmílson Zanin, de 31 anos, está dividindo a cidade. Integrante do Movimento de Renovação Carismática, ele diz que suas missas "são mais ou menos do tipo do padre Marcelo (Rossi), desde muito antes dele". Assim como o padre "pop", Zanin arrebanhou muitos fiéis, mas também alguns inimigos, revoltados com o barulho causado pelos auto-falantes da igreja Matriz (que ele utiliza com frequência), do carro de som para divulgação de eventos e fogos de artifício acionados em conjunto, por exemplo, às cinco horas da manhã, na estância turística antes conhecida por sua paz e tranqüilidade.

Quando chegou na cidade, as missas de domingo na Matriz reuniam de 30 a 40 pessoas, o que não lotava nem os bancos da igreja, diz o padre. "Hoje nós não temos condições de manter todo o povo dentro da igreja, tem pessoas que ficam para fora. Muitos não vêm porque não cabem dentro da igreja".

Sua espiritualidade, na linha da Renovação Carismática, baseia-se em missas participativas, com instrumentos e muita música, louvor e adoração, diz o padre.

Ele não considera "diferente" o seu método de trabalho, como, por exemplo, o uso auto-falantes na praça central para transmitir mensagens, músicas e missas. "Acho que há um equívoco porque o trabalho que eu realizo

é um trabalho de evangelização e alto-falante

é o que a gente coloca meia hora antes da missa, música só". Sobre o carro de som na rua, ele diz que só

é usado em dia de procissão - o que, segundo ele, não ocorre sempre.

Conforme avaliação do padre, cerca de 90% da população de Águas de Santa Bárbara é católica. Perguntado sobre a posição da comunidade em relação ao seu trabalho, se são favoráveis ou não ao método, Zanin sugeriu que fizéssemos uma pesquisa na cidade. "Eu não vou responder pelos outros". Mas a pesquisa sugerida pelo padre ficou impossibilitada porque praticamente ninguém quer falar sobre a polêmica em Águas de Santa Bárbara. A equipe de reportagem do Jornal da Cidade percorreu os três hotéis vizinhos

à igreja (todos nas quadras ao lado) e apenas em um deles conseguiu um depoimento, prestado pelo gerente geral. Segundo Antonio Pedro, 47 anos, do Grande Hotel Santa Bárbara,

, "em função dos hóspedes que ficam no hotel, que são pessoas de idade avançada, que vêm para uma instância hidromineral para repousar, descansar e se tratar, eu vejo que tem certos hóspedes que acordam às duas da madrugada, às cinco da madrugada. Isso torna uma má influência para o turismo da cidade e para a evolução da cidade em si". As janelas dos apartamentos do Grande Hotel Santa Bárbara estão em frente e na mesma altura dos auto-falantes instalados na torre da igreja Matriz, situada na quadra vizinha. Pedro disse que não foi tomada nenhuma providência por parte do hotel em relação ao padre. No entanto, vários hóspedes registraram Boletins de Ocorrência contra o barulho, diz Pedro. Alguns deles, inclusive, disseram que não voltariam mais à cidade em épocas de festas como Páscoa e Natal, período em que as comemorações religiosas se intensificam, justamente quando o fluxo de turistas é maior. "Se isso continuar, vai ter influência no turismo da cidade".

Segundo Pedro, o problema sentido por ele em seu hotel é o mesmo enfrentado pelos outros proprietários que, procurados pela reportagem, não falaram sobre o assunto. "Estamos sujeitos a isso, infelizmente", lamenta.

Missões

O tensionamento que vinha ocorrendo entre os métodos catequéticos do padre Zanin e quem se incomodava com o barulho gerado por ele acabou resultando numa situação insustentável em março. Entre os dias 5 e 21 daquele mês, ocorreram as "Santas Missões Redentoristas", quando o padre

"despertava" a cidade às 5 horas da manhã para o primeiro compromisso religioso, a Procissão da Penitência, que começava 25 minutos após o anúncio através dos alto-falantes. Daí em diante, durante todo o dia, eram programados eventos ligados à celebração das missões, sempre utilizando o aparato comunicacional do padre.

Dois boletins de ocorrência foram registrados durante esse período, por perturbação do sossego público. Segundo o padre, "foram dez, onze dias, e isso acontece de vinte em vinte anos, então há uma programação toda especial". No entanto, o próprio programa de eventos distribuído pela igreja previa 16 dias de celebrações e cerimônias missionárias. O padre justifica sua celebração com outras festas que também perturbam o sossego público. "Assim como o Carnaval, assim como se tem as festas de folclore, o rodeio".

Zanin garante que o barulho na época das Santas Missões durava somente três minutos, às cinco da madrugada,

"inclusive com alvará".

Outro questionamento de quem não concorda muito com os métodos do padre Zanin é sobre a manutenção, por parte da igreja, de uma rádio pirata, chamada pelos fiéis de "comunitária". "Tinha, não tem mais. Existiu, mas era para fins de divulgação religiosa. Ela não está mais no ar". Zanin disse que a rádio fechou há um mês, mais ou menos, coincidentemente na época em que os boletins de ocorrência por perturbação do sossego público começaram a ser registrados na delegacia - alguns, inclusive, denunciando a situação irregular da rádio.

Zanin diz que quando chegou à cidade, quase ninguém freqüentava a igreja. Atualmente, quase toda a população participa ativamente das atividades religiosas. Prova disso é a missa de Cura e Libertação, que ocorre toda quinta-feira e registra a presença maciça das pessoas - parte delas, inclusive, vindas de outras cidades da região. "Em todo lugar, existem os que são a favor e os que são contra. No nosso caso é uma pequena mi-no-ria (soletra), minoria mesmo".

O padre vai mais longe: "Nós poderíamos dizer que Águas de Santa Bárbara acabou se tornando um centro de atividades católicas da região".

Zanin sabe que o apoio da população lhe dá autonomia para realizar seus projetos. Diz ele: "Em tudo aquilo que eu me proponho a fazer, sempre tive o apoio da comunidade. Toda vez que eu preciso desse povo para se concentrar para procissões, para eventos, para festas, esse povo está sempre pronto, tanto é verdade que no encerramento das missões eu tive três mil pessoas concentradas, numa cidade de quatro mil habitantes".

No fim do período das missões, a situação ficou mais tranqüila, pois os auto-falantes falaram menos. O padre realizou até uma pesquisa para constatar a opinião da comunidade sobre os eventos daqueles dias. Segundo Zanin, de 500 questionários distribuídos entre a população perguntando o que haviam achado dos eventos, apenas um deles se disse incomodado "um pouco" com o barulho.

"Boca-pequena"

Apesar de todo o apoio que recebe da maioria da população, há pessoas que se manifestaram contrariamente ao padre. Curiosamente, mesmo elas sentem receio em falar abertamente sobre o assunto. Todos que aceitaram falar, o fizeram pedindo anonimato. Em um dos hotéis da cidade, a proprietária, que já registrou boletim de ocorrência contra o padre, preferiu não falar à equipe de reportagem, sobre o assunto. Parece que existe mais que o simples respeito pela figura religiosa de Zanin. O grande receio em tocar na questão parece ser ilustrativo do que representa a liderança religiosa na cidade. Como diz o ditado, quem fala da polêmica, o faz

"à boca pequena".

Um dos comentários mais freqüentes é sobre a transferência do delegado para uma cidade vizinha. Após ter agido no esclarecimento das denúncias dos BO's, ele teria sido mandado para Manduri, por influência política do padre.

Em contato com a Cúria Arquidiocesana de Botucatu, responsável pela diocese de Águas de Santa Bárbara, o padre Zezinho, vigário geral e assessor de imprensa da Cúria, disse que o bispo não entraria de maneira nenhuma "numa jogada dessas". Ele garantiu que não houve influência do Arcebispo Dom Antonio, para que o delegado fosse transferido.

"Ele só age em favor, não contra. Oficialmente, não estamos fazendo nada", disse o assessor.

Na Delegacia Seccional de Avaré, responsável pela Delegacia de Águas de Santa Bárbara, o delegado Edmundo Lélis negou a influência do Arcebispo na transferência. Ele disse que o delegado pediu sua transferência em razão dos atritos com o padre, mas por sua espontânea vontade. "O próprio delegado achou por bem sair de lá. O padre não teve influência nenhuma. Se dom Antonio teve alguma participação nisso, eu desconheço", disse Lélis.

Alguns boletins de ocorrência registrados em Águas de Santa Bárbara acabaram na Delegacia Seccional de Avaré, para que não fossem criados atritos durante a apuração dos fatos, segundo o delegado Lélis. "Ora, veio para a Seccional justamente por medida de cautela, para apurar o confronto entre o delegado e o padre". O delegado disse que "existem na delegacia uns dois ou três boletins, que vieram de Águas de Santa Bárbara".

A dúvida surgida é: se o delegado da cidade foi transferido para que as queixas fossem esclarecidas, qual o motivo dos boletins de ocorrência irem para Avaré?

Enquanto esse impasse continua, não dá para prever o que pode acontecer entre adeptos do padre e contrários a ele. Atualmente, parece existir uma situação de certa calmaria na cidade, principalmente porque falta algum tempo para a próxima data religiosa. No entanto, os turistas podem se revoltar - como já aconteceu com um que, acordando assustado diante do barulho causado pelos auto-falantes, saiu do hotel, atravessou a rua e, na praça da Matriz, descarregou o revólver nos auto-falantes da torre - o que não resolveu o problema porque, dois dias depois, novos aparelhos já estavam instalados.