07 de julho de 2026
Geral

Apae

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 5 min

Apae de Agudos reintegra excepcionais

Apae de Agudos reintegra excepcionais

Texto: Marcos Zibordi

Entidade atende cerca de 70 crianças. Preconceito a falta de verba são as maiores dificuldades.

Agudos - A Associação dos Pais e Amigos do Excepcional (Apae) de Agudos está conseguindo reintegrar nas escolas tradicionais alguns alunos portadores de deficiências que antes eram tidos como incapacitados, ajudando a quebrar o preconceito existente em relação ao excepcional. No entanto, o trabalho esbarra na falta de recursos e no preconceito de alguns diretores de escola que ainda não aceitam a idéia de terem alunos vindos da Apae em suas salas de aula.

O projeto de integração começou em agosto do ano passado. Três alunos foram matriculados na primeira série da escola Farid Fayad e, apenas três meses depois, já passaram para a segunda série. "Nosso interesse primeiro é com os alunos que tenham deficiência", diz Maria Silvia De Conti, 31 anos, diretora pedagógica da Apae. Segundo os professores e diretores das escolas onde os exepcionais foram reintegrados, os alunos convivem normalmente em sala de aula, com os colegas e nos intervalos, sem precisarem de uma atenção tão diferenciada. Ao contrário do que a maioria das pessoas pensam, o excepcional não

é um enfermo que precisa de cuidados excepcionais mas, na maioria das vezes, é alguém que só precisa de um pouco de carinho e compreensão.

A Apae já reintegrou 11 alunos, sendo que foram nove depois da implantação efetiva do projeto. Quatro alunos estão na rede estadual de ensino nas classes de ensino fndamental e cinco estão em Emeis. "O objetivo é acabar com esse preconceito. Falta concientização das pessoas", diz Sílvia.

A maior reivindicação da Apae é em relação

à instalação de um maior número de classes especiais para os alunos. Segundo a coordenação da Apae, duas salas especias seriam suficientes para a demanda dos alunos. Atualmente, Agudos conta com somente uma classe desse tipo, na escola Manuel Gonçalves. O Estado proibiu a abertura de classes especiais, sendo que esta atribuição agora é de responsabilidade do município. "A gente vai fazer uma barraca de Sonho promocional para arrecadar dinheiro. Nesse ano, a cada um, dois meses, a gente vai ter que estar fazendo alguma festa para arrecadar. O governo federal e o estadual que ajudavam mais as instituições, não estão fazendo isso". A Apae necessita de algo em torno de R$ 10 mil por mês para se manter. Outro problema é que o repasse não é constante, mês-a-mês. Os atrasos nos repasses são constantes, gerando problemas que só podem ser sanados com as campanhas e os doadores.

"O maior problema da Apae hoje é a inclusão dos alunos e a liberação de verbas pelo município. A Apae é a única que está fazendo este trabalho em Agudos. Se acabar, como fica?", perguntam.

As coordenadoras admitem que este é o ano mais difícil da Apae, em 20 anos de existência. O risco de fachar a entidade existe, por falta de verbas e recursos. Na instituição em Agudos, a prefeitura cede dois professores, uma merendeira eo combustível. "Na Apae de Bauru e nas outras Apaes, a prefeitura dá tudo, profissionais, mantém, constrói. Aqui, se dá o combustível, tira o profissional, se dá o profissional, tira a merendeira. Essa é a parceria".

Visita

A equipe de reportagem visitou uma Emei da cidade onde um aluno exepcional está integrado. Chegamos na hora do lanche e quase 100 crianças estavam comendo. Não dá para notar entre eles alguém que seja "diferente", no sentido preconceituoso da palavra. As crianças convivem normalmente com Eduardo Costa, 11 anos, estudando numa das classes do Jardim da Emei Carrossel. A professora Rosemeire diz que não há diferença no trato nem no relacionamento do aluno com o método e com os demais colegas.

A Apae continua lutando pela conquista de mais espaço para os alunos nas escolas, tentando conscientizar população e dirigentes de ensino de que a reintegração social do exepcional é algo necessário não só para ele, mas também para quem os recebe. O aprendizado

é mútuo.

Os diretores da Apae dizem que a população em geral desconhece o trabalho da entidade. Por isso pedem a solidariedade em doações. Além disso, as pessoas estão convidadas à visitarem a Apae para verem de perto quanto despreendimento e sentido de humanidade são necessários em alguém que se dedica à cuidar de um excepcional. Quem sabe assim o preconceito diminua, as equipes de voluntários aumentem e em pouco tempo esse problema deixe de ser encarado como doença e passe a ser visto como uma atitude de humanidade e humanização.

Evolução da terminologia

Em qualquer sociedade, quebrar preconceitos é algo que demora como o processo histórico. Os indícios da má informação geradora de preconceito se refletem em quase todos os aspectos da vida cotidiana, sedimentando sempre em pequenas porções a visão distorcida dos fatos. Os termos pelos quais foram designados os exepcionais ao longo dos anos demostram o quanto a sociedade evoluiu no entendimento desse problema, mas ainda falta muito.

Uma das mais remotas denominações é a do

"Mongolóide". Achava-se que o aspecto do portador de Síndrome de Down parecia com uma habitante da Mongólia, o Mongol, daí o Mongolóide. Depois o preconceito passou para termos de origem "científica" como

"Retardado Mental" ou "Deficiente Mental". Um salto de qualidade veio com a palavra "Excepcional", visando identificar uma necessidade especial de atenção e cuidado que essas pessoas requerem. O termo evoluiu para "Pessoa Portadora de Necessidades Excepcionais", ampliando a relação entre a deficiência e a atenção diferenciada que essa pessoa necessita.

O termo usado atualmente é "Pessoa Portadora de Necessidades Educativas Especiais", que revela a preocupação com a educação desta criança, educação que deve ser entendida em sentido amplo, de cuidado, carinho, informação e indiferenciação.