07 de julho de 2026
Geral

Microempresas

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 7 min

Micros têm queda no faturamento

Micros têm queda no faturamento

Texto: Paulo Toledo

As micro e pequenas empresas (MPEs) tiveram desempenho negativo no primeiro bimestre de 99. Em fevereiro, as MPEs do setor de serviços apresentaram o pior desempenho relativo em termos de faturamento. Na comparação de fevereiro de 99 com fevereiro de 98, o faturamento médio das MPEs de serviços apresentou uma queda de 25,4%, seguida pelas MPEs do comércio

(-5,8%) e pelas MPEs da indústria (-5,1%). Os dados constam da Pesquisa de Conjuntura das Micros e Pequenas Empresas do Estado de São Paulo (Pecompe), realizada em conjunto pelo Sebrae-SP e pela Fundação Seade.

Os meses de janeiro e fevereiro tiveram a influência da desvalorização do real, sendo fortemente marcados pelas incertezas provocadas pelas alterações na política cambial. O consumo das famílias e o investimento das empresas continuaram deprimidos. Em conseqÃência disso, em fevereiro, o faturamento médio mensal das MPEs do Estado de São Paulo apresentou queda de -4,3% em relação ao mês anterior.

Na avaliação Sebrae-Seade, em parte, essa queda nas vendas das MPEs se deve também à própria sazonalidade, uma vez que o mês de fevereiro possui um menor número de dias úteis. Porém, comparado-se o faturamento dessas empresas com igual período do ano passado a queda foi de 10%.

Paulo Tebaldi, gerente da agência do Sebrae de Bauru, afirma que, além do efeito sazonal, a queda no faturamento também se deve a uma atitude defensiva das famílias e empresas que, diante da desvalorização do real e da situação econÃmica do País, retraíram de forma preventiva seu consumo.

Outro fator que contribuiu para a queda nas vendas das micro e pequenas empresas foi o aumento da taxa de juros, que de um nível de 29% ao ano (taxa básica que prevaleceu no início de janeiro) foi progressivamente elevada até o patamar de 45% ao ano na primeira semana de março.

Em janeiro de 1999, o faturamento médio mensal das MPEs de São Paulo apresentou queda de -17,7% em relação ao mês anterior. Comparando-se o faturamento dessas empresas no primeiro mês deste ano com igual período do ano passado a queda foi de -15,2%. Neste caso, a queda de faturamento mais acentuada ocorreu no setor de serviços (- 32%), seguido pelo comércio (- 12,4%) e pela indústria (- 3%).

A análise Sebrae-Seade, ressalta a estabilidade da variável Pessoal Ocupado (PO) na média geral das micro e pequenas empresas paulistas. Em fevereiro de 1999, o nível de PO ficou praticamente no mesmo patamar do mês anterior e no mesmo patamar de fevereiro de 98.

Na análise da Pecompe realizada pelo economista e professor universitário Reinaldo César Cafeo, 37 anos, apesar do quadro ruim no faturamento, no geral, o nível de pessoal ocupado manteve-se estável, exceto a indústria que caiu 3,5% no Estado e 2,6% no Interior. Para ele, os resultados demonstram, mais uma vez, que as empresas estão no limite no que tange à manutenção do pessoal empregado.

"Chega um momento que não mais como demitir", comenta.

Para Cafeo, a opção das empresas tem sido em faturar pelo menos ponto de equilíbrio garantindo a estrutura atual

(não lucra, mas não fica no vermelho), adiando assim decisões mais drásticas. Outras ainda estão sendo forçadas a não demitir, pois sequer possuem recursos para fazer face a rescisão prevista em lei, de direito do trabalhador.

O economista destaca que, em todas as análises comparativas com igual período de 98, há queda no nível de atividade, representando que as empresas estão operando em níveis abaixo do necessário e desejável.

"Simplesmente sobrevivem", comenta.

Para Cafeo, como março ainda foi caracterizado por forte atuação do governo na economia no sentido de manter a inflação sob controle, a próxima pesquisa deverá apresentar números ruins. "Já abril, se não fosse a CPI do sistema financeiro, poderia indicar alguma melhora, coisa que dificilmente irá ocorrer", afirmou.

Cafeo acredita que números melhores, infelizmente, somente a partir do segundo semestre deste ano, quando cria-se um ambiente natural de compras e ainda, dependendo da CPI do sistema financeiro, os números da economia melhoram e haja um alívio acentuado na taxa de juros.

De acordo com o economista, dados de um levantamento feito pelo SinComércio mostram que, em janeiro, o comércio em geral, em Bauru, teve queda de 5,45%, se comparado janeiro de 99 com janeiro de 98; e - 1,14%, se a comparação for entre janeiro de 99 com dezembro de 98.

Tebaldi diz que, no caso específico das MPEs do comércio, há, ainda, uma agravante: as grandes empresas fornecedoras

(por exemplo, as da área de alimentos industrializados, higiene e limpeza, etc.) não estão concedendo às micro e pequenas comerciais os mesmos descontos que têm sido concedido às grandes redes de supermercados.

Dessa forma, ainda que o repasse do aumento de custos aos preços das MPEs permita a estas empresas aumentar ou manter estável o valor do seu faturamento nominal, a margem de lucro destas empresas tende a cair, devido a um nível de consumo inferior ao que prevaleceu no ano passado e devido ao aumento dos custos dessas empresas.

Para Cafeo, existe outro grande problema, que já existia mas cresceu em significado: a inadimplência. O setor bancário reclama e as empresas estão tendo que ter "jogo de cintura" na administração do fluxo de caixa, descompassado por serem forçados a aumentar prazos para os clientes e não terem a contrapartida dos grandes fornecedores. Tudo isso refletirá no nível de atividade, nível de emprego e margem de lucro das empresas.

Salários

Acompanhando a tendência de queda no faturamento, a análise Sebrae-Seade mostra que a folha de salários das MPEs paulistas também apresentou retração de - 2,8% em fevereiro deste ano, em relação ao mês anterior, e - 10,7% na comparação com fevereiro de 98, indicando uma tendência de queda no rendimento médio das pessoas ocupadas nesse grupo de empresas.

No que tange aos demais custos, a partir de março começou a se verificar uma tendência de recuperação do real frente ao dólar. Para as empresas cujos custos são fortemente atrelados ao dólar, como no caso das MPEs que comercializam produtos importados, isto poderá aliviar um pouco a pressão de custos.

Porém, mesmo com a tendência recente de recuperação do real frente ao dólar, boa parte das pequenas empresas ainda deverá enfrentar alguma pressão nos custos. Isto porque o acréscimo de custos decorrente da desvalorização ocorrida no início do ano não havia sido integralmente repassada aos preços.

Na verdade, este repasse continua ocorrendo de forma paulatina. Novos aumentos de preços vêm sendo anunciados pelas grandes empresas em setores como alimentos, higiene & beleza e autopeças, o que deverá afetar, principalmente, as MPEs do comércio varejista. Além disso, o crédito ainda está escasso e com um custo bastante exorbitante.

Tendências

A análise Sebrae-Seade destaca que as últimas semanas de março trouxeram boas notícias, que reduziram o nervosismo do ambiente econÃmico. A atuação mais decidida do Banco Central no mercado de câmbio, a renegociação de metas com o FMI (que liberou a segunda parcela do empréstimo acordado no final do ano passado) e a obtenção de taxas de inflação menores que as inicialmente previstas, se combinaram para derrubar o preço do dólar. Até os juros começaram a cair, ainda que muito pouco (de 45% para 39,5% ao ano).

Contudo, afirmam os técnicos, em termos de atividade econÃmica, em particular para as MPEs, os efeitos positivos ainda vão demorar a ser sentidos. Nos próximos meses, a produção, o emprego, o consumo e o investimento tendem a continuar deprimidos e os juros devem continuar proibitivos, dificultando as vendas.

Apesar desse quadro pouco otimista, existem espaços que podem ser aproveitados pelas MPEs. O principal deles são as atividades voltadas para os mercados antes abastecidos pelos produtos importados, que ficaram mais caros após a desvalorização do real. Mais à frente, também devem ganhar algum fÃlego as atividades voltadas, direta ou indiretamente, para a exportação, pois a rentabilidade das exportações aumentaram bastante com a desvalorização do real.

Paulo Tebaldi afirma que o cenário para os próximos meses não é muito favorável às Micro e Pequenas Empresas mesmo com a recuperação do real frente ao dólar, pode-se esperar uma continuidade na elevação dos custos dado ao fato de que a desvalorização do real e seus efeitos ainda não foram repassados integralmente nos preços.