07 de julho de 2026
Geral

Idade

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 6 min

Quantos anos você tem?

Quantos anos você tem?

Texto: Gustavo Cândido

Quantas vezes a sua mãe já não repreendeu você por ter feito essa pergunta para aquela sua tia velhinha que insistia em dizer "nossa como você está grande", nas suas festas de aniversário? Muitas, com certeza. Sua mãe não estava sendo malvada, ela só repassou o velho chavão que aprendeu quando criança:

"não se pergunta a idade das pessoas, principalmente se ela for idosa e mais ainda se ela for mulher". É quase sempre assim, as pessoas crescem sem entender porque não podem tocar no assunto "idade" e só descobrem a resposta para essa dúvida mais tarde, quando percebem como, às vezes, pode ser constrangedor ter que dizer há quantos anos nasceu. Muitas pessoas não encaram o passar dos anos como um fardo, mas em compensação outras fazem de tudo para ninguém saber com certeza a sua idade.

Quando se é criança fazer aniversário é um sonho. A data é esperada o ano todo e a única coisa que passa pela cabeça é a quantidade de presentes

(de preferência brinquedos), que se vai ganhar. A idade não tem a menor importância, com tanto que os presentes continuem vindo. O tempo passa, os brinquedos são deixados para trás e objetivo passa a ser completar 18 anos o mais rápido o possível. A idéia é conseguir a liberdade para chegar em casa a hora que bem entender, dirigir o carro do pai legalmente e, principalmente ser chamado de adulto. A ânsia é tanta que para isso alguns adolescentes falsificam carteiras de identidade ou de estudante, mentem a idade, mudam o visual em busca de algo mais "sério".

É finalmente é na fase adulta que o discurso começa a ser invertido. Ao invés de dizer: "eu quero ter 18", se diz: "eu gostaria de voltar aos 18". A maturidade chega e com ela também maiores responsabilidades e principalmente as marcas do tempo, como aquele pneuzinho a mais, tão difícil de perder, as rugas, um cabelo branco aqui, outro ali. A idade passa a ser uma coisa a ser evitada, esquecida, se possível. E nessa nova ânsia de evitar o tempo, ouvir a pergunta título pode ser uma atitude ofensiva.

Para a psicóloga Salete Aversano, esse medo da idade nas pessoas está diminuindo. "Antigamente havia mais medo de envelhecer, hoje isto está se perdendo um pouco. O movimento da terceira idade é um sinal", diz. A busca do embelezamento e do auto-conhecimento também é apontada pela psicóloga como uma razão para a menor preocupação com a idade.

Mesmo assim muitas pessoas ainda evitam tocar no assunto. A dona de casa Joana Alice Araújo é um exemplo, segundo sua filha Gláucia, ela não diz a idade de maneira alguma. A própria filha não toca no assunto e estima que a mãe tenha, de 55 a 58 anos. No caso de Joana Araújo, a aparência ajuda, mãe de três filhos, ela pode passar tranquilamente por uma jovem senhora de 40 e poucos anos.

Por falar em "poucos", esta é a palavra mais usada por quem não gosta de assumir a idade. são sempre 30 e poucos anos, 40 e poucos anos, ou 50... Amélia Pereira, professora aposentada não esconde os 69 anos que possui, mas confessa que não gosta de ser lembrada da idade.

"Ninguém gosta de ser considerada velha, gosta?", indaga se explicando.

Medo do desconhecido

Salete Aversano diz que por trás da recusa em adimitir a idade, está o medo da pessoa em encarar o seu futuro.

"As pessoas na realidade temem pisar onde não conhecem e têm medo do desconhecido", afirma a psicóloga,

"como é normal acontecer, elas vão perdendo o seu vigor físico e vão ficando com medo ficarem solitárias, abandonadas, com medo de se perderem, ficarem feias e ninguém mais prestar atenção", completa.

A comparação, tão natural entre os seres humanos é que gera essa idéia de que o que é velho é menos interessante do que o novo, segundo Salete. No homem, a idade ainda é encarada como um bom sinal de amadurecimento e experiência, o que nem sempre acontece com a mulher. "Isso está mudando aos poucos com os avanços da mulher em todas as áreas", comenta a psicóloga, "algumas mulheres já estão demonstrando prazer em envelhecer bem".

Aparecida Pinho é uma delas. Aos 65 anos ela não está nenhum pouco preocupada e aparentar sua idade. "É normal e ainda por cima bonito. Minha vida tem sido muito boa, não me troco por três de vinte", brinca. Curiosamente em sua casa a situação se inverte, "é o meu marido quem vive pintando os cabelos brancos para não mostrar que é dois anos mais velho que eu", revela. Aparecida acredita é a exceção da família nesse quesito: "minha filha de 35, odeia ser lembrada da idade e o meu filho de 28 também não gosta de saber que está perto dos 30".

Pressão da fama

Não é só no dia-a-dia de pessoas comuns que a idade incomoda. Até pelo contrário, ela não incomoda tanto quanto no cotidiano de estrelas de televisão, cinema ou música. A mentirinha na hora de revelar a idade

é quase básica, tão básica que às vezes ninguém acredita. São poucos como Dercy Gonçalves

(que tem 94 anos) e Clóvis Bornay (84), que têm a coragem o o orgulho de admitir a idade. Os dois até gostam de citar o dado como forma de mostrar que apesar do tempo ainda continuam fazendo quase tudo o faziam antes e se divertindo muito.

Entre os que não revelam quantos anos possuem, o caso mais notório é o de Silvio Santos, que vive fazendo brincadeiras quanto a idade e se esquivando de memórias que possam revelá-la. De acordo com Salete Aversano, no mundo artístico a preservação da aparência é muito importante e isso faz com que artistas e gente do meio queira "evitar o tempo". "A rotatividade no mundo artístico é mundo grande, até por uma questão de modismo. Quando um artista vai ficando velho, fica com medo de perder o lugar para outro", explica. Segundo Salete, Roberto Carlos é um exemplo de artista que soube sobreviver ao tempo e aos modismos e sobretudo, tem sabido envelhecer. "Ele tem se adaptado aos tempos e não ficou perdido", diz.

O importante é gostar de si mesmo

Existe uma certa cobrança da sociedade, fruto de uma herança cultural, para que o indivíduo realize ou não, certas atitudes de acordo com a sua idade. Deste modo se estabeleceu que durante a infância e a adolescência a escola é o principal objetivo, depois vem a faculdade, em seguida é a época de se casar e trabalhar para ter uma família e assim por diante até a velhice.

Por conta desta regra, algumas pessoas acabam passando por situações constrangedoras por ainda se sentirem jovens, mesmo que seus corpos digam o contrário. Não é difícil ver senhores "de idade", agindo como garotões trás de garotas bem novas e também senhoras de minissaia querendo competir com as filhas ou com as netas.

"Cada pessoa é um ser diferente, com etapas para amadurecimento também diferentes", diz Salete Aversano, "não podemos dizer que um senhor que coleciona carrinhos, como um menino,

é uma pessoa imatura, isso é só um hobby. O que fica feio é tentar aparentar uma idade que já não se tem, como no caso de mulheres que se vestem como adolescentes".

"A idade não é problema, é uma questão pessoal. Se a pessoa está bem com ela mesma, tem uma auto-afirmação e se gosta, a idade pouco importa", define a psicóloga.