Iugoslavo compara guerra de Kosovo a chacina em SP
Iugoslavo compara guerra de Kosovo a chacina em SP
Texto: Adriana Amorim
Nascido na Iugoslávia, cidadão francês por 27 anos e residente em Bauru há 2 anos, o técnico em engenharia civil Jacques Novak, 46 anos, encontra na realidade brasileira uma similaridade com a guerra iniciada há um mês pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Kosovo, província da Iugoslávia. Para ele, o terror do conflito armado nos Balcãs é comparado às chacinas que acontecem na Grande São Paulo.
Novak nasceu em Liubliana, cidade da Eslovênia, um território que até o início dos anos 90 pertencia à nação iugoslava, mas atualmente é um país independente. Aos 18 anos, ele saiu da terra natal e morou na França até 1995, onde teve dois filhos com uma francesa e conheceu uma bauruense. Com ela, veio para Bauru, onde reside atualmente.
Mesmo há pouco tempo no Brasil, ele diz que já criou raízes e se envolve nos problemas do País como um brasileiro nato. Ficou triste quando o Brasil perdeu a Copa do Mundo no ano passado e se chocou com as chacinas que somaram cerca de 120 mortos durante o Carnaval deste ano nas cidades da Grande São Paulo. "Eu fiquei impressionado porque isso que aconteceu em apenas sete dias foi uma guerra interna", argumenta.
"Essa situação foi tão chocante quanto
à guerra em Kosovo. Para mim, 120 pessoas em São Paulo e em Kosovo são a mesma coisa, têm a mesma importância".
Embora ainda tenha familiares em Luibliana, mantenha contato com eles e visite a Eslovênia pelo menos uma vez ao ano, Novak diz que o seu sentimento em relação à guerra
é o mesmo que o da população do resto do mundo. "A tristeza de uma pessoa passa para a outra", garante. "Depois, todos se indignam porque guerra nunca tem coisa boas, só negativas".
Novak acredita que a estratégia da Otan foi precipitada e diz que os problemas na Iugoslávia poderiam ter sido resolvidos internamente. Ele afirma que o conflito se iniciou devido à intolerância étnica ocasionada devido
à presença dos albaneses no território iugoslavo. Muçulmanos e com costumes diferentes, os albaneses nunca foram bem aceitos pelos sérvios de origem ortodoxa.
Quando ainda vivia no território iuguslavo, Novak diz que os conflitos aconteciam devido às dificuldades de integração entre os dois povos de culturas diferentes. "Os albaneses nunca se integraram na vida da Iugoslávia", afirma.
"Uma pessoa que não se integra à vida de um país sempre dá problemas".
Rivalidade
Mesmo afirmando ser contrário à guerra e não defender Otan nem Milosevic, ele deixa transparecer a rivalidade que marca a convivência entre os dois povos. "Sempre houve uma fronteira entre albaneses e sérvios, mas na verdade são os albaneses que não queriam se integrar", argumenta.
Novak acredita que o conflito étnico é uma consequência histórica e tem uma saída para a massa de refugiados albaneses que não tem para onde ir: a Albânia, território de onde se originaram.
Além das diferenças de etinia, Novak acredita que a guerrilha interna em Kosovo é fruto da política adotada pelo ditador Josif Broz Tito, que foi o responsável pela manutenção forçada da união e da ordem entre os países do território iugoslavo até os anos 90. "Tito conseguiu isso com a força e tudo o que se faz pela força, se desmancha com ela", argumenta.
Crise é iniciada com a
morte do ditador Tito
A morte do ditador Josip Broz Tito, que comandou a Iugoslávia de 1945 a 1980 (ano em que morreu) deu início às idéias separatistas das seis repúblicas que formavam a nação: Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegóvina, Montenegro e Macedônia.
Tito instalou o comunismo no território, manteve uma linha de governo independente da ex-União Soviética e garantiu a união das repúblicas sob a sua tutela. Com a sua morte, Slobodan Milosevic assume o comando do Partido Comunista e lança uma campanha para acabar com a autonomia de Kosovo.
A instabilidade aumenta com o fim do comunismo no Leste Europeu, no final dos anos 80. Agravam-se as divergências entre a Sérvia e as outras repúblicas, episódio sucedido pela independência da Eslovênia, Croácia, Macedônia e Bósnia-Herzegóvina.
Em 1992, a Iugoslávia possuía apenas as repúblicas de Montenegro e Sérvia e ganhou como presidente Slobodan Milosevic. Montenegro aceita a submissão ao regime, mas Kosovo, região da Sérvia, tenta a indepência liderada pela maioria da população albanesa (os albaneses representam 80% da população kosovar).
As desavenças entre albaneses e sérvios é alimentada também pelas diferenças étnicas. Forma-se um grupo paramilitar de resistência ao governo de Milosevic, surgem as guerrilhas internas e a tentativa de expulsão dos albaneses com o objetivo de conseguir a chamada limpeza étnica. Depois de algumas tentativas de acordo infrutíferas com o presidente sérvio, a Otan ataca Kosovo. (AA)