11 de março de 2026
Geral

Alcoolismo feminino

Ana Maria Ferreira
| Tempo de leitura: 8 min

Mulheres são mais suscetíveis ao álcool

Mulheres são mais suscetíveis ao álcool

Texto: Ana Maria Ferreira

Desde os tempos mais remotos da História; o homem abusou do consumo do álcool para proporcionar alívio do estresse emocional

O alcoolismo atinge de 10% a 12% da população mundial e no Brasil psiquiatras estimam que num grupo de cada 100 adultos entre dez a quinze desenvolvam algum tipo de dependência com álcool ou drogas. Pesquisa realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo - Fiesp - demonstra que o número de licenças médicas no trabalho causadas pelo alcoolismo é três vezes maior que o causado por outras doenças.

As mulheres representam uma parcela significativa destes números. O que aumenta a cada dia.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram o mapa do alcoolismo feminino no Brasil. Enquanto na década de 70, havia uma mulher alcoólatra para cada grupo de 20 homens, hoje a proporção é de uma para cada sete homens. As mulheres também começam a beber mais cedo, por volta dos 12 anos em média, só que na maioria dos casos escondido da família.

O médico Paulo César Madi, em um artigo, comenta que "desde que a mulher ampliou seu espaço social e aumentou sua participação na disputa pelo mercado de trabalho, incrementando sobremaneira suas responsabilidades, houve uma modificação na gravidade e nos tipos de doenças que incidem sobre o sexo feminino. Doenças como o infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral etc, mais freqÃentes ao sexo masculino porque ligadas a um aumento de responsabilidade, competitividade e nível de estresse, estão agora também incidindo mais sobre as mulheres."

Numa publicação do Departamento de Clínica Médica da USP aponta o reconhecimento tardio da realidade de que as doenças cardíacas atingem homens e mulheres. O estudo compara os dados de mortalidade feminina no Brasil e conclui que tanto a doença cerebrovascular como a coronária e as doenças do coração apresentam taxas maiores entre as mulheres brasileiras na faixa dos 45 aos 64 anos de idade do que em mulheres dos outros países pesquisados (Finlândia, Portugal). "As doenças cardiovasculares acompanham o desenvolvimento econÃmico não só pelo aumento do fornecimento de alimentos e pela diminuição da atividade física, mas também pela diminuição das doenças como tuberculose, pneumonia. Uma parte da influência do progresso econÃmico seria somente a de diminuir as doenças infecciosas, propiciando o aumento da importância relativa das doenças crÃnicas."

Já os estudos sobre as mulheres dependentes de álcool apontam a fragilidade das mulheres em relação aos efeitos do álcool e das drogas e ratificam a corrente que vê tanto o alcoolismo como outros tipos de vícios ou compulsões como falha orgânica, doença. O organismo feminino é mais frágil neste sentido, absorvendo 30% a mais de álcool que o masculino. Isso ocorre, segundo os médicos, porque as mulheres têm mais gordura e menos água no corpo. Os homens possuem duas vezes mais a enzima chamada desidrogenase, responsável pela destruição do etanol, o que ajuda a preservar o fígado dos efeitos da bebida. A desvantagem continua: o

álcool leva 25 anos para destruir o organismo masculino e somente 5 para causar problemas sérios para as mulheres como o aparecimento precoce de cirrose hepática, pancreatite, alterações cerebrais e distúrbios nervosos. Enzima provoca doença

Os pesquisadores relacionam a deficiência de dopamina (um neurotransmissor cerebral) à dependência de álcool e drogas. O fator genético é responsável por cerca de 30% dos casos de alcoolismo. As pesquisas analisaram os chamados "caminhos do prazer" no cérebro e comprovaram cientificamente que a dopamina, responsável pela sensação de prazer, é liberada a partir de estímulos externos como um toque, uma tragada no cigarro ou um gole de álcool tem relação com o processo de dependência química sendo apontada como a "molécula do vício". A heroína e o álcool promovem a liberação da dopamina. As anfetaminas (utilizadas nas fórmulas para emagrecimento) também e em maior quantidade. Isso explica porque muitas pessoas deixam um vício por outro: deixam de beber e começam a fumar, por exemplo. Esse mecanismo químico torna a pessoa mais predisposta a esse tipo de atitude. Histórias de dor e álcool

N., 52, no AA há praticamente um ano, bebeu por dois anos chegando a ingerir álcool com água, na falta de bebida. Com isso passou a ter anorexia, chegou a ficar 32 dias sem ingerir nenhum alimento sólido.

"Eu bebia campari, depois vodka porque são bebidas secas. Tomava um aperitivo no fim do expediente com meu marido. Há seis anos perdi meu marido, que era meu grande companheiro, e numa noite tomei uns drinks em casa para dormir. Acordei durante a noite e procurei mais bebida. A partir daí fui bebendo até acabar com o estoque do barzinho da minha casa.

Eu sabia que estava errada mas não podia mais parar. Eu parava de beber alguns dias e não conseguia segurar nada porque minhas mãos tremiam. Perdi a coordenação por completo e tive anorexia. Fui internada duas vezes mas o médico não sabia que era bebida, achava que era só depressão.

Eu sempre fui uma pessoa de muita fé em Deus. Minha avó era alcoólatra e eu sabia que tinha algo errado comigo. Perdi muitas coisas nesse período... Uma noite, tomei um analgésico e fui me deitar, não me lembro muito bem o que aconteceu. Acordei no hospital com um corte imenso no rosto, o nariz todo aberto devido a uma queda que sofri mas não sei dizer como e quem me socorreu foi meu filho mais novo que tinha 11 anos na época. Aquilo me deixou arrasada e pensei no por que eu estava deixando as coisas chegarem a este ponto. Fiquei desesperada e pedi ajuda a Deus, implorei por um caminho, uma luz. Acabei me lembrando de uma placa que dizia: Aqui reunião do A. A.

Fui à reunião e me surpreendi com o que vi. Quando você entra da porta para dentro você sabe que todos ali são iguais. Um dos doze passos do AA diz que a gente deve esquecer o orgulho, mas eu tenho orgulho de ter tido capacidade de deixar a bebida, sim.

Quando eu conto minha história às pessoas, tenho a impressão de que as mulheres se chocam inicialmente, mas a maior parte se admira e acha que eu deveria ir falando, falando até dar eco....

Mas eu não faço com o intuito de causar admiração nas pessoas, porque honestamente não há mérito em beber.

Tudo de ruim que te acontece tem que ser um motivo para que você não beba. Você tem toda a razão do mundo sóbria, mesmo que você não esteja certa. Você não tem um pingo de razão, mesmo estando certa, se tiver bebido.

Me sinto mais segura agora."

"Eu acho que quem fica no AA é um privilegiado. Muitos chegam mas poucos ficam. Aquele que chega para ficar de verdade vai para frente." Assim define L., 57, que por mais de 20 anos viveu a angústia e a dor da dependência do álcool. Há cinco anos no AA, ela hoje se sente dona de sua vida e faz tudo para recuperar o tempo perdido. "Sinto-me como se tivesse 19 anos de idade", diz referindo-se a todo o tempo em que esteve dependente. L., encara o alcoolismo como doença mas faz uma ressalva: "é muito cÃmodo a gente dizer que é genético, mas não é só isso. Tem um ladinho na gente que aponta um outro caminho também. No meu caso, meu avà tomava café da manhã com vinho. Eu mesma tive minha primeira experiência com bebida aos seis anos. Eu cresci sabendo que toda a família paterna tinha uma queda por bebida, e achava bonito beber porque pensava que as pessoas ficavam mais fortes conseguindo ingerir

álcool."

O problemas de família, a doença e morte do pai foram os ingredientes que faltavam para que L. se entregasse à bebida. "Cheguei a tomar nove litros de conhaque num dia e minha sorte hoje é de que não tive seqÃelas orgânicas sérias resultantes do vício."

L. passou 14 anos longe do álcool e sem acompanhamento mas acabou tendo uma recaída que durou seis longos anos e deixou marcas profundas. "A situação chegou a um ponto que minha família me tirou as chaves da casa, era vigiada o tempo todo e um pouco antes disso sofri uma queda num supermercado que me obrigou a tomar anticonvulsivos até hoje além de um cicatriz imensa na cabeça. Não me lembro de como isso aconteceu. Sei que escorreguei e que não havia bebido naquele dia."

Depois de chegar ao limite, L. pediu ajuda ao filho mais velho e foi até o AA. "A primeira coisa que percebi lá no AA foi uma placa onde estava escrito:

"O alcoolismo é uma doença". Nunca havia pensado nisso. Sinto-me muito bem e lá encontrei companheiros com o mesmo problema que o meu. Falamos a mesma língua." História do AA

Os Alcoólicos AnÃnimos, a mais conhecida e que consegue os melhores resultados no tratamento de doentes alcoólicos, foi fundado em 10 de junho de 1935, por dois alcoólatras, em Akron, nos Estados Unidos. O AA tem hoje cerca de 2 milhões de ativistas em cerca de 150 países. Em Bauru, o AA conta com oito grupos.. Para os participantes do AA a distância que os separa do álcool

é a de um braço - o necessário para se alcançar um copo. N., 57, há 5 anos no AA, diz que "a minha sobriedade vem até a ponta do meu dedo médio porque um copo não se enche sozinho e uma garrafa não tem pernas."

Os doze passos, premissa básica que orienta as ações do alcoólicos anÃnimos, partem da admissão do vício e da necessidade de ajuda. O grupo da rua Bandeirantes, 12-43 é o único que faz reuniões diárias, às 20 horas, na cidade. Oração da Serenidade

Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar. Coragem, para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras. Histórias de dor, álcool e desespero

Fonte: Revista Isto É, Desfile, Alcoólicos AnÃnimos