Poder de compra do brasileiro cai com a desvalorização cambial
Poder de compra do brasileiro cai com a desvalorização cambial
Texto: Luciano Augusto
Achar que com a inflação sob controle, o seu dinheiro está seguro é enganoso. O poder de compra dos salários ficou diminuÃdo com a desvalorização cambial e o aumento salarial dado pelo Governo Federal não repÃs as perdas. Mesmo assim, Fernando Henrique Cardoso está otimista. Será que o presidente está querendo desviar a atenção do povo em relação
à CPI do sistema financeiro?
A reposição salarial promovida pelo Governo, que incorporou ao salário mÃnimo mais R$ 6,00, passando de R$ 130,00 para R$ 136,00, embora represente ganhos significativos em termos econÃmicos, não representa muita para o trabalhador, porque não reflete aquilo que ele efetivamente perdeu com a desvalorização cambial.
O otimismo demonstrado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, em sua viagem aos Estados Unidos, no inÃcio desta semana, também mascaram uma situação irreal, de uma estabilidade fragilizada pela falta de investimentos na produção e sobre os problemas sociais. FHC afirmou em Washington que o pior da crise econÃmica já havia passado, com o controle da inflação, que segundo ele, deve chegar a 7%, e com a perspectiva de uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) em torno de 2%, bem menor do que as previsões do inÃcio da crise.
Para o economista e professor universitário Said Yusuf, 35 anos, "os efeitos da desvalorização da moeda ainda não estão bem claros, mesmo porque o governo conseguiu dar uma certa sustentação com o empréstimo de US$ 41,6 bilhões tomado junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI)". O economista explica que para a sociedade, ainda não houve um impacto muito grande, que virá depois, quando a ajuda do Fundo acabar e tivermos de andar com as próprias pernas. Ainda não houve a reação do setor industrial, e a nossa balança comercial ainda acumula déficits, com a importação superando as exportações. O incremento da produção nacional é, para Yusuf, a questão fundamental para a reativação definitiva da nossa economia.
O aumento salarial está ligado diretamente à s contas públicas e, por isso, o Governo não pode promover aumentos mais substanciais, porque isso desestabilizaria ainda mais as finanças nacionais, com o agravamento do déficit público. De acordo com a análise do estudioso econÃmico, se o Governo der um aumento maior ao salário mÃnimo, ele precisa arcar com os pagamentos dos quase 20 milhões de aposentados, além de ter que reajustar também os salários do funcionalismo, que ficariam defasados. Said Yusuf acha que o salário mÃnimo, nos moldes em que
é construÃdo hoje, deveria ser extinto, passando para negociações entre os empregadores e os sindicatos de cada categoria.
O achatamento salarial registrado no auge da desvalorização, ainda não foi totalmente absorvido com a melhora dos indicadores econÃmicos, porque os preços praticados pelo mercado foram reajustados e, mesmo com esta aparente calmaria, não retornaram aos nÃveis anteriores. Tudo aumentou, diz Yusuf, e "o aumento salarial não foi proporcional a este aumento". ConseqÃentemente, houve redução do poder de compra.
"Do ponto de vista econÃmico, sabe-se que o salário mÃnimo está defasado", afirma o também economista e professor Wagner Ismanhoto, 36 anos. Segundo sua visão, a polÃtica utilizada por FHC traz custos sociais elevadÃssimos e, embora a estabilidade da moeda seja patente, ela é fruto da retração do salários. "Efetivamente, as pessoas não podem comprar", destaca.
Ismanhoto explica que está faltando ao Governo uma ação polÃtica mais forte, com delimitações de metas mais claras e não simplesmente conter a inflação. O economista critica, sobretudo, a postura contraditória de FHC em relação aos aumentos de preços.
"Ao mesmo tempo em que o governo pede para as indústrias não aumentarem seus custos, ele próprio aumenta o combustÃvel; quer dizer, é um paradoxo". Com isso, FHC perde em credibilidade, agindo de forma diferente no discurso e na prática.
É certo que a inflação está controlada. Entretanto, o indicadores sociais ainda estão muito aquém de significarem a melhora econÃmica estampada nos discursos de Fernando Henrique. "O resto do mundo também acompanha os investimentos sociais", alerta Ismanhoto. O investidor estrangeiro olha, por exemplo, os nÃveis de renda, de bem estar da população, de desemprego. O Brasil tem atualmente, a segunda pior distribuição de renda do mundo, só perdendo para Botswana, na Ãfrica. Falta investimento na área social e em coisas produtivas, coisas que realmente possam dar resultados, mesmo que seja a médio e longo prazo. É uma polÃtica de contenção de inflação via redução de salários e não investimento na área social.
Um outro grande componente do crescimento econÃmico são as poupanças e hoje, o nosso nÃvel de poupança
é relativamente baixo.
A inadimplência, por exemplo, é um forte termÃmetro da falta de dinheiro no mercado. Segundo o economista e professor, o Ãndice de inadimplência em Bauru, de uma certa maneira, permanece estável, "porque já tomamos muitos sustos no passado". E não é porque o Governo vem baixando os juros (que agora são de 27% ao ano) que o risco de inadimplência baixou. O risco continua alto porque as taxas que os clientes tem que pagar para os lojistas e cheques especiais continuam altas, algo próximo de 10% ao mês. As pessoas começaram a perceber que não devem gastar mais do que ganham.
O perfil do consumidor hoje, é um pouco menos impulsivo e mais cauteloso, até porque não se sabe se terá disponibilidade financeira para pagar suas contas. Ele está sentindo a pressão e por contingência do mercado, o consumidor ficou mais cauteloso para fazer um crediário, por exemplo. Por outro lado, as lojas sabendo disso, estão mais seletivas para conceder o crédito, que ficou mais elitizado.
Com a paridade do câmbio e com a abertura da economia ao mercado internacional, os produtos importados começaram a se tornar baratos. E, com a valorização do dólar, os produtos ficaram mais caros, aumentando os custo. Havendo um aumento de custos na produção por conta da desvalorização cambial é claro que este aumento foi repassado no preço final do produto. O trabalhador perdeu porque ele também
é consumidor de produtos, mesmo que estes não sejam importados.
Reinaldo Cafeo, 38 anos, também economista e professor, prega que uma série de fatores contribuÃram para o "empobrecimento do brasileiro".
O ajuste fiscal, por exemplo, onerou barbaramente o trabalho assalariado, com o aumento da tributação. Tomando por base o salário anual, praticamente 50% do total, volta para o governo na forma de impostos. Além disso, as empresas tiveram uma queda nos nÃveis de produção, com reflexos na diminuição do poder compra e do padrão de vida. Somando-se aos dois fatores anteriores, existe o receio com relação à perda do emprego. "Mesmo sem a volta da inflação tivemos uma renda lÃquida muito menor neste perÃodo. As pessoas estão trabalhando mais, ganhando menos, com menos tempo para o lazer e mantendo e conservando os bens adquiridos anteriormente" esclarece Cafeo. Nos supermercados, as pessoas passaram a optar por produtos substitutos e, na educação, os colégios particulares estão sendo substituÃdos pelas escolas públicas.
Todos concordam que o pior da crise pode até ter passado, numa rapidez surpreendente, se comparando com crises similares em outros paÃses. O momento, dizem, é de tentar reverter o déficit da balança comercial nacional, ampliando a produção interna. Para tal façanha
é necessário que o Governo faça as reformas necessárias, em todos os nÃveis.
O que não se pode permitir é que o Governo tente, com este bom humor e este otimismo exagerados, desviar as atenções da sociedade em relação à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada para apurar irregularidades e favorecimentos às instituições financeiras.