07 de julho de 2026
Geral

Tempos modernos

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 9 min

A Lua-de-mel nos dias de hoje

A Lua-de-mel nos dias de hoje

Texto: Gustavo Cândido

A tradicional lua-de-mel anda meio em baixa. Antigo sonho de moças e rapazes recém-casados, principalmente por representar antes de tudo a oportunidade da primeira "noite de amor" entre eles, a lua-de-mel hoje representa mais a chance de viajar do que qualquer outra coisa. Em um grande número de casos nem a viagem acontece, resultado da situação financeira do país. Apesar de tudo ela ainda permanece cercada de uma aura mítica na cabeça das pessoas, como se, independente do sexo, ela representasse que o início da vida conjugal é paradisíaco, o que nem sempre

é verdade.

Existem duas versões para explicar a origem da expressão lua-de-mel. Uma delas conta que na Roma antiga, era costume do povo, espalhar gotas de mel na soleira da casa dos recém-casados, como sinal da doçura da vida a dois. Outra diz que entre os povos germânicos, era costume casar na lua nova, os noivos então levavam uma mistura de água e mel para beberem juntos ao luar.

Seja qual for a origem da expressão, a lua-de-mel, que no dicionário é definida como "o período de um mês, ou os dias seguintes após o casamento onde os noivos desfrutam de maior intimidade", se tornou uma tradição no mundo ocidental. Até alguns anos atrás era obrigatório que após a festa do casamento (ou mesmo durante, mais para o final) os noivos saíssem para viajar, dando início à lua-de-mel, cuja primeira noite, a noite de núpcias, era marcada pela primeira relação sexual entre o casal.

Hoje em dia as mudanças que vêm ocorrendo no padrões de comportamento sexual descaracterizaram o sentido que a lua-de-mel tinha de ser o marco no início da vida sexual do casal.

"É comum que a vida sexual comece antes do casamento, muitas vezes quando o casal se relaciona por muito tempo", diz a psicóloga, psicodramatista e terapeuta de casais e famílias, Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, "quando o casamento acontece, a fase da paixão, característica da lua-de-mel, já passou", explica.

Novo significado

Segundo a psicóloga, o significado da lua-de-mel já não deve ser considerado o mesmo hoje em dia, já que ela não se confunde mais com o começo da vida conjugal e em muitas situações ela até precede o casamento. "Talvez pudéssemos dizer que dizer que a lua-de-mel ;e a fase do enamoramento, da paixão, quando o casal está intensamente envolvido e voltado um para o outro", afirma Regina Vanin.

Para a psicóloga e sexóloga Maria Lúcia Biem, a lua-de-mel atualmente acontece quando os namorados têm a chance de viajar juntos e passarem alguns dias longe da família, dos amigos, etc. Isso porque hoje a vida sexual entre namorados

é mais ativa do que era antigamente.

Em baixa no mercado

Quem sentiu um pouco a mudança de significado da lua-de-mel foram os hotéis que tradicionalmente hospedavam os noivos na noite do "enfim, sós". Segundo José Cano Biazi, proprietário do Biazi Plaza Hotel, a freqüência de casais recém-casados era maior no passado. Gilmar Smeideris, gerente do tradicional Hotel Colonial, confirma: "é raro ter no hotel um casal em lua-de-mel, esse tipo de hóspede diminuiu muito nos últimos tempos", diz.

Receber recém-casados sempre foi uma tradição em hotéis. Alguns deles reservavam tratamento especial para os noivos, como suíte especial, flores e frutas no quarto, champanhe... além de um preço especial. Mesmo sem reclamar da assiduidade dos noivos, embora admita que houve uma queda na frequência, o gerente do Fenícia Palace, diz que o hotel tem o costume de negociar o preço da diária quando se trata de casamento. Outros hotéis fazem o mesmo, na tentativa de receber os pombinhos.

Bom e importante

Apesar de não ser mais símbolo de "primeira vez", a lua-de-mel permanece na cabeça das pessoas como uma etapa importante nas suas vidas após o casamento.

"É uma coisa necessária para começar uma vida nova, significa o começo do convívio com a pessoa", diz Érika Priscila de Andrade, que está noiva. Ela pensa em passar a lua de mel com o noivo Cléber em algum lugar romântico, "não pode ser em qualquer lugar, não é?", questiona. Casada há três anos, Marilene Amaral Melro conta que abdicou da festa de casamento por uma lua-de-mel e acha que fez muito bem. Silvia e Éverson Castro dividiram os eventos: casaram e fizeram a festa para os amigos e parentes e deixaram para ter a lua-de-mel depois, viajaram 8 meses depois de casados para Cancún, no México, quando o emprego do marido deu uma folga.

"Para algumas pessoas ela representa que o início da vida conjugal é paradisíaco", diz Regina Vanin. Por isso que quando são perguntadas sobre lua-de-mel na rua, todas as pessoas afirmam que gostariam de viver uma um dia.

Cada vez mais cedo

Texto: Gustavo Cândido

Não é a toa que a lua-de-mel deixou de ser relacionada

à primeira vez dos noivos. Os adolescentes brasileiros estão fazendo sexo cada vez mais cedo. Segundo dados do Ministério da Saúde e da Sociedade Civil do Bem-Estar Familiar (Bemfam), 30% das meninas com idade entre 15 e 19 anos já têm vida sexual ativa. Este número era de 14% até 1986. Essa liberdade sexual, embora esteja bastante presente, muitas vezes é escondida da família, que continua crendo (ou fingindo que crê) na eterna inocência dos filhos e filhas.

O assunto é preocupante, pais, professores, autoridades médicas e sanitárias vivem sem saber o que fazer e o que dizer diante do fato de que os jovens estão encurtando cada vez mais a infância e pulando diretamente para uma adolescência sexualmente ativa.

Não é apenas o sexo que vem mais cedo, o comportamento em relação a ele também mudou. Há alguns anos atrás, era comum que os rapazes iniciassem sua vida sexual com prostitutas e reservassem a namorada apenas para depois do casamento (daí a importância maior da lua-de-mel antigamente). Hoje em dia a iniciação sexual raramente acontece com uma "profissional" como antes. Os jovens transam entre eles, como explica a psicóloga e sexóloga Maria Lúcia Biem, "os garotos têm relação sexual com as chamadas 'meninas fáceis'", diz, que são aquelas mais abertas ao sexo. A psicóloga lembra que os garotos têm tendência a valorizar as meninas de acordo com a atitude sexual delas. Assim, uma garota que namorou por um longo tempo e terminou o relacionamento, é vista como uma boa opção por ser 'menos rodada', como dizem os adolescentes. "Ainda existe uma visão machista quando o assunto é sexo", diz Maria Lúcia Biem.

Hormônios e avanços

Essa liberdade tem tornado o sexo tão fácil, que está acabando até mesmo com o namoro, que agora só acontece quando existe um envolvimento afetivo maior. Segundo Maria Lúcia Biem, não é de se espantar o fato de hoje uma garota de 13 ou 14 anos estar tendo relações sexuais, ela lembra que até mesmo no começo do século era comum que as mulheres se casassem bem cedo e tivessem filhos também, era uma questão de costume, as mulheres quase não estudavam e eram voltadas única e exclusivamente para o casamento. A mudança no comportamento feminino começou com o desejo de emancipação da mulher, que foi para escola secundária e tomou lugares no mercado de trabalho.

"O que aconteceu com isso? A adolescência feminina ficou muito grande, o ápice da vida hormonal ativa da mulher passou a existir no mesmo tempo em que ela estuda e com isso retarda o casamento e tem à sua disposição novos avanços da medicina como a pílula anticoncepcional", diz a psicóloga. Todos esses fatores somados trouxeram o sexo mais cedo para as mulheres.

Erotização precoce

Se a adolescência aumentou tanto com a emancipação e os avanços femininos, por outro lado a infância diminuiu. "As crianças estão se erotizando demais, através da própria música, das danças, da televisão. Isso traz uma sexualidade precoce", diz Maria Lúcia Biem.

Os resultados estão aí para todo mundo ver, afinal não difícil sair na rua e ver qualquer garotinha de sete anos vestida como a Xuxa, Carla Perez ou "Tiazinha".

O que fazer para reverter esse quadro e com isso, talvez, evitar que a sua filha chegue em casa grávida aos 13 anos? O óbvio, conversar sobre sexo e orientar os filhos dentro de casa para evitar que eles procurem aprender as coisas na rua de qualquer jeito, até porque em tempos de aids e outra doenças terríveis, a gravidez pode nem ser o pior problema da falta de educação sexual.

Aprendendo a ficar

O ficar, a coisa mais comum entre os jovens hoje em dia, foi, de certo modo, um grande avanço nas relações entre os adolescentes. Mas ele também trouxe a capacidade de trocar de parceiro com mais facilidade, uma liberdade que não tem sido bem explorada por alguns, principalmente as meninas.

"A garota pode ficar com vários rapazes, assim como eles ficam com várias garotas, mas é preciso saber ficar. É preciso saber o que se quer daquele ficar, porque ele nem sempre precisa significar uma transa", explica Maria Lúcia Biem. De acordo com a psicóloga a mulher tem uma necessidade de carinho, de beijos e abraços, sem que isso inclua uma transa, às vezes. "O ideal é reservar essa transa para o momento em que ela tiver um significado especial, quando for com uma pessoa especial", diz.

Segundo a psicóloga o problema não está em ficar e nem em ter uma relação sexual, desde que ela esteja protegida e segura do que quer, o problema é vulgarizar demais o ato e perder o controle sobre ele. "Existem muitas garotas que ficam e transam na primeira vez, isso não

é bom porque mais cedo ou mais tarde elas vão ficar arrependidas, porque não têm maturidade para isso", diz Maria Lúcia Biem, "saber ficar é uma arte e até a chance que a pessoa tem de conhecer melhor a pessoa e conquistá-la, transformando o relacionamento em uma coisa mais duradoura e profunda".

Todo mundo quer

Veja o que as pessoas responderam quando foram perguntadas sobre lua-de-mel

"Quero ter uma lua-de-mel porque é o sonho de todas as mulheres, se eu puder vou ter uma sim"

Adriana Aparecida de Souza, 27 anos

"Se um dia eu casar vou querer ter uma porque é legal viajar"

Joelma Pereira, 19 anos

"Deve ser gostoso casar e curtir a lua-de-mel"

Andreia de Lourdes Freires, 21 anos

"Quero uma lua-de-mel sim. Todo mundo gosta, nem que seja só pra passear"

Fábio Alexandre Coelho, 22 anos

"Acho legal ter uma, faz parte"

Rodrigo Benjamim, 20 anos

"Se eu tiver condições vou querer ter uma lua-de-mel. Acho legal"

Luis Sérgio Cardoso, 20 anos