04 de março de 2026
Geral

Entrevista

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 5 min

Fazendo jornal nos anos de chumbo

Fazendo jornal nos anos de chumbo

Texto: Gustavo Cândido

Há quase dois anos à frente da Delegacia Regional de Cultura, o paulistano Cassio M. Cardozo de Mello Filho está satisfeito com o sucesso da programação do Mapa Cultural, um evento que anualmente incentiva e descobre novos talentos no mundo das artes no Estado e que ele ajuda a organizar nessa região de São Paulo. Candidato a prefeito de Pirajuí (cidade dos pais) nas últimas eleições pelo PSDB, ele, entre outras atividades, já participou da elaboração de uma importante publicação da imprensa alternativa na época da ditadura, o jornal

"O Movimento". Cassio conversou com Jornal da Cidade sobre a época.

Jornal da Cidade - Você é jornalista?

Cassio M. Cardozo de Mello Filho - Sou jornalista formado pela Alcântara Machado em 1978/79. A minha área sempre foi a comunicação. Atuei com cinema publicitário, fiz alguma coisa com montagem de longa-metragem na J Filmes, fui produtor de rádio-tv, trabalhei no departamento de propaganda do Bradesco, fui da Gang Publicidade, fui produtor de cinema e depois fui para a imprensa alternativa.

JC - Em que veículo?

Cassio - O jornal "O Movimento", que eu fazia junto com o Antonio Carlos Ferreira. Ele era o diretor de operações e eu era chefe da administração, depois fui para uma área administrar um dinheiro que não existia. Sai de lá quando terminou a censura, foi quando eu sai de São Paulo e vim para o interior...

JC - Como foi a sua experiência com o cinema?

Cassio - Eu trabalhei com pré-montagem e produção. Só que o mercado de cinema no Brasil era muito complicado, hoje estamos vendo o cinema paulista dar uma alavancada, pelos incentivos e pela tomada da Vera Cruz, mas naquela época de repressão, fazer cinema político era complicado, difícil. Ou você caia na pornochanchada ou ia para atividades paralelas como o uso do Super-8, que era acessível, mais barata. Eu atuei alguma coisa com o Super-8, como continuista dentro da própria faculdade. O que possibilitava a sobrevivência era o cinema publicitário, eu fiz uma série de coisas e também trabalhei como free-lancer.

JC - Como foi a sua experiência no jornal alternativo?

Cassio - O jornal circulava no Brasil inteiro, tinha um esquema de assinatura e também tinha um esquema de reparte que era feito pela editora Abril e a gente enfrentou diversas passagens interessantes porque o jornal sofria censura prévia e tinha que passar pela Polícia Federal. Eles analisavam e vetavam certas coisas. O "Estadão" publicava receitas culinárias no lugar das matérias vetadas, a gente colocava uma tarja preta. O interessante é que até nos bilhetes eles batiam o carimbo de vetado. O jornal era impresso na sexta e no sábado havia uma escala das pessoas que deveriam levá-lo na polícia.

JC - Aconteceu alguma coisa com você em alguma dessas idas à Federal?

Cassio - Eu me lembro que uma vez fui eu e o companheiro do arquivo, Samuel Pereira... a gente nunca ia sozinho por questão de segurança e a gente ficou detido por causa da chamada de capa do jornal. A manchete era: "Geisel no Mar de Lama" e o jornal foi apreendido. Nós ficamos retidos em um banco. No porão estava um repórter da Folha e o tempo todo eles nos ameaçavam, dizendo que íamos engrossar a fila lá embaixo.

JC - O que aconteceu?

Cassio - Saímos dali três horas da tarde e ligamos de um orelhão para o pessoal do jornal separar o reparte das assinaturas e o reparte de mão-em-mão porque eles já estavam atrás do reparte da Abril. Quem dava apoio para isso era o Sérgio Motta, que depois foi Ministro das Comunicações, ele dava todo apoio administrativo para o jornal e foi um grande lutador na questão do restabelecimento da democracia no país. Ele ajudou muito o pessoal que era perseguido.

JC - Como surgiu o jornal?

Cassio - Ele era uma dissidência do "Opinão" do Gaspariam, no Rio de Janeiro. Posteriormente surgiu uma outra dissidência que formou o "Em Tempo". Todos tinham a premissa de estar informando o que não era permitido oficialmente.

JC - O jornal tinha muitos assinantes?

Cassio - Tinha uns doze mil no Brasil todo, porque era a única fonte de informação que havia.

JC - Pelo o que você falou o jornal não tinha muitos recursos, como vocês viviam?

Cassio - Vivíamos à base de vales. Só recebiam os dois boys e a faxineira/cozinheira, que eram registrados. Foi uma época difícil.

JC - Você já era casado?

Cassio - Sim e já tinha dois filhos. Em função deles é que decidi mudar de projeto de vida e tentar montar uma pequena propriedade agrícola auto-sustentável.

JC - Você já fazia militância na época de estudante?

Cassio - Desde de secundarista, por influência do meu primo eu já acompanhava os movimentos estudantis.

JC - E a política?

Cassio - Eu me filiei ao PSDB em São Paulo, mais tarde me transferi para Pirajuí e me candidatei a prefeito, numa campanha que se eu precisasse fazer, faria de novo.

JC - Como foi a campanha?

Cassio - Foi quase sem recursos e também sem prometer coisas impossíveis. Nós tivemos uma votação de 2.300 votos, bastante expressiva. O primeiro colocado teve 3.300, foi uma diferença pequena. O número de votos que eu tive representa que alguma coisa está mudando na cabeça das pessoas, que acreditaram que uma forma de atuar diferente era possível.

JC - Você se candidataria novamente a prefeito?

Cassio - Isso depende do partido e das circunstâncias, do momento. Isso deve ser decidido em convenção. Eu estou muito contente de voltar atuar na minha área que

é a de comunicação aqui na Delegacia da Cultura, você retomar uma coisa que deixou para trás há 20 anos é uma coisa difícil. Pelos resultados que a gente tem conseguido é importante eu pensar na área profissional, prefeitura é um negócio de 4 anos, depois disso você é ex-prefeito.