"Todo homem tem que saber a hora de parar"
"Todo homem tem que saber a hora de parar"
Texto: Paulo Toledo
Depois de 40 anos atuando no mercado de Bauru, o empresário supermercadista João Svizzero, 66 anos, que vendeu a Rede Santo Antonio de Supermercados à Rede Sé Supermercados, diz que um homem deve saber o momento de começar e o de parar, como fez Pelé, o Rei do Futebol. Svizzero diz que está saindo da atividade "pela porta da frente", além disso, mostra sua preocupação social: na hora de acertar a negociação, fez questão de garantir o emprego dos trabalhadores da Rede, dos quais 98% devem ficar. Como não poderia deixar de ser, devoto de Santo Antonio, Svizzero afirma que essa preocupação se deveu à sua formação e religiosidade. Hoje é o último dia que as lojas da Rede estão sob seu comando. Ele sai com a sensação de dever cumprido. Veja os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - Neste domingo será o último dia do senhor à frente da rede Santo Antonio. Qual a sensação, após 40 anos de trabalho no ramo supermercadista?
João Svizzero - Hoje é, efetivamente, o último dia que estamos na Rede Santo Antonio. Nesta segunda-feira, as lojas estarão fechadas. No dia 4 de junho, o comprador, o Sé Supermercados, vai reabrir as lojas sob sua administração. Há mais de 40 anos, vim para Bauru e fui muito bem recebido pelas pessoas, que me apoiaram e ajudaram a construir essa rede de supermercados. Se não fosse a população eu não teria feito nada. Claro que tem a parcela de nossa administração, mas, se não fosse a população não seria possível.
JC - Como seus parceiros e funcionários estão sentindo a mudança?
Svizzero - Dos mais de 800 funcionários (860) que temos na Rede, cerca de 98% vão permanecer na nova empresa. Isso foi uma das coisas que eu procurei negociar com o comprador, em sabendo da dificuldade que hoje se tem de emprego e por ter uma equipe muito boa, bem preparada e que a população gosta. Aproveito para agradecer a essa equipe que sempre me apoiou, desde o mais humilde, até o mais elevado cargo na empresa, que sempre estiveram comigo tanto nos momentos difíceis, como nos mais fáceis e, hoje em dia, posso considerar que temos uma família Santo Antonio. Eu quero agradecer, também,
à Imprensa e os parceiros fornecedores de todo o Brasil, incluindo os de Bauru e região.
JC - Essa atitude de preservação dos empregos
é rara, principalmente em negociações como a que o senhor fez. Por que isso?
Svizzero - É claro que tem alguns cargos que a nova empresa não poderá absorver, pois são estratégicos para ela. Porém, o que me levou a isso é minha formação. Sempre tive uma formação humilde, sei quanto custa e sei a dificuldade da vida. Esse é um dos pontos. Segundo, porque sou católico, creio muito em Deus, e não adianta nada a gente ler a Bíblia e depois fazer diferente, pois quem julga não é o homem, mas, sim, Deus. Isso não é temor e sim um compromisso que tenho, devido a formação que meus pais me deram.
JC - Por que Santo Antonio?
Svizzero - O nome Santo Antonio se deveu a uma tradição de família, do meu pai. Desde pequeno, aprendi a ser devoto de Santo Antonio. Então, essa é uma tradição da minha família, dos meus irmãos. Me estabeleci em Bauru e não podia por outro nome. Podia, mas achei que seria o nome correto e, graças a Deus, não tenho do que reclamar.
JC - O senhor começou com um pequeno bar...
Svizzero - Sim, na rua Batista de Carvalho, em frente à antiga Casa Lusitana, em 1952. Dois anos depois, me casei com minha esposa Jacira e, naquele mesmo ano, passei para um empório, na rua Primeiro de Agosto, perto do cemitério. Esse estabelecimento foi transformado no primeiro supermercado, de 160 metros quadrados. E, a partir daí, tivemos a história do Santo Antonio até chegar aqui.
JC - Muitos ainda se perguntam o por que do senhor decidir deixar a atividade empresarial?
Svizzero - Acho que todo homem tem que saber começar e saber parar. Temos que entender que passamos pela Terra, não somos definitivos. Como minha família ainda é pequena
(apenas a filha Maria Lúcia Svizzero Cabello, a Lucinha), não tem praticamente uma sucessão. O setor é muito competitivo e bastante dinâmico e necessita de mais pessoas, principalmente proprietários, para que se possa desenvolver um trabalho.
Além disso, as coisas vieram mudando. O mercado, hoje em dia, já é outro. E, com essa mudança, entendi que seria a hora de parar, como você já citou em uma reportagem, saindo pela porta da frente. Olhei em outras pessoas que tomaram essa decisão, entre eles o Pelé. Se ele não tivesse parado no auge, não seria o Pelé de hoje, como temos o exemplo de muitos outros jogadores e alguns empresários que não pararam e sumiram na decadência. Achei que era o momento exato para parar.
JC - Pela informações de mercado, o senhor está entregando uma empresa saneada, sem dívidas...
Svizzero - Não vendi por estar devendo. Não devo tributos, nem tenho dívidas. Vendi porque achei que era o momento exato para mim e para minha família.
JC - O cidadão João Svizzero vai fazer o que?
Svizzero - Vamos tentar descansar um pouco. Tenho muitas coisas a fazer ainda. Vou continuar minha vida, não muda quase nada.