"Armadilhas" aparecem na cantina da escola
"Armadilhas" aparecem na cantina da escola
Texto: Sabrina Magalhães
Escola de Bauru promove educação alimentar fazendo alunos participarem do plantio e colheita dos alimentos e confecção dos pratos
Na competição entre alimentos naturais e guloseimas industrializadas, a maior vilã para a criança é a cantina da escola, onde doces, balas, chocolates, lanches condimentados, refrigerantes e salgadinhos estão convidativamente expostos nas vitrines. "São grandes armadilhas", afirma a pediatra Nabia Sabbag. "Então, os pais não devem dar dinheiro para a criança, porque sem dinheiro, ela não tem como comer. O ideal é levar o lanche de casa, um lanche à base de frutas, sucos, queijo branco."
Ela defende que os pais também precisam começar a reclamar, lembrando que são eles que pagam a escola, eles que custeiam os gastos com a cantina, portanto, devem batalhar para que sejam vendidos produtos mais saudáveis. "A escola é dona daquele espaço (cantina) e vai oferecer o que for interessante para ela. Se a direção se conscientizar de que o natural é importante para seu aluno, vai oferecer o natural. E se só tiver este produto, o aluno vai comprar. É uma batalha que tem que ser travada entre pais e diretores."
Na opinião da também pediatra Adriana Barbieri,
é aí que aparece a importância da educação alimentar desde os primeiros meses de vida: "Se a criança já tem o hábito de comer o saudável, ela vai saber separar o que é melhor ou não. Acho que desde pequenos a gente já tem que se preparar, porque a criança de hoje vai ser um adulto amanhã e precisa estar preparada quando encontrar essas 'armadilhas'. O tempo todo ela vai ter que saber dosar. Dosar o tempo do computador, o tempo da atividade física, o tempo de desfrutar das guloseimas".
Comparação
Outro questão bastante comum nas escolas é a comparação entre os alunos do lanche que levam para a escola. Muitas vezes, aquele que leva as guloseimas industrializadas acaba induzindo o outro, que levou um lanchinho saudável, a querer trocar. Questionada a respeito da atitude da criança diante dessa situação, Nabia reforçou a importância da família: Se você perde uma hora sentando com os filhos e contanto para eles porque não devem comer aquilo, eles vão aceitar. Com isso, você previne esse comportamento, que poderia resultar o grande obeso no final.
Escola dá um exemplo
A Viver Escola Waldorf de Bauru desenvolve um trabalho exemplar na educação alimentar de seus alunos. Desde o Maternal até a 8.ª série, as crianças, além da grade curricular normal, cursam a disciplina de Horticultura, aprendendo a cultivar e colher os alimentos, bem como a confeccionar vários pratos com eles.
De acordo com a coordenadora Cláudia Veiga, as atividades variam de uma série para outra, conforme a idade dos alunos. Então, as turmas do maternal aprendem a fazer pão: uma vez por semana, todos vão para a cozinha fazer o pão, que será servido no horário do lanche, acompanhado, por exemplo, do patê de cenoura, feito pelos alunos de outra série, com as cenouras plantadas e colhidas por outra turma.
"Nosso lanche é totalmente feito aqui na escola. E a gente procura fazer o pão integral, suco de fruta natural, granola, mel, buscando o mais saudável. Servimos frutas diariamente, verduras e legumes, tudo com a participação direta dos alunos. E como são eles que produzem, eles ficam ansiosos em experimentar e acabam adotando. Os pais estão sempre comentando que o filho não comia determinada fruta ou legume e agora vive pedindo isso."
Segundo a professora Patrícia Prado, além de educar as crianças a comer alimentos mais saudáveis, o trabalho ajuda a criança a compreender a noção de tempo, "por exemplo, ela não sabe que hoje é quarta-feira, mas sabe que é o dia de fazer pão".
Com o tempo, depois de aprender a plantar, colher e preparar os alimentos, os alunos vão aprender a aproveitar os restos para fazer adubo orgânico (associando aí os conhecimentos das aulas de Ciências). Mais tarde, vão plantar cana, para produzir álcool. Vão ordenhar a vaca para, com o leite, produzir queijo e manteiga, e assim por diante.
Segundo as professoras, por oferecer o lanche, elas conseguem evitar que os alunos levem as guloseimas industrializadas para a sala de aula. "Até porque, se ele trouxer, nós vamos fazer com que ele traga para todos os colegas e, sabendo disso, ele acaba não trazendo. Fora daqui, ele pode até comer, mas ele já sabe que o que é feito na natureza
é mais saudável para ele. Mesmo que ele coma, sua alimentação já vai ter as verduras , legumes e frutas, não só as bobagens."