11 de março de 2026
Geral

Beleza

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 8 min

Ser magra é ser bela?

Ser magra é ser bela?

Texto: Gustavo Cândido

Regimes, malhação, plástica. As mulheres recorrem a tudo o que podem para ficar cada vez mais magras como pede o padrão de beleza vigente neste final de século no Brasil. Em muitos casos elas acabam até se tornando escravas do "culto ao corpo" e perdendo a capacidade de diferenciar saúde e bem-estar do modelo ideal de imagem que é cobrado pela sociedade. Esta semana a psicóloga Maria Regina CÃrrea Vanin que fez uma monografia intitulada

"A Construção Cultural do Conceito de Obesidade Feminina", onde procura refletir sobre os fatores que determinam os padrões estéticos para o sexo feminino, e a sua transformação de acordo com a época e a cultura, esteve falando sobre a obsessão pela magreza e os distúrbios alimentares, em uma palestra no Sesc. Ela também falou com o Jornal da Cidade sobre o assunto.

Jornal da Cidade - Por que o padrão estético exige que as mulheres sejam tão magras?

Maria Regina CÃrrea Vanin - Autores como Naomi Wolff

(autora de O Mito da Beleza - Ed. Rocco) acreditam que a crescente pressão para que as mulheres sejam cada vez mais magras, seria uma tentativa de imobilizar as mulheres através dos rituais de beleza, como resultado de uma reação de temor tanto de homens como de mulheres, diante das mudanças provocadas pela emancipação feminina. Esta autora acredita que as conquistas profissionais femininas ameaçam o poder social masculino, e que estando ocupadas em manter o peso, a beleza e a juventude, as mulheres teriam menos tempo e energia para investir na vida profissional. Wolff acredita ainda que a insatisfação da mulher com o próprio corpo interessa à indústria da beleza, que movimenta fortunas com moda, cosméticos, tratamentos para emagrecer, produtos

"diet", etc.

JC- Como era em outros tempos?

Regina Vanin - A beleza não é universal nem imutável e os padrões variam de acordo com a época e a cultura. Estudos antropológicos revelam que entre o povo Wodaabe da Nigéria, as mulheres detém o poder econÃmico e os homens se maquiam e participam de concursos de beleza; há uma nítida obsessão pela beleza masculina. Natalie Shainess, terapeuta e escritora americana, no seu livro sobre o masoquismo feminino, "Doce Sofrimento"

(Ed. Melhoramentos) relata que filmes antropológicos da Nova Guiné mostram que as mulheres mais velhas não tem constrangimento de mostrar os seios caídos, e nem os homens notam de modo especial a diferença entre os corpos das jovens e das mais velhas. Mesmo considerando a nossa cultura nem sempre a magreza preconizada hoje predominou como padrão estético. Basta ver as obras dos grandes pintores desde a antigÃidade até o século passado. No final do século XIX eram valorizadas as mulheres roliças. Na década de 20 coincidindo com a conquista do direito de voto pelas americanas, o padrão de beleza era bem diferente de hoje. As misses dos anos 50, como Marta Rocha, são um exemplo disso. A partir dos anos 60, quando a mulher se integra no mercado profissional surge o estilo Twiggy (a modelo inglesa magérrima e quase andrógina que marcou aquela época). Daí para cá as mulheres vem sendo bombardeadas por imagens de um padrão de beleza magérrimo.

JC - Desde quando as mulheres vivem a ditadura da balança?

Regina Vanin - Essa pressão vem aumentando particularmente a partir dos anos 60.

JC - Quais as conseqÃências dessa cobrança para grande parte das pessoas que não se encaixam no perfil exigido pela moda?

Regina Vanin - A insatisfação com o próprio corpo, a não aceitação de características constitucionais e genéticas. Isso muitas vezes leva a distúrbios alimentares. Leva também as mulheres a se submeterem a cirurgias plásticas e lipoaspiração muitas vezes desnecessárias. Temos o exemplo mais ou menos recente da modelo Cláudia Liz que quase morreu num choque anestésico para se livrar de 2kg e 2 cm a mais nos quadris. A anorexia, por exemplo, é um distúrbio com grande incidência nas modelos. Uma pesquisa feita com mulheres de 20 a 45 anos das classes A e B de São Paulo, revela que 95% sentem-se insatisfeitas com o próprio corpo. Outra pesquisa revela que uma em cada seis entrevistadas daria mais de 5 anos de sua vida para ter o que imagina ser o peso ideal.

JC - O que são anorexia e bulimia e o que os provoca?

Regina Vanin - A anorexia e a bulimia são distúrbios alimentares. A anorexia se caracteriza pela recusa à alimentação, a pessoa chega as vezes à inanição e mesmo assim não consegue ver-se magra. A bulimia se caracteriza pela ingestão excessiva de alimento seguida de vÃmito provocado. Esses distúrbios, assim como distúrbio em que a pessoa come excessiva e compulsivamente, são causados por uma complexidade de fatores. Temos que considerar nesses distúrbios uma interação de fatores emocionais, orgânicos, familiares e sociais. Os distúrbios alimentares aumentaram nas últimas décadas coincidindo com a crescente pressão para que a mulher emagreça. Mas não podemos considerar essa pressão como causa. Essa seria uma visão simplista. Essa pressão pode favorecer os distúrbios e ser um fator a mais na sua etiologia.

JC - Como evitá-los?

Regina Vanin - Hoje em função ds meios de comunicação somos mais bombardeados pela propaganda, e a influência dos padrões impostos pela mídia

é muito mais intensa. Paradoxalmente, a insatisfação e rejeição pelo próprio corpo levam a um aumento de tensão e ansiedade que podem favorecer a alimentação compulsiva e o conseqÃente ganho de peso. A mudança de atitudes na cultura começa com o amor próprio e a aceitação de si mesmo. Clarissa Pinhola Estés no seu livro "Mulheres que correm com os lobos" propõe que se trace um cálculo mais amplo para se incluir o que

é belo, e que as mulheres passem a valorizar mais a sua essência do que a aparência. Ela diz que assim como a natureza está repleta de muitas espécies de beleza, também não pode haver apenas um formato de seio, de cintura, um tipo de pele. Ela acredita que as mulheres deveriam orgulhar-se de suas características herdadas e não rejeitá-las, e preocupar-se mais com a sua vida criativa. A auto-estima, o desenvolvimento de potencialidades, um maior auto-conhecimento e uma melhor relação com o próprio corpo e as próprias sensações podem auxiliar na prevenção dos distúrbios alimentares. Resumindo, acredito que a pessoa que possui um maior equilíbrio emocional, uma vida criativa, e relacionamentos harmoniosos, está menos vulnerável a esses distúrbios.

JC- Em alguns lugares do mundo, como no oriente, a mulher mais

"cheinha" é tida como mais bonita. Por que esta diferença com o ocidente?

Regina Vanin - Já dissemos que o padrão de beleza varia com a época e com o lugar. Segundo Natalie Shainess vivemos numa sociedade que rejeita cada vez mais as coisas femininas. Naomi Wolff também acredita que uma cultura misógina faz com que as mulheres odeiem as partes do corpo que têm sentido sexual: seios, coxas, nádegas, ventres. Talvez culturas que reverenciem mais o poder feminino vejam a beleza, nessas mulheres mais cheinhas. Lucy Penna no seu livro

"Dance e recrie o mundo", sobre a dança do ventre, diz que "dançando nos cultos e rituais de fertilidade, os jovens dos povos mesopotâmicos, e também as indianas e as egípcias, se ofertavam como filhas a serviço das suas deusas. Sua feminina sensualidade não ficava escondida, mas transparente, pois a própria Deusa era representada com seis fartos e largos quadris de mulher e mãe maduras. Naquela época, o corpo feminino ideal deveria ter boas pernas, melhores quadris e abrigar uma ampla bacia, sinal de que muitos filhos poderiam passar à vida". Talvez a admiração de alguns povos pelas mulheres "cheinhas" tenha resquícios dessa reverência pelo poder feminino na antigÃidade.

JC - Quais são as tendências para o futuro, a mulher mais gordinha vai voltar a ter um lugar de destaque um dia ou não?

Regina Vanin - Vejo algumas tendências no sentido de fazer com que a mulher fique mais consciente da pressão cultural que existe para que ela tenha determinada forma corporal, e rejeite as críticas destrutivas ao seu corpo. O livro de Clarissa Pinhola Estés "Mulheres que correm com os lobos", é um exemplo disso. Ela incentiva as mulheres a valorizarem o corpo e o espírito muito mais por sua capacidade de vitalidade, sensibilidade e resistência do que pela aparência. A loja de cosméticos "The Body Shop" usa espaço publicitário em revistas e na Internet para uma original e bem humorada campanha contra a ditadura da magreza. O seu slogan diz: "Há 3 bilhões de mulheres no mundo que não se parecem com supermodelos e apenas 8 que se parecem". A estrela dessa campanha é a boneca Barbie com vários quilos a mais. A mensagem implícita é: "Ame o seu corpo como ele é".

JC - Existem partes do corpo da mulher que são mais valorizadas?

Por que?

Regina Vanin - Até isso varia culturalmente. Geralmente as partes mais valorizadas são as que tem sentido sexual. Mas sabe-se por exemplo que os norte-americanos tem uma fixação maior por seios enquanto que os brasileiros valorizam mais as nádegas. Pesquisas antropológicas revelam coisas curiosas, como por exemplo: o povo Maori admira uma vulva gorda enquanto o povo Pachung curte seis caídos. Como se vê, não há regra universal quando se trata de beleza... No entanto o que se vê, principalmente no caso das modelos,

é uma mulher de 1,75 querer pesar 50 kg ou mesmo 55 kg, que para ela é um peso baixo. A compulsão alimentar deve ser tratada como um distúrbio, e ela leva a obesidade que pode se tornar mórbida, sendo nesse caso uma patologia. Por isso tudo o que dissemos acerca dos padrões irreais não deve ser tomado como um encorajamento para que as pessoas engordem e deixem de se cuidar. O que deve se combater é o exagero, é achar que todas as pessoas devem se encaixar num mesmo padrão, desrespeitando características genéticas e constitucionais. Deve-se procurar alimentação balanceada, orientação médica, psicológica e nutricional para os distúrbios alimentares, e exercitar-se sempre. Mas também libertar-se da "neurose da balança" imposta pela mídia. Até porque a preocupação excessiva leva à ansiedade e esta favorece a compulsão alimentar. A pessoa ansiosa acaba comendo mais e engordando.