12 de março de 2026
Geral

Assassinato

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 5 min

Sem-terra é assassinado em Brasília Paulista

Sem-terra é assassinado em Brasília Paulista

Texto: Fábio Grellet

Responsável pela negociação com órgãos governamentais foi atingido por cinco tiros, na noite de sexta-feira. Não há testemunhas e o gerente da fazenda é o único suspeito, até agora

Brasília Paulista - O sem-terra Lafaiete Antônio de Oliveira, 42 anos, foi assassinado por volta das 10h40 de sexta-feira, no acampamento que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra

(MST) mantém, há 31 dias, na fazenda Santo Antônio, em Brasília Paulista, distrito de Piratininga.

Segundo um dos coordenadores do acampamento, Odair Lopes Vieira, por volta das 22 horas é imposto o toque de recolher, e a maioria dos acampados vai dormir. Ficam fora de suas barracas, apenas, algumas pessoas responsáveis pela segurança do local. Quando Lafaiete foi atingido, porém, ele estava sozinho em uma área do acampamento, e ninguém observou qualquer movimentação suspeita. De repente, Lafaiete teria dado o grito de alerta ("Assembléia") e, antes que os acampados pudessem reagir, Lafaiete foi atingido com cinco tiros. Quando foi socorrido, o sem-terra já estava morto, alvejado no rosto. Foram ouvidos, ao todo, seis tiros, e uma cápsula (de calibre ainda não identificado) foi encontrada, ontem, próxima ao local do assassinato. Lafaiete foi encaminhado à Santa Casa de Piratininga, onde sua morte foi constatada oficialmente.

O coordenador do acampamento disse ao Jornal da Cidade que o único fato estranho observado pelos sem-terra, durante a noite, foi uma agitação anormal dos cães que protegem os acampados. Ninguém teria constatado a presença de qualquer pessoa estranha nas proximidades, porém, nem barulho de veículos ou de animais de transporte. Segundo Roberto Carlos Ilhesca, delegado de polícia de Piratininga e responsável pelas investigações sobre o caso, alguns sem-terra ouvidos em seguida à ocorrência teriam afirmado que ouviram, sim, barulhos estranhos (de cavalos ou veículos) antes do assassinato.

O delegado, ontem pela manhã, tomou o depoimento do gerente da fazenda, Rui Martins, que mora em São Paulo mas tem permanecido na região, em decorrência da invasão da fazenda. Ele é apontado pelos sem-terra como um dos suspeitos, porque teria se envolvido em uma discussão com dois militantes do movimento, no início da noite de sexta-feira, em um bar de Brasília Paulista. Segundo a versão apresentada pelo suspeito ao delegado, Martins teria reconhecido dois cavalos que pertenceriam ao plantel da fazenda e estavam amarrados numa árvore em frente ao bar. Ele teria perguntado aos presentes sobre quem estaria com os animais e, para não entrar em conflito com Martins, os dois condutores dos cavalos disseram que as pessoas que ele procurava tinham ido a um outro bar, nas imediações.

Martins, então, teria recolhido os cavalos e levado consigo. Os sem-terra teriam acusado o gerente da fazenda de estar armado, durante a ação, e também de estar acompanhado por seguranças. Essas informações estão sendo investigadas pelo delegado Ilhesca.

Após o depoimento de ontem, o gerente afirmou que os sem-terra teriam confundido o aparelho de telefone celular que carrega na cintura com uma arma, e daí surgira a acusação, mas que ele não estivera armado. Ao final do depoimento, Martins foi acompanhado pelo delegado até uma casa, na zona rural de Piratininga, onde ele permanece hospedado quando vem à cidade. Os policiais iriam realizar uma busca pela residência, para localizar qualquer objeto suspeito.

Embora, até agora, Martins seja o único investigado,

é possível que surjam outros suspeitos, já que os sem-terra acampados na fazenda Santo Antônio receberam várias ameaças, desde que se instalaram lá. A principal ocorrência (e a única em que foi registrado boletim de ocorrência) foi o disparo de um tiro contra o presidente do Sindicato Rural de Duartina, Abel Barreto, enquanto ele se dirigia até o acampamento, no dia 19 de maio. Segundo os sem-terra, outras ameaças, inclusive contra a vítima do assassinato de sexta-feira, já haviam sido feitas, inclusive através de ligações feitas à Câmara Municipal de Bauru. Assessores do vereador José Carlos Pereira Batata (PT) prestam auxílio aos acampados e teriam sido usados como intermediadores das ameaças anônimas. O delegado de Piratininga disse não ter sido informado sobre ameaças contra Lafaiete.

Outra alternativa aventada pela polícia é a possibilidade da morte ter resultado de um conflito entre os próprios acampados. Um investigador afirmou que o acampamento e as estradas de terra que dão acesso a ele são muito bem vigiados. Por isso, seria difícil alguém conseguir chegar até o local e disparar tantos tiros, sem deixar qualquer indício.

Além da esposa, o sem-terra assassinado deixou quatro filhos, todos moradores da cidade de Itararé. O coordenador do acampamento afirmou que, embora Lafaiete tenha se fixado naquela fazenda, ele viajava muito, porque era responsável pelos contatos do MST com entidades e órgãos governamentais ligados à questão agrária, como o Incra e o Itesp. Nos últimos quatro dias, porém, o sem-terra havia permanecido naquele acampamento.

O corpo de Lafaiete foi velado em Bauru e, por volta das 15 h30, seguiu para o acampamento na fazenda Santo Antônio, onde aconteceria uma homenagem ao militante. Em seguida, o corpo seria levado até a cidade de Itararé, para ser enterrado.

Vários sindicatos e partidos políticos divulgaram, ontem, um manifesto em que protestam contra o assassinato do sem-terra e acusam o governo federal de não promover os assentamentos reivindicados.

Histórico

A fazenda Santo Antônio tem 360 alqueires e foi considerada pelos integrantes do MST como improdutiva. Registros da Casa da Agricultura de Piratininga indicam que existem, naquela propriedade, 400 bois e 100 equinos. Segundo o caseiro do local, há dois anos a proprietária da fazenda, Cleide de Barros Peres, que mora em São Paulo, não visita o local, onde construções e equipamentos estão se deteriorando.

A Justiça concedeu uma liminar de reintegração de posse à proprietária, mas está sendo desenvolvida uma negociação entre a polícia e os acampados, para que a retirada seja pacífica. Há alguns dias, os acampados do MST que, depois de serem expulsos do Horto bauruense, permaneceram às margens da rodovia Bauru-Jaú, foram para o acampamento de Brasília Paulista.