Bauru poderia ter mais de um padroeiro
Bauru poderia ter mais de um padroeiro
Texto: Andréia Alevato
Bauru tem muitas peculiaridades e a maior delas, talvez seja sua própria origem. Os documentos históricos comprovam a trajetória do desenvolvimento da cidade e são a base do trabalho de historiadores e pesquisadores, que recontam fatos marcantes, trazendo à tona, muitas vezes, as justificativas dos acontecimentos atuais.
Uma dessas peculiaridades é que Bauru poderia ter dois padroeiros. É que em 1.884, Antônio Teixeira do Espírito Santo doou 15 braças quadradas (o equivalente a 6m x 12m) para a Igreja, para que fosse construído ali uma capela ao santos de sua devoção, que eram o Divino Espírito Santo e São Sebastião.
Em 1.894, a Igreja terminou de construir a Capela do Divino Espírito Santo (que ficava na Praça Rui Barbosa), só que São Sebastião não foi lembrado. Em 1.913, a capela foi demolida para a construção da igreja matriz, que foi inaugurada em 25 de dezembro de 1.916.
O historiador Gabriel Pelegrina, Bauru (que se chamava Espírito Santo da Fortaleza, até o presidente do Estado, Manoel Ferraz de Campos Salles, promulgar a lei n.º 428, em 1 de agosto de 1.896, que dizia que mudava o nome do município para Bauru), diz que as terras doadas por Antônio Teixeira do Espírito Santo foi para a devoção dos dois santos: Divino Espírito Santo e São Sebastião, mas que ele não sabe dizer porque São Sebastião foi esquecido.
"Não sei dizer porque que São Sebastião foi esquecido. Mas as terras também foram doadas para a devoção dele", disse o historiador.
Mas, mesmo adotando um só padroeiro, Pelegrina reclama da falta de comemoração ao Divino Espírito Santo. Ele disse que a finalidade principal de sua pesquisa é fazer com que o dia do Divino Espírito Santo seja comemorado com festas, como aconteceem outras cidades do país que têm esse padroeiro ou outros.
"Em todos esses anos de pesquisa, tenho notado que Bauru
é uma cidade pobre de folclore. O que é mais popular
é a história do sanduíche de Bauru. E todas as cidades comemoram com festas o dia do padroeiro de sua cidade. O padroeiro de Bauru é o Divino Espírito Santo. As cidades do país que têm o mesmo padroiro comemoram com grandes festas o dia do padroeiro, que no caso é no primeiro domingo de Pentecostes. Comecei a questionar porque não se comemoram o dia do Divino Espírito Santo em Bauru. Será que foi depois que demoliram a Capela? A finalidade da minha pesquisa
é fazer com que Bauru comemore com festas o dia do Divino Espírito Santo. Já estou contatando alguns padres para que isso aconteça no ano que vem", completou Pelegrina.
O padre Darci, da paróquia Bom Senhor Jesus, que está há 40 anos na Diocese de Bauru, afirmou que muitas pessoas que vieram da capital pelo rio Tietê e formaram cidades no interior trouxeram a devoção ao Divino Espírito Santo. Por isso, é comum encontrar igrejas matrizes, capelas e a devoção pelo Divino.
"Pelo conhecimento que a gente tem, através dos livros das paróquias, é que o pessoal que veio da capital paulista pelo Rio Tietê trouxe a devoção ao Divino Espírito Santo, de modo muito popular, com festas e bandeiras do Divino. Por isso é muito comum encontrar, nessa região do Estado, capelas e igrejas matrizes do Divino Espírito Santo, padroeiro das cidades", afirmou.
Ele contou que a devoção a São Sebastião também é muito grande.
"Eu me lembro que em Pederneiras houve um fato histórico. Em um conflito com os índios, um poceiro foi morto com flechadas, semelhante a São Sebastião, por isso, Pederneiras tem São Sebastião como padroeiro", contou.
O padre acredita que Bauru não adotou São Sebastião como padroeiro, por influência de Pederneiras, porque antigamente, a Igreja preferia não adotar o mesmo padroeiro cidades muito próximas.
"Acredito que aqui em Bauru, por influência de Pederneiras, o padroeiro é somente o Divino Espírito Santo. E antigamente, a Igreja preferia não adotar o mesmo santo como padroeiro em cidades muito próximas", disse.
Padre Darci explicou também que era um costume do século passado, colocar nome de santos nas cidades. "As cidades adotavam os padroeiros, porque eles são como seus anjos da guarda", finalizou padre Darci.
Hoje, é possível identificar o lugar exato onde foi construída a Capela do Divino Espírito Santo. Na reforma da Praça Rui Barbosa, em 1,991, o arquiteto Jurandir Bueno Filho, com a ajuda do historiador Gabriel Pelegrina, criou mais um marco histórico na praça (além do coreto, da perobeira). Ele deixou um mosaico português em branco no local onde foi construída a capela. A Doação das terras Esta é a cópia do texto de doação de terras de Antônio Teixeira do Espírito Santo para a construção da capela para devoção do Divino Espírito Santo e São Sebastião. O documento está registrado no Livro de Transcrição dos Imóveis, n.º 3J - Folha 105. Cartório de Imóveis e Anexos da 1.ª Circunscrição da Comarca de Bauru.
"Digo eu, abaixo assinado Antônio Teixeira do Espírito Santo que dentre os meus bens que sou senhor e legítimo possuidor, com livre e geral administração e assim uma fazenda no lugar denominado as vertentes do Ribeirão do Bauru, neste distrito da freguesia do Espírito Santo da Fortaleza e termo da Vila do Lençóis, cuja fazenda já foi inventariada por falecimento da minha mulher Marcilina Maria de Jesus e a mim tocou a meação ou duzentos mil réis, bem entendido, que será esta doação ao Santo Sebastião e Divino Espírito Santo da quantia de cem mil réis, bem entendido, que será esta doação no capão ligado com as terras das Santas mesmas pela água abaixo (...). E por ser esta doação de minha livre vontade, peço à Justiça do Império que dê a esta escritura todo inteiro vigor, como se fosse em pública forma e por eu não saber ler e nem escrever, pedi a quem assinasse comigo. Sítio do Barreiro, 21 de março de 1.885".