07 de julho de 2026
Geral

Editorial

B. Requena
| Tempo de leitura: 3 min

Superman no trono de Pedro

Superman no trono de Pedro

B. Requena é editor de Internacional do JC

Movido ou não pelo forte entusiasmo e a alegria de visitar a sua terra natal, o Papa João Paulo II, embora saibamos ser um mortal igual a todos os outros terráqueos, às vezes parece mesmo estar numa situação diferenciada. Com mal de Parkinson - que seus médicos e assessores demoraram anos para admitir para a opinião pública - com as seqüelas deixadas pelas balas que partiram da arma do turco Mohammed Ali Agka, há cerca de duas décadas e, principalmente, com a coleção de janeiros que agora caminha para um total de 80, o Sumo Pontífice às vezes parece esquecer tudo isto e colocar todos os problemas, físicos e não-físicos, num cofre, para que sua importante missão não sofra atropelos.

Foi mais ou menos o que ocorreu no último final de semana. Dormindo tarde e levantando cedo, para cumprir toda a programação da visita a sua inesquecível Polônia, o Papa saltou da cama antes do previsto e dirigiu-se para o banho, na residência diplomática do Vaticano, em Varsóvia. Ele é um mortal como os outros e, como tal, sujeito a acidentes de percurso. Foi traído pela pressa. Escorregou no banheiro e, como resultado disto, três pontos cirúrgicos na testa. O que o diferencia de muitos mortais foi o fato de, após o sangue estancado e curativo que não se podia esconder, em poucos minutos lá estava o chefe da Igreja Católica presidindo a celebração de missa para um público gigantesco de fiéis.

Karol Wojtyla é o recordista em viagens entre todos os papas. É certo que aproveita facilidades de locomoção que muitos de seus predecessores não tiveram. Mas ele as aproveita para valer. Deu chances para que seu rebanho o visse em todas as partes do mundo e com ele se comunicou nas mais variadas línguas. É fácil ler nas atividades, no dia-a-dia, na vida de João Paulo II que ele não pretende apenas ser para os homens um exemplo de fé e de amor a Deus. Sua dedicação é transcendental e até os apóstatas não podem negar que têm muito a aprender com ele.

O peso das obrigações pontifícias é algo extraordinário. Para avaliar isso, tomemos apenas as incumbências, prerrogativas, decisões, enfim, as responsabilidades que Sua Santidade tem com um país como o Brasil. Embora tenha uma assessoria ampla e eficiente, muitas questões de direitos humanos, prisões, sem-terra, reforma agrária, do próprio clero, acabam desembocando na mesa de trabalho do sacerdote de Cristo. Mas ele não tem só o Brasil...

Para onde o problema é econômico, o Papa concentra os seus trabalhos; onde é social, mobiliza as autoridades; onde é carente de educação, ele mobiliza o povo. Para onde falta tudo, João Paulo II recorre à fé.

O herdeiro do trono de Pedro procura sempre buscar forças para o seu trabalho e dedicação. Para se ter uma idéia, na semana passada, reuniu-se com vários anciãos, veteranos poloneses, da batalha que travaram em 1920 para defender a região em que o próprio Wojtyla nasceu. Conversou com eles e agradeceu o seu heroísmo. Não custa lembrar que a batalha ocorreu há 79 anos e os sobreviventes ainda lá estão para dar lições aos jovens. São pessoas da estirpe do Pontífice. Ontem, quando se pensava que João Paulo II voltaria a Roma, ele anunciava que amanhã vai a Erevan, a capital da Armênia. Podemos dizer que o Papa é um imortal como os outros. Mas temos que pensar direito. (B. Requena)