08 de julho de 2026
Geral

Assasinato de sem-terra

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Para sem-terra, assassino veio de fora

Para sem-terra, assassino veio de fora

Integrantes do acampamento em Brasília Paulista se dizem vítimas de constantes ameaças e acreditam que assassino não está entre eles

Brasília Paulista - Lideranças do Movimento Sem-Terra (MST) do acampamento da fazenda Santo Antonio, no distrito de Brasília Paulista não aceitam a hipótese de Lafaiete Antônio de Oliveira, 42 anos, ter sido assassinado por integrantes do próprio movimento, como chega a suspeitar a polícia de Piratininga que tenta desvendar o crime. A afirmação é de Adailton Manoel da Silva, 24 anos, um dos líderes do movimento, que no dia do homicídio estava participando de um encontro em Cajamar. Apesar de não estar presente no local do crime, Adailton aposta na hipótese do assassino ser gente de fora do acampamento e ter conseguido se aproximar da vítima, pelo portão de entrada, sem ser notado por ninguém. "A morte não tinha nome. Tinha que ser alguém da coordenação. Foi o Lafaiete".

A polícia por sua vez, lembra que essa é apenas uma das hipóteses dentre várias que a polícia trabalha. Lafaiete era também uma liderança do MST e foi morto na noite da última sexta-feira após ser atingido por vários disparos de arma de fogo. O laudo pericial que indicaria o tipo de arma utilizada para o crime e outros detalhes como distância entre o assassino e a vítima e a trajetória da bala era aguardado ontem pelo delegado de polícia de Piratininga, Roberto Ilhesca. Esse laudo, segundo o delegado, é fundamental para as investigações.

Desde o dia do crime, a polícia não conseguiu ainda ouvir as testemunhas que estavam mais próximas da vítima logo após os disparos fatais. Uma das pessoas tidas como suspeitas, o gerente da fazenda, já foi ouvido pelo delegado e negou qualquer envolvimento com o crime. Ele é apontado pelos sem-terra como um dos suspeitos, porque teria se envolvido em uma discussão com dois militantes do movimento, no início da noite de sexta-feira, em um bar de Brasília Paulista. Segundo a versão apresentada pelo suspeito ao delegado, o gerente teria reconhecido dois cavalos que pertenceriam ao plantel da fazenda e estavam amarrados numa árvore em frente ao bar. Ele teria perguntado aos presentes sobre quem estaria com os animais e, para não entrar em conflito com o gerente, os dois condutores dos cavalos disseram que as pessoas que ele procurava tinham ido a um outro bar, nas imediações.

O gerente, então, teria recolhido os cavalos. Os sem-terra teriam acusado o gerente da fazenda de estar armado, durante a ação, e também de estar acompanhado por seguranças. Essas informações estão sendo investigadas pelo delegado Ilhesca. Mas o gerente afirmou que os sem-terra teriam confundido o aparelho de telefone celular que carrega na cintura com uma arma, e daí surgira a acusação, mas que ele não estivera armado.

Na opinião do líder Adailton, é praticamente impossível que o assassino esteja entre os integrantes do próprio acampamento. "Ele (Lafaiete) não tinha inimizades e sempre usava o diálogo para resolver qualquer questão".

No momento do crime, segundo lideranças do MST, a maioria dos cerca de 400 pessoas do acampamento já estava recolhida em seus barracos. Ficaram para fora apenas, algumas pessoas responsáveis pela segurança do local. Quando Lafaiete foi atingido, porém, ele estava sozinho em uma área do acampamento, e ninguém teria notado qualquer movimentação suspeita. De repente, Lafaiete teria dado o grito de alerta ("Assembléia") e, antes que os acampados pudessem reagir, Lafaiete foi atingido com cinco tiros. Quando foi socorrido, o sem-terra já estava morto, alvejado no rosto.

Resistência

Além do mistério que envolve a morte do companheiro, os sem-terra do acampamento de Brasília vivem às voltas com um outro problema: a desocupação da área que pode ser feita a qualquer momento através dde força policial.

Apesar de já ter sido expedida pela Justiça uma liminar determinando a reintegração de posse da

área à proprietária, a mesma não foi cumprida. O clima no acampamento é tenso e as lideranças descartam uma desocupação espontânea. Afirmam que resistirão à qualquer tentativa de desocupação forçada por parte da Polícia Militar e aguardam um posicionamento do Incra.

Histórico

A fazenda Santo Antônio tem 360 alqueires e foi considerada pelos integrantes do MST como improdutiva. Registros da Casa da Agricultura de Piratininga indicam que existem, naquela propriedade, aproximadamente 400 bois e 100 equinos. Segundo o caseiro do local, há dois anos a proprietária da fazenda, Cleide de Barros Peres, que mora em São Paulo, não visita o local, onde construções e equipamentos estão se deteriorando.

A Justiça já concedeu uma liminar de reintegração de posse à proprietária, mas está sendo tentada uma negociação entre a polícia e os acampados, para que a retirada seja pacífica. Há alguns dias, os acampados do MST que, depois de serem expulsos do Horto bauruense, permaneceram às margens da rodovia Bauru-Jaú, foram para o acampamento de Brasília Paulista.