Scandurra transcende o rock e promete heavy
Scandurra transcende o rock e promete heavy
Texto: Ricardo Polettini
O rock tecno-espacial do guitarrista Edgard Scandurra encerra hoje o projeto "Vertentes". Acompanhado da DJ Paula, ele promete transformar o ginásio do Sesc em uma grande rave. O show é de graça
Quem viveu e curtiu a revolução do rock nacional nos anos 80, com certeza tem entre seus ídolos o guitarrista Edgard Scandurra, do Ira!. Naquela época, em um dos discos de sua banda ("Psicoacústica"), já proclamava que estava buscando "outros sons, outras batidas, outras pulsações", na faixa que carrega um título mais que contundente - "Farto do Rock'n Roll" -, que por sinal, é uma pérola do rock brasileiro e uma das primeiras misturas do estilo com o hip hop no País.
Em 96, ele lançou seu segundo disco solo, "Benzina", anunciando de vez o namoro com a música eletrônica.
De sua casa, em São Paulo, Scandurra conversou ao telefone com o JC Cultura, contando como foi seu encontro com o tecno numa boate na Capital, sua opinião sobre o rock atual e como vai transformar o show de hoje numa grande rave.
JC Cultura - Como será o seu show de hoje?
Edgard Scandurra - Eu vou tocar as coisas depois do "Benzina"
(96). Eu estou aprontando um trampo novo. Eu já iniciei algumas gravações de forma independente e agora eu estou praticamente fechando um contrato com a Trama para lançar esse trabalho esse ano ainda. Ainda não tem um nome, mas eu estou pensando em chamar o projeto de Benzina mesmo, em vez de ser um disco de Edgard Scandurra.
JC - Você já dava sinais de que buscava algo novo no disco "Psicoacústica", do Ira!, em versos como "outros sons outras batidas, outras pulsações". E a partir do "Benzina", você se enveredou de vez pela música eletrônica, como foi essa história?
Scandurra - Eu já vinha buscando alguma coisa que enriquecesse as minhas composições. Eu estava um pouco cansado de ter o violão e a guitarra como meus únicos instrumentos para compor. Quando pintou a oportunidade de fazer o "Benzina", logo que eu comecei a gravar, eu ainda não tinha essa coisa do eletrônico exatamente. Ia ser uma coisa meio world music, ainda não tinha sacado direito essa praia do tecno. Aí, quando eu fui para um clube que não existe mais aqui em São Paulo, chamado Hells, todo aquele pique, para mim era novidade. Eu fui uma primeira noite, estava tocando o DJ Mau Mau, ele toca uns sons muito bons. E aquele clima, o som, aquela fumaceira, eu vi naquilo uma atitude tremendamente subversiva dentro da música. Uma música sem refrão, sem nenhum apelo comercial, muito pelo contrário,
é uma coisa pesada, agressiva. E quando eu comecei no punk rock, o que eu mais gostava era justamente esta postura de rompimento.
JC - E você acha que a música eletrônica moderna cumpre esse papel, de rompimento?
Scandurra - Eu acho que sim. Para mim, é como se fosse um novo punk rock. Passa a mesma sensação de tribo. Eu sempre gostei muito de tocar para tribos, ou para os roqueiros, os punks, não importa quem, mas eu sempre gostei dessa atitude de grupo, de turma. E foi o que eu encontrei bastante nessa praia eletrônica.
JC - Aí você começou a pesquisar?
Scandurra - É, e aí eu percebi que 90% das músicas não tinham guitarras. Quando eu vi aquele palquinho com o DJ, cheio de gente dançando e ninguém tocando, eu falei um dia eu vou tocar nesse lugar, pois eu achava que tinha tudo a ver, a transgressão da guitarra junto com a psicodelia daquela música.
JC - Como você vê o rock depois dessa transformação pela qual passou o seu som?
Scandurra - Eu penso que o rock, se ele ficar como estava até há alguns anos, antes de começar esta força da música eletrônica, vai ficar uma música nostálgica, porque as bandas novas que pintavam tinham referências muito grandes nas bandas dos ídolos. Tinham bandas que pareciam Led Zeppelin, outra parecia Beatles, uma parecia os Stones, outras influenciadas pelos punks, como o Nirvana. Então, eram bandas novas fazendo um som voltado para o passado. E trabalhar com tecnologia, coisas novas, mais conhecimentos tecnológicos que musicais, eu acho que voltou a apontar a música jovem para o futuro. Uma seta pra frente e não para traz com suas referências. Não tenho nada contra, ainda ouço meus discos dessa época, mas eu quero que minha música aponte para o futuro e não que seja uma música saudosista. Eu vejo com uma certa preocupação essas bandas de rock que parecem bandas de jazz tradicional, ou bandas de blues, é um som do passado, enquanto que o rock
é uma coisa de transgressão, de quebra de comportamento, não pode ser uma coisa nostálgica, tem que apontar para o futuro. E nesse final de século, estamos em busca de uma música que traga mais sensações sensoriais do que o riff, o refrão comercial.
JC - O que são essas sensações?
Scandurra - É aquela música que você ouve, fecha os olhos e sai do lugar, sabe? Você viaja com aquela música e quando abre os olhos, está na sua casa, num clube. Essa possibilidade de fazer a pessoa viajar na música, para mim é a coisa mais importante que tem. Eu acho que é a função dela, inclusive. Como eu estou trabalhando mais com música eletrônica e com a minha guitarra, as músicas são mais instrumentais. Eu estou colocando algumas poucas poesias mais contundentes, que se repetem, e não aquela letra de duas ou três partes. Se for pra tocar esse tipo de música, eu prefiro as que eu já tenho feitas, com o Ira! etc. Minhas músicas estão cada dia de um jeito diferente. Eu tenho um controle total sobre o meu equipamento e a música pode ter de três minutos até dez, de acordo com o clima que está rolando. É uma viajem do momento.
JC - O show vai ter um pouco disso?
Scandurra - Eu estou levando uma DJ, a Paula, ela é residente de um clube aqui de São Paulo, chamado Love, e ela toca bastante, um som muito legal. Somos eu e ela. Guitarra, sequencers e a Paula abrindo e fechando o show. Eventualmente, a gente toca alguma coisa juntos, comigo fazendo participações de guitarra nas músicas que ela toca como DJ. Minha intenção
é transformar a sexta-feira numa rave, numa festa em que as pessoas vão não só para ver e ouvir eu tocando, mas para dançar também.
JC - Como você compõe?
Scandurra - Tem um trabalho de criação de guitarra dentro do estúdio, com uma pessoa me ajudando na produção, usando o computador, usando poucos solos, colando guitarras invertidas, pegando um solo que eu fiz e transformando em um outro, fazendo loops (repetições de um mesmo trecho). Ao vivo, a coisa se torna mais roqueira, eu não consigo ter essa disciplina de ficar repetindo, aí é o que sai na hora.
JC - Como você compara a música que você vem fazendo com o rock mais tradicional?
Scandurra - Uma coisa que eu sinto em relação a um guitarrista de rock, como o maior de todos, Jimi Hendrix, comparando com a música tecnológica de hoje em dia,
é a busca desses timbres viajantes mesmo, microfonias, uma alavancada, um wah wah, que faz a guitarra praticamente falar, como Hendrix fazia. Essa pesquisa, essa alquimia musical, como um laboratório dentro do estúdio, é uma coisa que foi resgatada por esses caras da música eletrônica. Uma coisa que não tem nada a ver com Hendrix, com aquele rock psicodélico, mas tem essa mesma busca.
JC - Quem você citaria, hoje em dia, que vem fazendo esse tipo de trabalho?
Scandurra - Tem o Underworld, é um trabalho muito legal, eu gosto muito. É a coisa que eu tento fazer com minha guitarra nessas músicas. Uma coisa sutil, que vai mudando os timbres, não é um bate-estaca simplesmente,
é uma coisa muito viajante. Tem um trabalho que é meio semelhante com o que eu faço, que chama System Seven, que por pura coincidência é um guitarrista que veio de outras praias do rock, do progressivo, e hoje está fazendo um trabalho muito legal de guitarra com música eletrônica. Chemical Brothers não usa guitarra, mas usa uns grooves bem pesados e legais, o Fat Boy Slim também. Tem os tecnopunks, como o Prodigy, mas que não é minha praia, meu lance
é mais viajante mesmo.
Serviço
Edgard Scandurra faz show hoje, a partir das 20 horas, grátis, pelo projeto "Vertentes", no Sesc Bauru. Convites devem ser retirados antecipadamente no local. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (014) 235-1750.