Ecologia é a fórmula do sucesso de fazenda em Botucatu
Ecologia é fórmula do sucesso de fazenda em Botucatu
Texto: Márcia Buzalaf
Com uma produtividade que triplica em cada virada de ano, os produtos biodinâmicos - alfaces, tomates, poncãs, brócolis, beterrabas sem qualquer tipo de agrotóxico
- estão ganhando uma força antes limitada a outros países. Em Botucatu, a Estância Demétria abre as portas da região para uma forma simplista, produtiva, nutricional, ecológica e justa de cultivo da terra. De acordo com o gerente da Demétria, Sérgio Pimenta, a fórmula do sucesso é usar as próprias sobras da produção, mantendo um ecossistema equilibrado
- o que resulta em 67 itens por ano com sabor e textura especiais. Tudo isso, sem toxinas para a saúde.
A idéia de montar uma associação para plantar em equilíbrio com a ecologia no começo dos anos 70 só poderia ter saído de imigrantes europeus. Em 73, quando em Botucatu aterrisaram, os forasteiros logo foram chamados de hippies na região. Desacreditados e tentando aplicar técnicas de terras européias nos trópicos, os imigrantes demoraram para conseguir acertar o passo.
De lá para cá, muito mudou, e quem ficou por aqui foram os brasileiros, que viabilizaram a agricultura sustentável que todos desejavam. Atualmente, a Alemanha é o país que mais consome e o Brasil é o que mais exporta produtos biodinâmicos no mundo. A diferença do comportamento de lá para cá foi tão grande que seus maiores clientes hoje são a rede Carrefour e o Pão-de-Açúcar. Em Bauru, apenas um revendedor comercializa os produtos sem agrotóxico, Mário Okade.
A opção que a Demétria fez de atender estes clientes maiores não fez com que ela se desfizesse do que sempre apoiou. A estância fornece produtos para qualquer cooperativa formada entre um grupo de pessoas de qualquer lugar.
"Eles sentam conosco e a gente discute o que eles pagarão, quem vai trabalhar lá... É como se ele arrendasse aquele pedaço, porque eles compram uma produção, seus custos", afirma Pimenta.
Este tipo de cooperativa paga pelos produtos antes de começar a produção - e, independemente do que aconteça, o preço não se altera durante o período - e recebem os produtos semanalmente. Metade da produção da Demétria é comercializada neste sistema.De 97 para cá, o tamanho da estância dobrou.
Atualmente, eles têm uma área de 8 mil metros quadrados em construção. Há dois anos na Demétria, Pimenta conta que a mentalidade está mudando muito e os produtos biodinâmicos estão ganhando cada vez mais espaço na preferência. "Não faltam motivos para a gente acreditar que estes produtos são mais saudáveis", garante.
Primeiro porque todos os itens não são produzidos com agrotóxicos, por isso, são ecologicamente corretos. Segundo porque fazem bem para a saúde, fornecem mais proteína digestível para o organismo.
A chave da produção agroecológica é deixar os alimentos crescerem lentamente. Quando a planta cresce rápido, ela não forma por completo a proteína, o que inclusive propicia a atração de insetos, explica. Mesmo assim, Pimenta ressalta que o equilíbrio é mantido naquele ambiente, usando as "regras da floresta", como ele descreve. Os trabalhadores mantém os matos e as aranhas que passam por ali, até mesmo as folhas caídas nos enormes maços de alface, couve e rúcula.
O tamanho dos produtos realmente é um dos diferenciais dos ecodinâmicos. Apesar de serem grandiosos, Pimenta acredita que ninguém se interessa tanto por produtos tão grandes, o que levou ele a um outro projeto.
A Demétria vai lavar e picar as bordas dos maços grandes, vendendo apenas o miolo. O resto, vai para o supermercado embalado e pronto para ser consumido.
A experiência da unidade de verdura picada está sendo feita parcialmente em São Paulo, com sucesso, mas a meta
é Botucatu.
Ecoprodutor
A diferença no estilo de produção da Demétrica começa nos trabalhadores. Trinta e uma pessoas fazem o trabalho diário nas hortas onde praticamente são donos - e até dezembro o número promete chegar a 50. O sistema associativo da estância permite que os funcionários todos - incluindo o gerente - discutam os preços, porque todos ganham proporcionalmente. As famílias também moram na estância, e só consomem produtos biodinâmicos.
O trabalho deles se concentra na adubação. Pimenta diz que eles usam casca de eucalipto, esterco de gado (e, eventualmente, de galinha), calcário e cinza de madeira. O crescimento inicial é feito na raiz - maior do que a das plantas com agrotóxico - e depois para a parte aérea da planta.
Deixando os matos, tiriricas e alguns insetos, a horta se mantém equilibrada, e não tem problema com pragas, além de garantir que o solo também tem sua época de descanso respeitada.
Pimenta lembra um único incidente de excesso de irrigação há um ano e meio que matou 2 mil metros quadrados de vagem, dos seus 120 mil metros quadrados de horta. "Hoje, quando temos problema, fazemos um preparado homeopático natural, dos próprios produtos, para buscar uma dinamização", exeplifica, quando diz que usa prismas de cristais de quartzo no inverno para atrair mais energia solar para a planta.
Outra técnica que os produtores costuma seguir é o calendário astronômico. A relação da Lua com cada planeta pode ser usada para orientar cada cultura.
"Tem planeta que favorece o crescimento da raiz", alega.
Depois da colheita, os agricultores lavam os produtos e colocam nas respectivas caixas, com a separação por empresas e os produtos da própria Demétria. Por semana, são produzidos quatro caminhões e até agosto, deve carregar cinco caminhões semanalmente. "Só em alface, são 15 mil pés por semana", diz.
O índice de perda é pequeno. De cada pé de alface, se perde cerca de duas folhas. Por ter uma produção diferenciada e não em tão grande escala, os produtos biodinâmicos têm um preço geralmente mais caro do que aquele cobrado pelos produtos em escala comercial. "Geralmente, 60% do nosso preço não é da produção, mas da comercialização e distribuição", completa.
Para comercializar produtos biodinâmicos, Pimenta diz, é necessário ter um certificado específico. No Brasil, hoje em dia, são 2 mil produtores com certificado.
Sustentável
Mesmo assim, o mercado cresce e a fazenda também. Sem ter mais para onde expandir, a Demétrica está fazendo associações com produtores rurais que usam toda a técnica da estância para fornecer os mesmos produtos.
"Já temos fazenda produzindo 450 mil pés de café, soja, milho...", afirma. Só em Botucatu, oito agricultores estão produzindo em parceria com a Demétria, usando a transferência de "tecnologia".
Além disso, 80 pessoas estão fazendo o curso sobre produtos biodinâmicos promovido pelo Instituto Elo, na Casa Tomé, na mesma grande fazenda que é composta por ela, a estância Demétria, as escolas e condomínios
.
Pimenta diz que a capacidade nutricional destes produtos é maior do que os outros, e sua durabilidade também. "Na geladeira, o pé de alface dura pelo menos uma semana", garante.
Mini cidade ecológica reúne diferentes habitantes
Primeiro nasceu a Demétria, com suas atividades agroecológicas. Depois, os condomínios começaram a ser montados, com a necessidade de escolas, vendas. Hoje em dia, o espaço também tem o Instituto Biodinâmico e o Instituto Elo, que disseminam tanto a filosofia quanto a técnica da biodinâmica. "A gente costuma chamar de `ecovila', uma comunidade rural mesmo", conta Pimenta.
Toda a criação deste espaço foi apoiada pela Associação Tobias de São Paulo, uma entidade filantrópica com 30 anos de estrada que viabiliza projetos sociais, assistenciais, educacionais e econômicos em várias partes do Brasil.
Hoje em dia, os moradores dos condomínios mantém um pacto com a Demétria, que prevê a não-utilização de nenhum agrotóxico no córrego que lá passa. Os moradores colaboram e são os mais diversos possíveis.
Além de vários habitantes da região, o espaço abriga engenheiros, jornalistas e profissionais que, mesmo trabalhando para empresas de grande porte em capitais, optaram por morar em uma fazenda que tem sua própria padaria, laticínio, tudo sem agrotóxico. "O computador e a Internet ajudaram nisso", explica. Quem duvida que a vida lá é mais saudável?
Serviço
A Estância Demétria pode ser visualidade em um site da Internet, onde várias informações sobre cursos na área de biodinâmica podem ser obtidas: www.elo.org.br. O telefone da estância é (014) 821-1739. O revendedor dos produtos biodinâmicos em Bauru se localiza rua Aviador Gomes Ribeiro, 38-40.
Agendinha
No topo
De 19 a 24 de julho, será realizado o XXII Campeonato Nacional Quarto de Milha em Bauru, no Recinto Mello Moraes. Cerca de 2 mil participantes deverão concorrer aos R$ 150 mil em premiações. Ao todo, serão 500 cavalos com 600 proprietários. Informações na Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM): (011) 864-0800, com Eduardo ou Marcelo
Coelhos
No dia 19, será realizado o curso de criação caseira e comercial de coelhos. Será em Campo Limpo Paulista. Informações (011) 7849-2459.
Fruticultura
Entre os dias 24 e 25 deste mês, Uberlândia será a sede do 3º Encontro de Fruticultura do Triângulo Mineiro e do Alto Paraíba. Mais informações:
(034) 371-3377
Sementes
A Universidade de São Paulo (USP) realiza, no dia 25, uma palestra sobre o mercado de sementes de hortaliças, em São Paulo. Inscrições: (011) 210-5966.