Sem-terra confessa crime e deixa dúvidas
Sem-terra confessa crime e deixa dúvidas
Texto: Tânia Fonseca
João Camargo alega motivos passionais, mas depósito bancário, armamento e relato de companheiros põem depoimento em xeque
Piratininga - O homem que matou a tiros Lafaiete Antônio de Oliveira, 42 anos, um dos líderes do Movimento Sem-Terra
(MST), no acampamento da fazenda Santo Antonio, no distrito de Brasília Paulista no dia 11 de junho foi preso em Itaberá e confessou o crime ontem na Delegacia de Polícia em Piratininga. A dúvida que fica, porém, é sobre o real motivo que ele, João Benedito Camargo, 38 anos, também um sem-terra, teria para cometer o homicídio. A grande pergunta é: seria ele um legítimo sem-terra ou um infiltrado no movimento?
Camargo alega motivos passionais, ou seja, que Lafaiete estaria interferindo em seu relacionamento amoroso-familiar. Mas a polícia trabalha com outra hipótese também: a de que Camargo tenha agido sob influência ou a mando de alguém.
Entre as lideranças do MST, no acampamento, o motivo alegado por Camargo, crime passional, também não convence, pois existe uma forte suspeita de que ele tenha se infiltrado no movimento com o propósito de ser uma espécie de espião. "Não sabemos, na verdade, a quem ele representava", diz Adailton Manoel da Silva, 24 anos, um dos líderes.
Por parte da polícia, segundo o delegado Roberto Ilhesca, as questões que mais suscitam dúvidas e portanto são motivo de investigação, é quanto
à procedência dos R$ 5 mil em dinheiro que foram depositados, em janeiro, na conta da mulher de Camargo, Maria Izabel Camargo, e também quanto às armas encontradas na casa do acusado: uma espingarda pica-pau, um revólver Taurus 38, uma cartucheira 28, e farta munição, além de facões e punhal. O revólver seria o mesmo utilizado para matar Lafaiete.
Prisão
A prisão de Camargo foi efetuada anteontem em Itaberá, cidade onde ele morava com a família (mulher e duas filhas). A polícia só foi até lá depois de ouvir depoimento de integrantes do acampamento, na última quarta-feira.
Após do assassinato, Camargo permaneceu no acampamento por mais três dias. Depois, comentou com os acampados que iria para Itaberá buscar o restante dos pertences. Não se sabe, porém, se ele retornaria ou não já que os investigadores Benedito Pagamisse e Luís Gustavo Balalai Poli chegaram a sua casa na tarde de quinta-feira e o prenderam.
Um detalhe que sempre intrigou a polícia foi o fato dos acampados não terem se dispoto a prestar depoimento sobre o crime logo de imediato. Os depoimentos formais só foram tomados na última quarta-feira, quase uma semana após o homicídio.
Essa demora, segundo o líder sem-terra Adailton, se explica pelo fato deles estarem muito assustados e se sentindo desprotegidos, já que "ameaças sempre existiram", disse. As suspeitas sobre a possibilidade de Camargo ter sido o autor do crime começaram a se intensificar, quando ele ainda estava no acampamento. De acordo com Adailton, "ele tinha dinheiro no bolso, coisa rara entre nós". Adailton diz ainda que Camargo sempre foi uma incógnita entre os acampados. Ele teria se juntado ao movimento ainda em Itararé, depois veio para o horto em Bauru e finalmente foi para Brasília Paulista. Desde então, apesar de não ser um líder, atuava, segundo Adailton, de maneira que deixava a desejar, já que dividia opiniões.
Outra questão que intrigava os acampados era o fato de Camargo sempre tirar fotos no acampamento. "Essas fotos nós nunca vimos e nunca soubemos para que fim eram tiradas", disse Adailton.
A máquina fotográfica foi apreendida pela polícia na casa de Camargo e segundo o delegado Ilhesca, é mais um detalhe a ser investigado.
Pista certa
Em depoimento prestado ao delegado, na quarta-feira, os acampados relataram os fatos ocorridos nos dias que anteceram ao crime e também após, como a partida de Camargo. Aliás, sobre Camargo, ninguém sabia muito, apenas que se chamava João e era de Itaberá. Chegando à cidade os investigadores fizeram contato com a polícia e acabaram chegando à casa de Camargo, onde foram encontradas as armas, a roupa que ele usava no dia do crime (chapéu e blusa pretos). Encontraram também o recibo de um depósito feito na conta da mulher de Camargo, no Banco do Brasil, no valor de R$ 5 mil em dinheiro, em janeiro último. Por conta disso, o delegado explicou que contas bancárias da família devem ser checadas também.
Sobre esse depósito, Camargo disse à polícia que o dinheiro é referente a pequenas quantias que ele vinha juntando e que resolveu depositar.
Ainda durante as investigações, os policiais descobriram que em Taquarituba, Camargo era procurado sob a suspeita de furto.
Em Piratininga, o delegado pediu a prisão preventiva de Camargo, que responderá por homicídio qualificado. Caso seja condenado, poderá pegar de 1 a 30 anos de prisão.
"Matei porque ele abusou da minha família"
Durante entrevista concedida na Delegacia de Polícia de Piratininga ontem, João Benedito Camargo afirmou que matou Lafaiete Antonio de Oliveira porque este vinha fazendo intrigas com sua família. "Ele falou que eu tinha uma mulher grávida de mim. Que eu tinha mulher por fora, enquanto eu estava trabalhando. Falava para minha mulher". Camargo contou que conhecia Lafaiete há cerca de um ano e oito meses. Foi quando da passagem por Bauru (no horto) que Camargo disse ter ficado sabendo que Lafaiete estaria tentando denegrir sua imagem perante a Maria Izabel.
"Ela me contou o que estava acontecendo... Aí, o sangue subiu". Depois de ficar alguns dias no acampamento do horto em Bauru, Camargo levou a mulher de volta para Itaberá. Ele disse que após ficar sabendo "das intenções" de Lafaiete, passou a andar armado e decidiu matá-lo, mas não chegou a estabelecer uma data.
"Assassinei porque ele foi uma pessoa que abusou da minha família. Isso é uma coisa que eu não aceito. Comia, bebia em casa. Tinha ele como um irmão meu...".
Na noite do dia 11 de junho, Camargo disse que viu a chance que esperava. Lafaiete estava praticamente sozinho num canto do acampamento. Camargo disse que aproximou-se e disse: "Viu o que você fez comigo? Você era meu melhor amigo". Os tiros foram disparados, segundo Camargo, logo na sequência, após Lafaiete ter perguntado "O que que eu fiz?".
Camargo disse que tinha cinco balas no revólver e após descarregar a arma voltou para a barraca. "Não contei a ninguém. Depois de três dias voltei para Itaberá".