07 de julho de 2026
Geral

MST

Marcos Zibordi
| Tempo de leitura: 5 min

MST deixa Brasília e acampa em Bauru

MST deixa Brasília e acampa em Bauru

Texto: Marcos Zibordi

Negociação lenta e difícil durou toda manhã de ontem. Desocupação foi pacífica

Brasília Paulista - Uma verdadeira odisséia. Após mais de 20 horas entre operações, negociações, desocupação e um efetivo mobilizado de 380 soldados, a fazenda Santo Antonio, ocupada pelo MST há um mês, foi desocupada cumprindo liminar de reintegração de posse. Os acampados estão agora em Bauru, na margem da rodovia Bauru-Marília, alguns metros à frente da granja Ito, em frente ao núcleo Fortunato Rocha Lima, onde começaram chegar no final da tarde de ontem.

Uma operação de guerra foi montada para a desocupação. Policiais Militares de toda a região foram mobilizados. Desde o final da noite de quinta-feira já haviam policiais nas imediações da fazenda Santo Antonio. Por volta de 4 horas da madrugada, eles começaram se dirigir para o acampamento. A cavalaria, o canil, a tropa de choque, motociclistas, blasers, tratores e escavadeiras, armas de grosso calibre e de repetição faziam parte do arsenal da polícia. Até caixas fechadas com granada foram levadas. Com todo esse exército, os policiais só puderam chegar até quase 500 metros da entrada da fazenda.

Do outro lado, integrantes do MST empunhavam enxadas e facões prometendo não desocupar a terra. Para completar, a paisagem de bambu que margeia toda a estrada de acesso à fazenda foi queimada pelo MST, ocasionando labaredas de fogo enormes em pleno breu da madrugada.

Entre o primeiro pelotão mobilizado da PM e os sem-terra, separados por 15 metros, estavam algumas lideranças das duas partes que tentavam a negociação.

A negocição

Ela começou realmente por volta de 7h30 da manhã. O tenente coronel Marssola, um dos principais responsáveis pelo bom andamento da negociação, demonstrou muita calma e compreensão em relação às colocações dos sem-terra. Estes não podiam sair da área sem um local definido para irem, assim como faltava infra-estrutura para novas barracas. Mas a principal reivindicação era a presença do Incra para iniciar o levantamento com vistas à desapropriação da fazenda por improdutividade. O acesso à entrada era impossível, já que nos 500 metros finais, bambus e árvores foram cortados e colocados na pista para impossibilitar o acesso.

As conversas eram demoradas e, a cada diálogo com a PM, os líderes do MST retornavam ao acampamento, faziam um assembléia entre os quase 100 acampados e depois retornavam

à zona-limite para deliberar.

Numa dessas idas e vindas, os líderes retornaram acompanhados de inúmeros sem-terras, que ficaram "na cara" do pelotão cantando cantigas do movimento e gritando palavras de ordem como "enquanto o latifúndio quer guerra, nós queremos terra", ou "MST, a luta é pra valer".

Outro dado interessante da mobilização foi a chamada dos acampados presentes para as deliberações em assembléia. Quando se chamava pelo nome do líder assassinado na fazenda há uma semana, Lafaiete Antonio de Oliveira, os acampados respondiam em coro: "presente". Um túmulo simbólico foi feito para lembrá-lo.

Sem conseguir que algum técnico do Incra estivesse no local, funcionários do Itesp (Instituto de Terras de São Paulo) apareceram de surpresa na fazenda. Juridicamente sua presença não refletiu em nada, pois o Instituto é responsável pelas terras improdutivas do Estado, e não pelas áreas particulares, como era o caso. No entanto, com sua chegada, foi amarrada uma entrevista e um compromisso com o Incra.

O acordo

Na presença de Marssola, líderes do MST, Itesp e imprensa, foi marcada uma entrevista no Incra, em São Paulo, na próxima quinta-feira. Os comandantes da PM se comprometeram a comparecer na reunião. O Incra também assumiu o compromisso de fazer a análise da terra entre 15 e 30 dias contados de ontem.

Por volta de meio-dia a situação começou se definir. Assumido o compromisso, os sem-terra ainda pediram para que a desocupação fosse feita sem a presença da tropa de choque, no que foram atendidos. Todo o efetivo mobilizado teve que recuar e somente uma equipe acompanhou os trabalhos.

A desocupação

Os tratores fizeram primeiro o trabalho de limpeza e desobstrução da estrada. Depois os sem-terra começaram desarmar as barracas, enquanto vários caminhões contratados chegavam para fazer a mudança. Praticamente toda a tarde foi usada para o trabalho de desmonte e carregamento dos caminhões.

Mesmo com a desocupação aceita pelo MST, os líderes não divulgaram o local para onde iriam.

Um comboio saiu da fazenda por volta de 16 horas e, lentamente, foi até a estrada Bauru-Ipaussú. O carro do advogado dos sem-terra seguiu na frente, pois eram os únicos que sabiam do destino daqueles carros, caminhões, ônibus e a escolta da polícia. O comboio parou na estrada, quando ocorreu o encontro com outras lideranças do MST de Promissão e representantes da Pastoral da Terra. A fila de automóveis passou pelo centro de Piratininga, pegou a rodovia até Marília e parou na estrada, já no perímetro urbano de Bauru.

No final da tarde, os caminhões começaram descarregar as lonas pretas, madeiras e bambus e os pertences dos sem-terra.

O comboio ainda voltou à fazenda para trazer para a pista os últimos sem terra que não puderam vir na primeira viagem.

Com o acampamento montado em área estratégica para o acesso até a fazenda, os sem-terra devem permanecer por pouco tempo em Bauru. Com a promessa do Incra, qualquer novidade no processo de desapropriação pode fazer o MST mudar novamente suas lonas, possivelmente de volta à Brasília Paulista.