11 de março de 2026
Geral

Plano Real

Luciano Augusto
| Tempo de leitura: 5 min

Plano estabiliza a moeda e desestabiliza a economia

Plano estabiliza a moeda e desestabiliza a economia

Texto: Luciano Augusto

Os sindicatos, representantes dos trabalhadores, dizem que com o Plano Real o trabalhador perdeu mais do que ganhou. O desemprego alcançou níveis jamais visto, a estabilidade de quem trabalha diminuiu, o poder de compra do brasileiro caiu e o trabalhador está à mercê de interesses outros, que não os da melhoria da qualidade de vida do brasileiro mais pobre.

Para o diretor do Sindicato dos Bancários e Financiários de Bauru e região, Laércio Pereira, 36 anos, há uma diferença importante em relação à realidade nacional de antes e depois da implantação do Plano Real. Segundo sua explicação, antes do plano, ainda existia uma oposição clara em relação

às propostas de abertura da economia do Governo Collor. Com a derrubada de Collor, a posse de Itamar Franco na presidência e a indicação de Fernando Henrique Cardoso para o Ministério da Economia, e a posterior instauração da Unidade Real de Valor (URV), os planos de abertura acabaram incorporando os interesses políticos de FHC, tornando-se

"um plano eleitoreiro, de curto prazo e que não teria, depois das eleições, um grande respaldo da população". Para manter a inflação baixa, complementa Pereira,

"o Governo começou a abrir e entregar o patrimônio nacional".

O sindicalista, enumerando os três pilares que sustentaram o Plano Real, as chamadas âncoras, afirma que as medidas encareceram o custo de vida do brasileiro mais pobre, aumentaram as dívidas, tanto interna quanto externa, e acentuaram o desemprego.

A âncora cambial, que pregava a paridade do Real com o dólar, por exemplo, como aponta o sindicalista, aumentou as dívidas internas e externas do País. Já as medidas para diminuir a participação do Estado na economia nacional, as privatizações, promoveu a entrega do patrimônio público à iniciativa privada. E, por último, as reformas, nos diversos níveis e que ainda estão em andamento, significam somente as perdas de diversos direitos adquiridos pelos trabalhadores.

Pereira cita alguns números que, segundo ele, ilustram bem o que aconteceu ao País com a implantação do Plano Real. O desemprego aumentou a um nível jamais visto, algo próximo dos 20%; a dívida externa que era de cerca de US$ 60 bi antes do Plano, hoje subiu para, praticamente, US$ 300 bi, e a dívida interna que de certa maneira estava controlado, atinge atualmente US$ 500 bi. É praticamente quase a metade do nosso Produto Interno Bruto (PIB) e tudo o que se produz vai para pagar a dívida. "O plano estabilizou a moeda mais desestabilizou toda a economia", avalia.

Em sua opinião, diversos pontos podem contribuir para melhorar a qualidade de vida do brasileiro. Na questão do emprego, o Governo deveria reduzir a jornada de trabalho no País, que hoje é de 44 horas semanais para 35 horas, igualando-se

à Europa, por exemplo, e gerando, de imediato, cerca de 8 milhões de novos postos de trabalho. Outra questão seria a reforma agrária, uma forma mais barata de gerar emprego e ao mesmo tempo, produzir alimentos. Na seqüência, o Governo deveria "acabar com as reformas sobre os direitos trabalhistas" adquiridos pelos trabalhadores. Já para liberar recursos que poderiam ser aplicados nas áreas sociais, o sindicalista prega o rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI). "Mas achamos que não vai acontecer nada disso com o Governo FHC", lamenta o representante dos trabalhadores. Na sua visão, o País precisaria passar por novas eleições.

Já o diretor do Sindicato dos Professores Oficiais do Estado de São Paulo (Apeoesp) e dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) diz que os aspectos positivos que existem são "só do ponto de vista inflacionário, mas, tem 99% de aspectos negativos", porque aumentou a miséria, a marginalidade, a violência, a insegurança, o desemprego, a concentração de renda, o poder de compra dos mais ricos e a "opressão psicológica por parte do Governo e dos patrões".

Os trabalhadores tinham um poder de fogo através dos sindicatos que reivindicavam melhorias nas condições de emprego e de salários. Com a implantação e o andamento do Plano Real, nestes cinco anos, o Governo, com o discurso de que não há inflação, "abafaram o ânimo de lutar dos trabalhadores". Por outro lado, complementa Souza, Governo e empregadores atacam os órgãos de resistência do movimento sindical, dizendo que não há defesa dos trabalhadores e "os trabalhadores não vão às ruas com medo de perderem seus empregos". Seguindo em sua análise, Duílio Duka de Souza, afirma que os sindicatos se sentem "engessados" porque não têm a adesão da categoria para o movimento.

O saldo disso, lamenta, é a perda de emprego, direitos e cidadania. Por isso, segundo o sindicalista, não há como dizer que o plano trouxe benefícios para o trabalhador. Quem lucrou, para Souza, foram principalmente banqueiros e grandes grupos multinacionais, que exploram o País e exportam os lucros. "Aos trabalhadores nada", pontua.

"A avaliação é que, nestes cinco anos de Plano Real, nós (os trabalhadores) não conseguimos nada", aponta Cândido Augusto Gonçalves Rocha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Metalúrgica, Mecânica e de Materiais Elétricos. Embora, sob a ótica do Governo, a inflação esteja estabilizada, o sindicalista diz que "todos vêem que o País está praticamente ingovernável", com os níveis de emprego em queda com a falência de muitas indústrias. Por conta disso, o trabalhador, de acordo com Rocha, precisa abrir mão de uma infinidade de direitos para conseguir manter o emprego.

Rocha acredita que para o País sair do caos em que se encontra, o Governo precisa implantar uma política urgente de retomada do crescimento econômico do País, com propostas concretas, e não "paliativas como ficar dando cursinho de informática", conformando a todos, mas sem oferecer reais oportunidades de emprego. Outro ponto seria a reforma fiscal, com uma cobrança mais justa, onerando mais os ricos, e sem penalizar os mais pobres.

"Fernando Henrique é péssimo, conseguindo ser pior no segundo mandato do que foi no primeiro", afirma Gonçalves Rocha.

O momento, diz, é de união das classes trabalhadores para "brigar" por soluções para tentar tirar o País da situação caótica em que se encontra.