07 de julho de 2026
Geral

Plano Real

Paulo Toledo
| Tempo de leitura: 4 min

Comércio enfrenta quarto ano de quedas

Comércio enfrenta quarto ano de quedas

Texto: Paulo Toledo

O comércio encara com preocupação a evolução do Plano Real, que não aponta perspectivas de melhoras para o setor. Dos cinco anos que se completam nesta semana, o setor amarga quatro de queda nas vendas, já que, desde 1996, as empresas do setor apresentam queda no faturamento real. Para se ter uma idéia, de janeiro a abril de 99, em relação ao mesmo período do ano passado, a queda foi de 5,26%.

Walace Sampaio, 49 anos, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (SinComércio), diz que o último crescimento apresentado pelo setor comercial ocorreu em 1995. Para ele, o quadro recessivo e o quadro de desemprego no comércio são muito preocupantes.

Sampaio diz que o processo de descapitalização das empresas comerciais, principalmente as micro e pequenas, combinado com as altas taxas de juros impostas pelo governo, as coloca em uma situação muito difícil. O presidente do SinComércio afirma que a preocupação se acentua com as últimas medidas tomadas, como a elevação da carga tributária e o retorno da CPMF. "Isso, por um lado, onera as empresas, que já estão combalidas, e, por outro lado, retira o poder de compra do consumidor, criando um círculo vicioso de queda do poder aquisitivo, que leva a uma queda nas vendas, que provoca o desemprego. O pior é que não há nada no sentido de reversão deste quadro", afirmou.

Sampaio disse que quando é uma crise muito longa - segundo ele, o brasileiro está habituado a períodos de crise, mas nenhum tão longo como este, que já dura quatro ano - as dificuldades aumentam. Ele lembra que a euforia inicial com o Plano Real foi embora e não voltou mais para o comércio.

"E não há perspectiva de que volte, porque o quadro é de recessão, que realimenta o processo de desemprego de perda de renda de quem mantém o emprego, via aumento da carga tributária", afirmou.

Walace Sampaio afirma que o quadro de juros altos e a falta de linhas de crédito para as micro e pequenas empresas causam mais dificuldades. Ele lembra que além das altas taxas praticadas, as instituições financeiras exigem um conjunto de garantias que as empresas, hoje em dia, não têm mais condições de oferecer.

O presidente do SinComércio destaca que o quarto aumento de combustíveis no ano, em vigor desde sexta-feira, além dos reajustes das tarifas telefônicas e da energia elétrica, que foi em percentuais acima da inflação, agravam mais o quadro. "Aí você vê a disparidade. Você tem empresas públicas e privatizadas repassando para o preço todo o aumento de custo que elas têm. Então, se pergunta, privatização para que? Para isso, para repassar custo para o consumidor final, que é um consumidor cativo. Porque, apesar de privatizado, continua o monopólio", afirmou.

Por outro lado, Sampaio diz que o comércio, com a queda de faturamento e com a crescente concorrência, é, cada vez mais, obrigado a absorver custos, pois não tem como repassar ao consumidor. Assim, questiona, as empresas que já estão combalidas vão absorver mais custos de que forma? Realimentando o quadro de desemprego e perda de poder aquisitivo e menor atividade econômica, ao melhor estilo da "receita" do Fundo Monetário Internacional

(FMI).

Sampaio defende a simplificação da vida da pequena empresa e a redução da carga tributária, via reforma tributária, que o governo vem prometendo há anos, mas não se concretiza. Para ele, muito dificilmente haverá possibilidade da concretização das reformas necessárias neste ano. O presidente do SinComércio teme, ainda, que a reforma possa trazer um aumento da carga tributária, ao invés da redução e racionalização esperada. "O setor do comércio que sempre clamou pela reforma tributária, hoje em dia, está na posição de temer pela reforma, porque pode haver um aumento da carga, em função das necessidades que o governo tem", afirmou.

Para Sampaio, a saída para a crise é uma reformulação do modelo econômico. Ele destaca que, conter a inflação, apenas, não basta. "Temos que começar a perguntar para que queremos as coisas. Conter a inflação para que? Privatizar para que? Globalizar a economia, como foi feito, para que? Reforma tributária para que. Está faltando esta proposta e definir quais são esses objetivos. Tem que Ter uma política de desenvolvimento, de geração de empregos, de distribuição de renda. São várias políticas que têm que ser adotas. O que vemos é que estamos nos satisfazendo com a contenção da inflação, que é muito importante, mas que está trazendo um custo muito alto para a sociedade e para as empresas, principalmente as pequenas", afirmou.

Sampaio lembra que a queda na atividade econômica gera queda de arrecadação para o Estado, que leva os governantes

à tentação de aumentar impostos para compensar a queda da arrecadação, aumentando a carga dos que ficaram. "Essa roda perversa é que está girando", destaca.