Sífilis congênita é a grande preocupação
Sífilis congênita é grande preocupação
Texto: Sabrina Magalhães
Os tratamentos indicados no balcão da farmácia mascaram a doença, adiando o tratamento adequado
Uma das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) que mais preocupa os profissionais da área de saúde
é a sífilis, que quando atinge a gestante, põe em risco também a vida do bebê. Quando a doença
é diagnosticada na mãe no início da gestação, ela faz um tratamento com penicilina. O medicamento passa para a criança através da placenta, de forma que o feto também é tratado. Mas se o diagnóstico é feito só no final da gestação ou se a mãe
é alérgica à penicilina, o bebê vai apresentar conseqüências.
Ele pode ser prematuro, nascer com deformidades físicas ou distúrbios neurológicos ou nascer morto. E se porventura ele nasce sem apresentar sintomas, pode ser portador da sífilis congênita, que só se manifesta quando a criança já tem seis a oito anos de idade. Então, o quadro é irreversível. "Quando a paciente não faz o pré-natal, não procura o serviço de saúde, a gente está perdendo a chance de investigar a doença. Reduzindo a sífilis na mulher, a gente reduziria a sífilis congênita", explica a infectologista Denise Arakaki.
Três fases
Segundo ela, a sífilis se manifesta em três fases, sendo que pode ser curada com um tratamento bem simples quando
é diagnosticada no início. "Só que geralmente ela começa com uma feridinha indolor e limpa (sem pus). Se você não fizer absolutamente nada, ela desaparece em poucos dias. Se essa ferida é interna, a mulher nem percebe, porque não dói. E se não coincidir dela ir ao ginecologista nesses dias em que a ferida está aberta, nem o médico vai conseguir fazer o diagnóstico. Mas ela tem a bactéria da sífilis e está transmitindo para o parceiro ou para o feto."
Se o paciente não percebe e não inicia o tratamento neste primeiro momento, depois de algumas semanas ou meses, podem
(ou não) surgir manchas vermelhas ou marrons pelo corpo, principalmente nas palmas das mãos e na sola dos pés, além de febres e ínguas. Tudo isso também desaparece sozinho em poucos dias.
A menos que o paciente faça um exame por outro motivo e identifique a doença, o micróbio vai atacar o corpo silenciosamente, prejudicando os ossos, o coração, o cérebro. Depois de alguns anos aparece já a sífilis neurológica, que pode deixar o paciente aleijado, doente do coração e com distúrbios mentais, até levá-lo à morte.
Tratamento inadequado
Para Arakaki, um dos grandes problemas no tratamento das doenças sexualmente transmissíveis é que boa parte das pessoas ainda procura a solução dos problemas nos balcões de farmácia. Ali, alguém lhe indica algo que traz alívio por algum tempo. O que o paciente não sabe
é que o germe continua ali, "escondido", esperando o momento certo para voltar a atacar. Enquanto "espera", vai se fortalecendo. Como resultado, as infecções ficam cada vez mais complicadas, exigindo tratamentos mais prolongados, com drogas mais fortes e efeitos colaterais piores.
"Outra coisa que é bastante comum também é que, como o uso de antibióticos hoje está muito difundido, às vezes você toma um medicamento que inibe aquela primeira feridinha, ela não aparece ou vem tão pequena que você não vê. Então você não fica sabendo que tem algo errado e não procura o médico. E a pessoa pode incubar essa bactéria por anos, sem sintoma nenhum. Vai saber depois, tardiamente."
Diante de uma alteração qualquer, deve-se procurar o posto de saúde e fazer o tratamento como o médico indicar, tomando o remédio na quantidade certa e nos horários certos, só interrompendo o tratamento quando o profissional autorizar, mesmo que os sintomas desapareçam muito antes disso. Parar com a medicação antes do tempo pode gerar muitas complicações para o paciente, inclusive esterilização, impotência, inflamação no útero, trompas e ovários, além de aumentar as chances do desenvolvimento de câncer de colo de útero e pênis.
Outras DST's
As doenças sexualmente transmissíveis existem há milênios e são causadas por diferentes microorganismos e com graus de gravidade também diversos. Confira algumas:
* Gonorréia: Aparece, em média, dois a 15 dias depois da contaminação, com coceira na uretra
(canal da urina), dificuldade ou ardência para urinar e secreção uretral ou vaginal amarelada, o que dá a ela o apelido de "pingadeira". Pode evoluir para infecção na próstata e testículos, ou a infertilidade, artrite e meningite.
* Candidíase: na mulher aparece como um corrimento branco e sem cheiro (semelhante a leite talhado), vermelhidão, coceira e ardência ao urinar. No homem, verlhidão, manchas brancas no pênis (sapinho), coceira e ardência.
É uma das mais simples, mas pode causar infecção urinária.
* Cancro mole: apresenta pequenas feridas dolorosas na região genital ou anal. Sem tratamento, ela aumenta de tamanho e profundidade. Depois de 15 dias, o paciente pode ter
ínguas tão doloridas que lhe prendem os movimentos das pernas, impedindo-o de andar.
* Gardelenose vaginal: causa um corrimento de cheiro muito forte, principalmente durante as relações sexuais. Pode tornar-se crônica.
* Herpes genital: aparecem bolhinhas do tamanho da cabeça de alfinetes. Elas podem arder e coçam intensamente. Esta doença não tem cura. Pode ser controlada, mas reaparece sempre que o organismo fica debilitado.
* Linfogranuloma ou íngüa venérea (bulbão): causa febre, dores musculares, inchaço nos órgãos genitais e o aparecimento de uma pequena ferida. Em até um mês, surgem íngüas. Podem evoluir para uretrites, vulvovaginites, meningite ou nódulos cutâneos.
* Hepatite B: manifesta-se com icterícia (cor amarelada na pele e nos olhos), causa náuseas, emagrecimento rápido e urina escura (marrom). Sem tratamento, leva à hepatite fulminante ou crônica.
* Aids: vírus HIV ataca o sistema imunológico, diminuindo a resistência do organismo a doenças. As primeiras manifestações podem ser febres constantes, suores noturnos, diarréia por tempo prolongado (mais informações na próxima edição do JC Saúde)
Fonte: Programa Municipal DST/Aids