08 de julho de 2026
Geral

Vice-governador

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 9 min

Gerlado Alckmin defende globalização

Geraldo Alckmin defende globalização

Texto: Nélson Gonçalves

O que pensa o vice-governador do Estado de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) sobre temas como a reeleição, as chances do País quebrar barreira de subsídios com a Europa e a filosofia da globalização na época do chamado neoliberalismo. Em visita ao Jornal da Cidade, no último dia 19 de junho, quando esteve na região, Alckmin participou de um bate-papo na sala de entrevistas da Redação. O JC também perguntou sobre questões como o relacionamento pessoal com o governador Mário Covas, de seu partido, e as diferenças de temperamento.

Jornal da Cidade - Vamos conversar sobre temas que não estão no dia-a-dia de entrevistas coletivas. Gostaria que o senhor comentasse sobre a convivência pessoal e política com Covas e com o período do problema de saúde do qual ele ainda se recupera?

Geraldo Alckmin - O governador Mário Covas tem dito que nessa questão de titular e vice às vezes se escolhe a antítese. Se é homem, escolhe mulher, se é gordo, às vezes, escolhe magro. Enfim, sempre a antítese. E que na realidade, diz o governador Mário Covas, esse episódio do problema de saúde foi um momento também para mostrar o bom entrosamento do titular e do vice. Primeiro, desde a campanha eleitoral, em que ele se afastou para não interferir no processo. A continuidade dos trabalhos, da filosofia, da linha de conduta, foi absoluta. Um dado prático, administrativo, importante é que mesmo com a queda brusca na arrecadação nós fechamos o ano com déficit público zero por cento em 98. Mesmo com eleição. Agora, no período de cirurgia, também houve uma aproximação muito grande. O governador é uma pessoa muito generosa e uma verdadeira escola de vida pública. Você sente em cada medida o interesse coletivo, público. Eu sempre brinco que trabalho de co-piloto desse relacionamento muito gratificante.

JC - Na relação de filosofia de governo, quais as idéias em que o senhor pensa diferente?

Alckmin - Até em algumas idéias que eu achava que o governador estava errado, no fundo ele consegue demonstrar sua posição e isso é uma prática comum, discutir com interesse público. O governador é uma pessoa extremamente corajosa. Ele tomou decisões em um conjunto de medidas, muitas antipáticas ao público, mas extremamente necessárias. São Paulo deu um grande exemplo de ajuste fiscal, e pelo lado da despesa, sem nenhum aumento de carga tributária. E ao mesmo tempo zerou o déficit público e recuperou a capacidade de investimento do Estado. O governo disse muito "não". Mas é preferível um não aplicável que um sim que não possa ser cumprido.

JC - O governador tem um temperamento forte, falam dele ter o gênio de espanhol, não foge de uma boa briga quando provocado. O senhor tem um temperamento mais sereno. Dá para fazer uma comparação?

Alckmin - Cada um tem um estilo de atuação, mas são apenas diferenças de estilo, não conceitual. E acho bom o estilo do governador, porque de vez em quando você precisa dar uma chacoalhada em boas brigas. Num dia, em uma reunião, um sujeito disse: "Governador o senhor está bem humorado hoje". O Covas disse: "Não espalha hein!".

JC - O vice é visto como um cargo figurativo, na maioria das relações com o titular no Poder Executivo. Como o senhor vê essa situação?

Alckmin - Juridicamente, o vice tem expectativa de mandato, não tem uma função definida. Gerencialmente, administrativamente, uma empresa privada delega. Então o vice tem funções em áreas importantes porque não dá para o titular fazer tudo. Então,

é delegado alguém para ajudar, para fazer um trabalho conjunto. Quando assumiu, o governador Mário Covas me designou para presidir o Programa Estadual de Desestatização, o PED. É o maior programa de privatizações e concessões do País. O caso da CPFL foi maior que o da Vale do Rio Doce. Na Congas, só em um pedacinho de São Paulo, entrou R$ 1,8 bilhão de reservas, sem nenhum financiamento interno. Além disso, eu perguntei ao governador no que ele queria que eu o ajudasse. Ele disse que, como eu sou médico, deveria ajudar em clínica geral. Ou seja, onde precisar eu colaboro. Mas eu diria que se alguma virtude o vice tem que ter é humildade. Porque você não é o titular. Então, tem que ter a consciência de colaborador. Mas a quem cabe tomar as decisões, dar as diretrizes e estabelecer prioridades é ao governador. Ele foi escolhido pelo povo para essa representação.

JC - Uma tese nacional. Como o senhor vê a discussão da globalização em uma única via. Como o senhor vê as chances do Brasil quebrar dificuldades de sobretaxação de produtos daqui para outros mercados, como a Europa, e a facilidade que eles encontram para vender aqui?

Alckmin - A globalização é um fato da realidade e acho positiva. A competitividade traz benefícios.

É lógico que, como tudo na vida, não gera só aspectos positivos. Mas o que se imaginava, quando se tinha um mundo bipolar, com os Estados Unidos e a extinta União Soviética, na guerra fria, um desmoronamento dessa estrutura, se imaginava um mundo unipolar. Se imaginava, a partir da queda do muro de Berlim por exemplo, uma grande predominância dos Estados Unidos. O que se verificou, na verdade, a partir daí,

é um mundo multipolar, com vários blocos. Temos os tigres asiáticos, a comunidade econômica européia, o Nafta, o Mercosul. Então acho que a tendência é de multipolaridade e a importância do bloco regional é do Mercosul ampliado, do pacto Andino, da integração latino-americana, para competir melhor no mercado globalizado, estabelecer trocas melhores, fortalecer mercados. E acho que é possível quebrar resistências. É claro que não dá para imaginar liberação, abertura ampla, em nenhum dos sentidos. O País deve tomar suas providências para, dentro das regras comerciais internacionais, poder defender alguns produtos mais importantes. Então, não é uma discussão simples. Na agricultura, por exemplo, a Europa, com raríssimas exceções, dificilmente tira subsídios. Então é claro que isso dificulta. Mas acho que a globalização é um fato, assim como a necessidade do fortalecimento do bloco regional.

JC - Na área de privatização as principais críticas, no País, são para o modelo econômico que privilegia capital especulativo. Na venda de estatais, o senhor citou a venda da Congas sem financiamento externo. Mas o governo federal tem vendido empresas públicas financiando o comprador. O que o senhor pensa sobre isso?

Alckmin - Pode ser que o processo de privatização não tenha sido perfeito, não tenha se dado um tempo maior para a discussão do modelo. Mas, inegavelmente, foi um fato importante. Na redefinição do papel do Estado não dá para imaginá-lo provedor de tudo, não há recursos. Nem o Estado executor de tudo. Então, na área de infra-estrutura, em setores como de energia, transportes, comunicações, é natural que você tenha uma participação privada maior. E o Estado tem um papel regulador, fiscalizador. Então, nós passamos a ter essa participação, como a Anatel, Anel, ANP. É uma reforma do Estado que acho necessária e importante, principalmente na área de infra-estrutura. São Paulo foi o primeiro Estado a criar a sua agência. A privatização traz investimento privado, traz tecnologia. O telefone não pode ser mais um luxo e vai ser um produto com conceito diferente. Você pega o aparelho e a linha e paga a conta.

JC - Mas, além da discussão de financiamento público para venda de empresa pública, existem restrições quanto à garantia dos serviços, como na telefonia, e a garantia de aumentos automáticos. É a indexação do custo do serviço contra o salário fixo?

Alckmin - Não conheço com profundidade o modelo da telefonia, até porque é federal. Mas no caso do setor elétrico, foi estabelecido o chamado fator X. Quando começaram as privatizações, o fator X era em torno de oito anos. Hoje está em três ou quatro anos. Ou seja, é a partir desse tempo que todos os ganhos de eficiência e produtividade passam para o consumidor final. Então, você não tem reajuste com correção automática da inflação. Aí é um custo-benefício. Os ganhos de eficiência e produtividade passam ao consumidor final.

JC - Um tema de atuação política e de exercício sobre o sistema eleitoral. Como o senhor vê o instituto da reeleição?

Alckmin - Acho que a reeleição independe de Fernando Henrique, é uma questão conceitual, tem argumentos favoráveis e contrários. Eu sempre fui favorável. Acho que a possibilidade de uma reeleição estimula o governante a fazer um governo melhor. Antigamente, acontecia do camarada fazer um governo medíocre e depois não ser mais colocado para a aprovação popular. Vinha outro e aí, às vezes, conseguia ser pior que o primeiro. O sujeito anterior ficava em casa, depois de quatro anos o povo tinha saudade dele e ele voltava. Era comum no Interior esse troca-troca de cadeiras, mas nunca em seguida, porque tem que ter o reconhecimento durante o mandato. Então, a reeleição não é fácil. O que se faz com a reeleição

é dar um poder a mais para o eleitor, de escolher inclusive aquele que ele já tinha escolhido antes, por uma vez. Conceitualmente, acho positiva. Há um mês nos visitou o governador da província de Toyama, do Japão, Alberto Nakaoki. Ele esteve em São Paulo, como governador, quando assinou um convênio de cooperação com o então governador na época, Franco Montoro. Ele voltou agora, como governador, para ampliar o convênio. Aqui, nesse período, mudou Montoro, Quércia, Fleury e Covas. Lá, continua sendo o Nakaoki. Lá tem reeleição, a cada quatro anos, mas não tem limite. A reeleição estimula bons governantes, em termos de conceito.

JC - Mas a reeleição é bem vista no período FHC?

Alckmin - Uma das dificuldades que o Fernando Henrique tem e que temos que avaliar é que no Brasil não tem partido político. A história da democracia brasileira

é do personalismo político, como getulismo, janismo, quercismo, malufismo, collorismo, etc. E isso precisa ser resolvido com a reforma política, com a fidelidade partidária. Na última eleição, 240 deputados mudaram de partido. Mas não é fácil mudar isso, precisa mudar a Constituição com três quintos de votos, com duas votações na Câmara e duas no Senado. Acho que pode passar na Reforma Política fidelidade partidária, cláusula de barreira, não dá para ter 38 partidos políticos com registro no Tribunal Superior Eleitoral

(TSE), você tem partidos do eu sozinho, cria uma crise de governabilidade. Também acho que pode passar a proibição de coligação proporcional. É uma maneira de dar sustentação para partido que não tem como existir, que não tem voto. Isso é um avanço importante. Não acredito que passe agora outros avanços como voto distrital. Tem que fazer uma reforma política. Se tivermos fidelidade, identidade e partidos com mais programa, teremos uma situação muito melhor, um processo pedagógico. O governador Mário Covas foi reeleito e, entre 94 deputados, ele elegeu 16. É complicado, tem que fazer uma engenharia política difícil.