Encontro discute criação de gado de corte
Encontro discute criação de gado de corte
Texto: Márcia Buzalaf
No II Encontro de Gado de Corte de Bauru, , o auditório da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP reuniu 618 inscritos de cinco estados do Brasil (PR, SP, MG, MT e RO), de 21 municípios e três palestrantes que abordaram o cruzamento industrial, controle reprodutivo sanitário na pecuária de corte e recuperação de pastagem. Com planejamento e organização, a criação de gado de corte pode ser mais lucrativa.
O Sindicato Rural de Bauru e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) decidiram realizar o II Encontro de Gado de Corte de Bauru pelo próprio sucesso do primeiro. O evento é voltado para o desenvolvimento da atividade na região, que preencheu cerca de 80% das vagas dos participantes, entre mini, pequenos e médios produtores.
Na opinião do vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo e presidente do Sindicato Rural de Bauru, Maurício Lima Verde Guimarães, 61 anos, o evento faz sucesso por ser gratuito e por contar com nomes fortes da pecuária brasileira.
O professor da Escola Superiori de Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq) de Piracicaba, Moacyr Corsi, é um dos destaques, e sua abordagem foi centrada na recuperação das pastagens. O médico veterinário Fernando Almeida Andrade, de Uberlândia, em Minas Gerais, abordou o cruzamento industrial e a médica veterinária do Sindicato Rural de Bauru, Elizabete de Lourdes Baleiro Teixeira, falou sobre o controle reprodutivo e sanitário na pecuária de corte.
Cruzamento Industrial
Hoje em dia, existe uma grande confusão entre cruzamento
- que é o acasalamento entre animais de raças diferentes, sendo que, pelo menos um deles, tem que ser de raça pura
- e mestiçagem - quando o cruzamento é feito entre animais não-puros.
A diferença do resultado entre os dois tipos de acasalamento
é grande, segundo Andrade. Com o cruzamento, o produtor consegue o máximo de heterose (choque de sangue) e a conseqüente uniformidade no resultado.
Geralmente, Andrade diz, a facilidade de trabalhar com touro a campo, os produtores acabam optando pela mestiçagem, já que, no cruzamento, o melhor resultado é obtido com a inseminação artificial. "Isso devido à menos resistência do touro. Mas isso é uma conformidade com o ruim", defende.
Andrade afirma que o touro europeu é menos rústico e, assim, tem menor resistência. Por isso, é melhor trabalhar com inseminação.
Assim, um dos maiores entraves do cruzamento é a utilização do reprodutor, já que ele tem que ser retirado do campo.
Andrade também aconselha que o produtor não perca de vista que apenas a fêmea nelore pare o bezerro meio-sangue. Por isso, não pode esquecer de repor o rebanho, se não, acabam as matrizes", afirma. A outra recomendação do médico veterinário é não manter a fêmea meio sangue.
A melhor qualidade genética do animal europeu no cruzamento industrial, segundo Andrade, é a forma de garantir o abate de bezerros com precocidade. "O meio-sangue morre de 10 a 12 meses mais cedo do que o nelore. Com isso, o lucro é maior", afirma. Com a precocidade, o lucro do produtor pode aumentar de 30% a 40%.
Andrade alerta que o custo do animal nascido a campo é maior do que daquele bezerro nascido por inseminação artificial. "O custo do touro e a quantidade de bezerro que ele dá por ano faz a diferença no custo", afirma o médico veterinário, quando diz que a inseminação acaba ficando mais barata para o produtor do que o cruzamento a campo.
O cruzamento industrial no Brasil começou em 1973, e, desde lá, foi difundido, ocupando propriedades em todas regiões do território nacional. Apesar disso, Andrade diz que a inseminação cresceu apenas 2% nos últimos 20 anos no País. Na década de 70, a inseminação representava 3% do rebanho do país. Atualmente, a participação da inseminação é de 4,5% do rebanho.
Alguns países desenvolvidos inseminam praticamente 100% de todo gado de leite. Em alguns países da Europa, a inseminação representa 90% do rebanho de gado de corte.
O que falta para o Brasil é a conscientização dos produtores dos benefícios da inseminação.
"Hoje, devido a necessidade de aumentar a lucratividade, o pessoal está trabalhando com inseminação", alerta Andrade. Um dos resultados é o crescimento da venda de sêmen importado no Brasil.
Recuperação de Pastagem
Sobre o tema, o professor da Esalq de Piracicaba, Moacyr Corsi, abordou as formas de aumentar a rentabilidade com a recuperação de pasto. Segundo ele afirma, metade dos pastos do Brasil estão em algum estágio de degradação. A preocupação deve ser geral, mas as atitudes devem ser tomadas por cada produtor, na busca de um pasto melhor e de uma melhor renda.
Jornal da Cidade: Qual é o enfoque da sua palestra neste encontro?
Moacyr Corsi: O nosso recado para o produtor de gado de corte é que ele comece com pouco pasto, mas bem manejado. Ou seja, começar com uma área menor, mas cuidar muito bem daquela área através de adubações, correções no pasto. Isso vai permitir que ele recupere o restante da propriedade. Hoje em dia, cerca de 50% das áreas de pastagem do Brasil estão em um processo qualquer de degradação. Isso significa que nós temos uma quantidade enorme de área que precisa de cuidados.
Se for envolver dinheiro para reconstituir toda esta área, será muito dinheiro. Então, a saída é tratar de áreas pequenas, mas bem conduzidas, bem manejadas. O produtor pode escolher entre 2% a 5% da propriedade para recuperar, porque, se ele investir em 10%, ele não terá gado para colocar em 90% da propriedade.
Assim, ele pode usar menor concentração nas áreas que não estão em recuperação, concentrando o gado na área que está sendo manejada adequadamente.
JC: Esse processo de adubação é lento?
Corsi: Não, o processo é rápido, o custo é baixo. Eu acredito que ele vá gastar ao redor de R$ 200,00 por hectare em uma adubação boa e para uma lotação ao redor de cinco animais por hectare.
O produtor deve escolher o pasto bom para começar a adubação. O retorno do pasto bom é mais rápido. O pasto ruim,
é melhor deixar quieto, porque ele vai melhorando com a baixa lotação nesta área.
JC: Qual é a base desta adubação?
Corsi: Depende da análise do solo. Para fazer uma coisa consciente, você tem que fazer uma análise do solo, que custa em torno de R$ 10,00 a R$ 15,00. Com base nesta análise é que se recomenda o tipo de adubação.
Só para se ter uma idéia geral, o solo geralmente precisa de uma calagem e certamente vai precisar de adubo fosfatado. Alguns solos não demandam potássio, mas certamente vai precisar de nitrogênio, porque ele determina a lotação.
JC: Por que a resistência dos produtores em fazer a adubação?
Corsi: Acho que é falta de conhecimento e o preço. O custo da adubação geralmente representa 60% do custo de produção. Isso faz com que erros na adubação levem o produtor a perder dinheiro. Por falta de conhecimento de manipulação adequada, eles podem perder dinheiro e acabarem fazendo subadubações.
JC: O que acarreta a subadubação?
Corsi: Resulta em uma resposta muito efêmera da planta. A planta tem um surto de produção, mas depois cai na mesma produção.
Uma boa adubação tem garantido uma rentabilidade de até US$ 850 por hectare. Isso é uma lucratividade muito grande em qualquer sistema agrícola de produção. Então, é numericamente viável.