04 de março de 2026
Geral

Fonte de lucro

Márcia Buzalaf
| Tempo de leitura: 5 min

Foco na reposição garante lucro das fábricas de baterias

Foco na reposição garante lucro das fábricas de baterias

Texto: Márcia Buzalaf

Em Bauru, são três nomes fortes: a Tudor, a Cral e a Ajax, mais antiga de todas. Talvez um das áreas mais prósperas da economia local, as fábricas de bateria lucraram com o aumento na frota nacional entre 94 e 97 e, mais recentemente, com a desvalorização do real. Setor exportador, focalizado no mercado de reposição, emprega cerca de 1,2 mil funcionários em Bauru em empregos diretos. Agora, querem se adaptar às regulamentações ambientais e retirar o estigma que adquiriram.

O mercado das montadoras, de acordo com José Carlos Caminha, 47 anos, sócio-diretor das Baterias Tudor, e Carlos Roberto Soares, 46 anos, gerente industrial das Baterias Cral, é muito competitivo e paga mal. Geralmente, as montadoras exigem uma produção muito alta das fábricas de bateria para se tornarem fornecedores e o preço pago é menor.

Por este motivo, o mercado de reposição das fábricas de baterias tem sido o mais atraente e lucrativo, tanto para o mercado interno quanto para o mercado externo. Com o boom do mercado automobilístico, as baterias originais estão entrando em um estágio de reposição, mantendo a movimentação das indústrias em alta.

Caminha diz que a Tudor tem uma escala limitada para as montadoras. Mas a fábrica ocupa 8% de todo o mercado de reposição do Brasil. De toda a produção da fábrica, 10% é enviada para os países do Mercosul. Na Argentina, a Tudor está entre a 4.ª e 5.ª empresa de bateria.

"Paraguai e Argentina são os maiores compradores, e a desvalorização deixou o produto brasileiro mais competitivo", afirma Caminha. Segundo ele, países dos Tigres Asiáticos são muito competitivos no setor das baterias.

Apesar da produção de veículos ter estacionado em 98, são trocadas 11 milhões de baterias por ano no País, garante Caminha.

Já a Cral, com 18 anos de atuação, afirma que destina praticamente 100% da produção para o mercado de reposição. Segundo Soares, a frota nacional, estimada em 26 milhões de veículos, troca a bateria em uma média de 24 a 36 meses.

Soares diz que a Cral detém 10% do mercado nacional de baterias, situando seu nome entre a 4.ª e 5.ª fábrica de baterias do País. Em 98, o volume de produção da fábrica foi de 680 mil baterias. Em 99, a produção deve crescer para 750 mil baterias por ano. "Os seis meses já fecharam com esta meta", afirma.

Nos próximos dois anos, entretanto, Caminha afirma que o mercado deve se manter estabilizado. "E as empresas estão se preparando para isso", completa.

Empregabilidade

As fábricas de bateria geram aproximadamente 1,2 mil empregos em Bauru. A Tudor gera 160 empregos na cidade e 285 na usina de reciclagem de sucata, em Valadares, Minas Gerais, e a Cral tem 250 funcionários. A estimativa de mil funcionários trabalhando no setor não é precisa porque a fábrica de baterias Ajax não pôde disponibilizar dados e informações para a matéria.

A Cral, segundo Soares, tem uma política de crescimento produtivo que gerou 10% de contratação entre o primeiro semestre de 98 e de 99. Além disso, a fábrica tem uma política de assistência aos funcionários que inclui exames de sangue de três em três meses. Segundo o supervisor de laboratório ambiental da Cral, Márcio Aparecido da Rocha, 29 anos, a legislação pede um exame semestral, mas a empresa acha melhor fazer acompanhamento mais freqüente. "Há seis anos não tem incidência de saturnismo entre os funcionários", afirma Soares. A Cral tem, inclusive, um convênio com o Instituto Adolfo Lutz para a análise de sangue.

Se não fosse pelo crescimento de produção, as fábricas de baterias teriam demitido vários funcionários. Isso porque, cada vez mais, as fábricas estão automatizando seus sistemas de produção.

Ao contrário do que pensam, Souza diz, a automação pode ser benéfica no caso das fábricas de baterias. Alguns trabalhos que antes eram realizados por funcionários sem muita precisão e com risco de perigo estão sendo destinados para as máquinas.

Ambiente

A maior fiscalização da Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental (Cetesb) e do próprio Ministério do Trabalho, segundo Caminha e Soares, é um dos motivos da atual preocupação das fábricas em tirar o estigma de poluidoras e insalubres.

Caminha diz que a maior fiscalização tem que ser feita nas "fábricas de fundo de quintal". Segundo ele, são elas que mais poluem e degradam o meio ambiente.

Rocha diz que a Cral vem investindo pesadamente no tratamento da água que devolve para a natureza.

A Cral possui tanques de tratamento de efluentes e de controle biológico, onde a fábrica cria peixes. Rocha diz que, constantemente, os próprios animais são examinados para medir a quantidade de chumbo no organismo.

A preocupação com o meio ambiente é característica da preservação internacional. Segundo Caminha, a atividade das fábricas de bateria é mesmo insalubre.

"Por isso que não tem fábrica de baterias no centro da cidade", afirma. Além disso, um engenheiro ambiental é importantíssimo nestas fábricas.

Senai forma profissionais

O setor de baterias também tem um grande aliado na cidade: os formandos do Senai. Segundo José Carlos Caminha, 47 anos, sócio-diretor das Baterias Tudor, a cidade tem muita mão-de-obra qualificada. Vinte e oito estudantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) já foram treinados na Cral e, de acordo com Carlos Roberto Soares, 46 anos, gerente industrial das Baterias Cral, oito foram contratados.

A parceria entre a Cral e o Senai nasceu há três anos, entre o diretor do Senai, José Carlos Sgnoretti, 49 anos, e Soares. A cada semestre, a escola envia os dez melhores alunos para a fábrica, em um estágio remunerado de um mês. "A idéia deu certo", diz Soares, que acredita que Bauru não tem trabalhadores qualificados o suficiente na cidade. "A única fábrica da qual aproveitamos os funcionários é a Brahma", afirma.

Amanhã mesmo, três "formandas" do Senai vão começar o estágio na Cral. Na opinião de Sgnoretti, a tendência é que a facilidade tecnológica aproxime as mulheres do trabalho em fábricas. "É que antes este tipo de trabalho exigia muito esforço físico", explica.

Atualmente, o Senai tem 300 alunos no curso profissionalizante e 600 nos cursos de qualificação e requalificação.

"Este é mesmo a área de interesse das empresas e dos trabalhadores que mais cresce", assegura Sgnoretti.

Parte dos alunos são aproveitados na Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), na Companhia Energética de São Paulo (Cesp), na Tilibra, na Suchard, na Tiliform, na Brahma entre outras.