Mulher domina a evangelização na Diocese
Mulher domina a evangelização na Diocese
Texto: Adriana Amorim
As paróquias da Diocese de Bauru não seriam as mesmas se não contassem com o trabalho das mulheres. São as leigas que estão presentes em maior quantidade nas atividades da Igreja Católica e funcionam como elo entre o padre e a comunidade. A constatação foi feita pela professora de História da Universidade do Sagrado Coração
(USC), que recentemente defendeu a tese de doutorado "Mulheres beatas e militantes na Igreja de Bauru". Ela pesquisou as 30 paróquias englobadas pela Diocese e descobriu que as mulheres representam 74,39% do total de leigos participantes das atividades eclesiais.
De acordo com o levantamento, a Diocese de Bauru possui 13.505 leigos que integram efetivamente as pastorais, movimentos e associações. Desse total, 10.046 são mulheres. Essas mulheres leigas, cristãs e engajadas nos serviços da Igreja como coordenadoras, membros de diretoria ou simplesmente como integrantes dos grupos de execução de tarefas, foram o objetivo de estudo da tese de doutorado.
Terezinha chegou à conclusão que são essas mulheres, que muitas vezes permanecem no anonimato, que representam a base da evangelização. Não apenas por estarem presentes na Diocese em um número superior ao de homens, mas por desempenharem um trabalho com qualidade incontestável.
"Qualitativamente, tem-se procurado mostrar principalmente, no final deste século, a sua presença imprescindível na missão evangelizadora", ressalta.
Isso significa que a mensagem do evangelho passa pelo filtro da mentalidade, da visão de mundo e da compreensão de Igreja das leigas atuantes antes de chegar aos fiéis. E quem são essas mulheres, que pertencem às pastorais e movimentos, levando em frente os ideias da religião? A pesquisa revela o perfil das leigas na Diocese.
Participação ativa
A maioria das mulheres atuantes tem entre 40 e 60 anos de idade, escolaridade até a 4ª série, são casadas e não trabalham fora de casa. São pessoas geralmente restritas ao ambiente do lar e da Igreja, e recebem a comunhão semanalmente. Sessenta e sete porcento delas vão à missa toda semana. Para elas, a missa e o assistencialismo são as práticas preferidas.
No entanto, lideram em quantidade quase todos os movimentos e pastorais da Diocese. 62,5% dos coordenadores das atividades são mulheres. O número é ainda maior em algumas paróquias, como a Beato José de Anchieta, onde ocupam 74,1% das coordenadorias. A maior quantidade de mulheres está no Apostolado de Oração, onde elas são 1.129 e existem apenas 44 homens.
São as mulheres que ficam responsáveis pelas leituras, orações e reflexões bíblicas feitas nas reuniões de equipes. Isso porque 47% dessas atividades são feitas pelo coordenadores, e a maioria dos coordenadores
é de mulher. Na hora de tomar as decisões sobre o trabalho que será realizado pelo grupo e no momento de executá-los, são elas que novamente estão na frente.
O trabalho feminino é reconhecido pelo homens leigos militantes. A maioria deles disse, na pesquisa feita pela professora, que haveria um esvaziamento qualitativo caso 80% das mulheres se afastasse da Igreja. Os demais apontam como consequência a desarticulação quantitativa e a estagnação provisória.
Igreja buscou aproximação nos anos 70
A Igreja Católica passou a tentar valorizar a mulher a partir dos anos 70, quando os movimentos feministas começaram a ser articulados uns aos outros. "A partir de 75, a Igreja no Brasil passou a acompanhar o movimento feminista, ficando por trás deles e subsidiando-os", explica a professora Terezinha Zanlochi.
Até essa data, os movimentos contra o patriarcalismo que tiveram início por volta 1840, estavam presentes na sociedade, mas não de forma concisa. A professora explica que, nos anos 70, a Igreja descobre na mulher o seu "material" de trabalho.
Mesmo conquistando o amadurecimento, a mulher continua na sua religião, mas passa a ter um poder de decisão em relação aos preceitos repassados pelo padre. "A revolução industrial insere a mulher no mercado de trabalho, ela passa a fazer questionamentos, mas não se afasta da religião", diz Terezinha.
Mesmo diante da abertura dada ao sexo feminino, a Igreja Católica mantém ainda marcas da exclusão à mulher. Até agora, a mulher não pode receber confissões, perdoar os pecados, dar a unção dos enfermos e ser sacerdotisa. Os resquícios do patriarcalismo ainda estão muito presentes, característica que é atribuída também à sociedade. "A sociedade também
é patriarcal. Muitas vezes, quem dá continuidade
à discriminação da mulher é a própria mulher", afirma a professora.
Para bispo, as mulheres poderiam ter mais espaço
O bispo da Diocese de Bauru, dom Aloysio Leal Penna, afirma que a mulher desempenha um trabalho essencial na Igreja e vem ocupando, cada vez mais, posições de destaque nas comunidades. Ele diz que cabe ao pároco de cada paróquia buscar a valorização das leigas e acreditar que elas poderiam exercer papéis ainda mais relevantes do que já exercem.
JC - O que torna a mulher diferente do homem aos olhos da Igreja?
Dom Aloysio - A Igreja, teologicamente, reconhece em todos a dignidade de filhos de Deus. Portanto, teologicamente não há diferença. Mas as mulheres assumem certos papéis com mais facilidade que os homens devido à suas características naturais e vice-versa. Em termos intelectuais, elas estão cada vez mais ocupando espaços e devem crescer muito mais, inclusive na Igreja.
Jornal da Cidade - Como o senhor define o trabalho da mulher na Diocese de Bauru?
Dom Aloysio - A mulher desempenha um papel primordial na Igreja. A maioria das catequistas e agentes pastorais é mulher. Existem senhoras muito piedosas, rezam e estão sempre na Igreja e existem também as militantes, mulheres que fazem trabalhos extraordinários dentro da Igreja. São líderes e ainda ajudam os padres.
JC - A atuação das mulheres é diferente da dos homens?
Dom Aloysio - As mulheres têm as qualidade próprias, são mais meticulosas, mais sensíveis e, portanto, possuem qualidades que são muito importantes nas pastorais, que são muito baseadas na acolhida. Isso as mulheres sabem fazer isso muito bem. O papel da mulher é importantíssimo dentro da Igreja.
JC - Mas a Igreja procura valorizar a mulher. Há queixas de que isso nem sempre acontece.
Dom Aloysio - Como em tudo na vida, existem pessoas que valorizam mais e outras que valorizam menos. Há padres que não têm nenhuma reserva, valorizam e dão espaço para elas. Mas existem padres que têm mais dificuldade para dar protagonismo, tanto à mulher quanto ao homem leigos. Esses, devido à sua formação, são mais autoritários e centralizadores. A valorização depende de cada paróquia. Mas eu acho que essa valorização deveria acontecer em todas as comunidades. Algumas paróquias poderiam estar muito melhor se dessem apoio à mulheres e aos leigos.
JC - Nos últimos anos a mulher foi conquistando espaços na sociedade. Sua atuação também mudou na Igreja?
Dom Aluysio - Eu creio que melhorou bastante. Elas começaram a ter ofício de maior liderança e responsabilidade. A mulher já tem um papel muito importante na Igreja, mas deveria ter maior ainda.
Leigas participam de 46 movimentos
As mulheres estão inseridas em 46 dos 47 movimentos, pastorais e associações da Diocese de Bauru. Leonilda e Laureci são duas delas, leigas que desempenham papéis diferentes dentro de sua paróquias e possuem visões distintas da Igreja.
Leonilda Tomazi Batista, 50 anos, é ligada a comunidades eclesiais de base (CEBs), na única paróquia da cidade que desenvolve esse tipo de movimento, a Maria Mãe do Redentor.
Com a CEBs tomou forma a Igreja Popular na qual o povo fala sem intermediário, rompe com a dependência e assume um engajamento comprometido através da mobilização de bases comunitárias.
"Quando vim para essa comunidade, meu interesse pela religião aumentou porque encontrei um jeito novo de ser Igreja", explica. Na paróquia, ela se encantou com as celebrações feitas nas casas e pela luta em benefício da comunidade.
"Naquela época tínhamos tanta coisa para melhorar, que todos se uniam para resolver os problemas".
Ela diz que o pároco dá abertura para a participação da comunidade, que geralmente dá a palavra final nos trabalhos eclesiais. Para Leonilda, suas experiências na Igreja são fundamentais para a criação dos filhos e como alimento da fé.
Atuante, ela abre espaço também para críticas.
"O papel da Igreja deveria ser mais de preparar as pessoas para o mundo que para encher igrejas". Ela acredita num catolicismo onde a oração se reflita na vida em comunidade e diz que ainda há muita resistência esse tipo de atitude.
Integrante de um movimento considerado conservador, Laureci Machado Riehl, 58, pertence à Renovação Carismática Católica. Ela e o marido coordenam a Secretaria da Família, voltada para atividades com casais. Recentemente, deram ares novos ao movimento através de um processo de atualização.
Ela diz que sua participação nas atividades da Igreja despertaram a necessidade da partilha com a comunidade. "A gente aprende a repartir, enxergar os problemas dos outros". Laureci define a Igreja como sinal da presença de Cristo no meio dos homens. "Também é o caminho para a salvação", diz.(AA)
Beatas dividem espaço com leigas atuantes
A Igreja Católica na Diocese de Bauru já não
é mais feita apenas pelas denominadas beatas. As leigas atuantes que misturam as orações à prática comunitária estão presentes praticamente na mesma proporção, revela a tese de doutorado da professora Terezinha Santarosa Zanlochi.
A pesquisa feita por ela mostra que a diocese possui três tipos básicos de evangelização praticadas pelas mulheres atuantes na Igreja. As denominadas beatas estão na frente. São elas que praticam um Catolicismo devocionista
(estimula a devoção aos santos), sacramentista (valoriza os sacramentos) e ritualista (obediente aos rituais).
Essas mulheres aderem à religião de forma tradicional, indo com muita frequência à Igreja, praticando o assistencialismo e seguindo fielmente as orientações dos padres.
No outro extremo estão as leigas militantes, mulheres interessadas em mudar situações e melhorar as condições da comunidade. Entre elas e as ditas beatas, a professora constatou na Diocese um grande número de leigas que desempenham os dois tipos de atividades.
Essas mulheres permanecem fiéis à Igreja na qual foram criadas, mas assumem posições que muitas vezes não se enquadram totalmente nas doutrinas do Catolicismo.
"A mulher já não é mais aquela que o padre dirigia; agora ela tem meios de discutir com o padre aquilo que realmente é necessário para que a evengelização se faça", explica Terezinha Zanlochi.
O que explicitou efetivamente a presença desses três tipos de evangelização foi a resposta dada pelas leigas em uma das questões do questionário aplicado. 48,2% delas disseram que cumprem todas as orientações do padre; 46,3% obedecem às vezes; e 5,5% não obedecem.
Adequações
Elas argumentam que, a orientação não é cumprida quando são necessárias adequações ao trabalho do grupo ou são encontradas melhores formas de realizar a ação. Cinquenta e nove por cento delas diz que descumprem as responsabilidades da posição que ocupa nos movimentos quando as ações estão em desacordo com a natureza dos participantes.
Outra mostra de que a leiga reserva a si o poder de decidir está no santo de devoção. Nossa Senhora Aparecida domina as estatísticas, embora a maior quantidade de mulheres esteja no Apostolodo de Oração, que venera o Sagrado Coração de Jesus.
Para a professora que defendeu a tese de mestrado, os dados da pesquisa mostram que a mulher passou a discutir com mais frequência as orientações da Igreja, mas continua preocupada com a qualidade da sua evangelização. As leigas dizem que a possibilidade de desempenhar uma missão transformadora na sociedade foi o fator determinante para que escolhessem o tipo de atividade religiosa a qual pertencem, resposta dada por 54% delas. "Falta muito pouco para que as mulheres realmente assumam a sua feminilidade e questionem duramente a Igreja", acredita Terezinha.
Preconceitos impedem a evangelização ideal
Os preconceitos e discriminações dos quais as mulheres são vítimas contribuem para que a evangelização realizadas por elas não tenha a qualidade desejada pela doutrina cristã. A constatação da professora Terezinha Lanlochi é baseada no fato de que uma evangelização de qualidade é aquela que liberta a pessoas de opressões sociais, morais e espirituais impostas historicamente.
"As mulheres ainda não se libertaram dos preconceitos e discriminações de que são vítimas e pelos quais a Igreja tem grande responsabilidade", acrescenta a professora. Em sua tese de doutorado, ela constatou que, devido a esse fator, grande parte das mulheres leigas da Diocese de Bauru não evangelizam da maneira ideal, ou seja, não transmitem um Evangelho comunitário e mais solidário que busca mudanças nas condições de vida da comunidade.
Um número muito reduzido cumpre essa tarefa, mas outra grande parte das leigas atuantes têm uma conduta mista, misturando os dois tipos de evangelização. "Esse comportamento muitas vezes independe do movimento ao qual elas pertencem, mas mais da autonomia que cada uma adquiriu e de sua capacidade de ação dentro da missão a que se destinou", diz Terezinha. Ela ressalta, no entanto, que o estímulo ou não do dirigente paroquial pode neutralizar e até anular esse tipo de comportamento.(AA)