08 de julho de 2026
Geral

Problemas auditivos

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 20 min

Distúrbios auditivos

Distúrbios auditivos

Imagine viver imerso no silêncio: sem a algazarra dos veículos nas ruas, sem o martelar de uma construção, sem o zum-zum-zum do rádio e da TV... Sem o piar dos pássaros, sem o zunido do vento nas folhas, sem o som do deslizar da água sobre as pedras, sem a melodia dos artistas, sem a gargalhada dos amigos, sem a voz dos amados. Sem comunicação com o mundo. Pois

é isso o que acontece quando o sentido da audição falha - perde-se, de certa forma, o contato com o mundo.

Texto: Sabrina Magalhães

De acordo com o Organização Mundial de Saúde (OMS-1993), 1,5% da população brasileira apresenta distúrbios da audição, o que corresponde a 2.250.000 pessoas. Isso pode variar desde alterações sutis, que muitas vezes até passam despercebidas, até a surdez completa, que acaba por isolar o indivíduo. As deficiências auditivas dividem-se em dois grupos: as congênitas e as adquiridas, sendo que o indivíduo que nasce com a audição perfeita pode perdê-la acidentalmente ou na velhice, quando a máquina humana se cansa de trabalhar.

Em qualquer situação, a primeira conseqüência

é a dificuldade de comunicação, com repercussões diferentes para cada caso. A criança que não ouve, se não tiver ajuda especializada, não vai falar, ler ou escrever como as outras. O adulto que perde a audição

é obrigado, quase sempre, a deixar o emprego e mudar radicalmente sua rotina. O idoso geralmente se isola, sentindo-se inútil por não poder passar para os mais jovens a sua experiência, nem acompanhar as descobertas destes.

Felizmente, boa parte dos problemas auditivos pode ser resolvida com medicamentos, adaptação de aparelhos de amplificação sonora ou cirurgias. Mas segundo a coordenadora do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA) do Centrinho, Maria Cecília Bevilacqua, para que estas soluções sejam significativas, elas precisam ser adotadas o mais precocemente possível. Ela explica que a criança que nasce com a deficiência e só

é tratada aos dois ou três anos de idade, vai ter uma lacuna muito grande exatamente na fase em que o ser humano aprende a linguagem, época da "descoberta" do mundo.

Já no caso das pessoas que perdem a audição por acidente ou doença, quanto mais rapidamente é feito o tratamento, melhor será a readaptação.

"O implante coclear, por exemplo, só é indicado se o tempo de surdez de uma pessoa é menor que o tempo de ouvinte. Quer dizer, uma pessoa que tenha 40 anos e que perdeu a audição aos 25 ainda é candidata ao implante. Mas se ela perdeu a audição aos 15 anos, ela é uma fraca candidata, porque já pode ter esquecido a linguagem oral e já está adaptada ao mundo da surdez. Às vezes, neste caso, a readaptação ao mundo ouvinte pode ser até mais traumática."

Comunicação necessária

Existem hoje três alternativas de linguagem para os deficientes auditivos. A oralização, a linguagem dos sinais - em que cada movimento da mão ou dos dedos representa uma letra do alfabeto - e a linguagem dos gestos - em que cada movimento do corpo significa uma expressão. Em Bauru, a equipe de audiologia do Centrinho defende o método de oralização, alegando que estes pacientes vivem num mundo de ouvintes e falantes e que, para não ficarem segregados deste mundo, precisam aprender a falar.

No entanto, algumas pessoas não conseguem se adaptar aos aparelhos auditivos (não aprendem a ouvir com eles), ou têm deficiências irreversíveis. Nestes casos, depois de algum tempo de experiência, sem resultado positivo, o paciente é encaminhado para instituições que ensinam o métodos de sinais. "Esses pacientes têm que estabelecer algum tipo de comunicação, seja ele qual for", destaca a coordenadora da Casa Caracol do Centrinho, Salimar Sandin Demétrio.

Questionada a respeito da possibilidade do paciente aprender as duas linguagens simultaneamente, ela explica que a fala é a melhor alternativa para que esse deficiente se relacione com as outras pessoas. "E a linguagem dos sinais

é mais fácil. Por isso, se uma criança, por exemplo, for encaminhada para ambas as técnicas, ela vai preferir a linguagem dos sinais. Só que é restrito o número de pessoas que a dominam e ela acabaria ficando segregada. Aprender a falar tem um tempo. É muito difícil aprender a falar depois dos cinco anos de idade. Ela aprende, mas num processo muito lento e sofrido. Então, nós defendemos que ela aprenda a falar, é um direito. Mais tarde, ela pode aprender os sinais também."

E a coordenadora do Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) do Centrinho, Maria José Benjamin Buffa, salienta que muitos deficientes, depois de falar, aprenderam os sinais e indicam isso para os outros. Pois conhecendo as duas linguagens, eles conseguem se comunicar tanto com os ouvintes, quanto com os surdos.

Mas ela salienta: o deficiente que aprende a ouvir e falar através de aparelhos vai ter sempre alguma dificuldade em pronunciar as palavras e um vocabulário restrito. As pessoas que convivem com ele, inclusive na escola regular (colegas e professores), têm que se habituar a falar mais lentamente, a repetir, quando alguma palavra não for compreendida, e a ouvir, sem deixá-lo constrangido. "Ao contrário, qualquer progresso tem que ser aplaudido, porque é um processo de aprendizado muito difícil."

Rubéola na gravidez é a principal

causa de surdez congênita no Brasil

O aparelho auditivo é dividido em orelha externa, ouvido médio e ouvido interno. A disfunção pode acometer qualquer destas partes

A infecção por rubéola durante a gravidez é a principal causa de surdez congênita no Brasil. Logo atrás vem a surdez por meningite. Para os médicos, dados alarmantes, considerando-se que a Medicina já desenvolveu vacina para as duas doenças há vários anos. Só que elas não fazem parte do Programa Nacional de Imunização, ou seja, só toma esses medicamentos quem pode pagar. Diferente, por exemplo, da caxumba, que também pode afetar a audição, mas para a qual há vacina disponível nos centros de saúde de todo o País.

De acordo com o otorrinolaringologista Helder Fernandes de Aguiar, o aparelho auditivo tem três porções: a orelha externa, que vai da orelha (pavilhão) até a membrana timpânica; o ouvido médio, onde estão os menores ossos do corpo humano (martelo, bigorna e estribo) e de onde sai um canal que tem comunicação com a parte posterior do nariz, chamada rinofaringe; e o ouvido interno, onde estão o órgão da audição, chamado cóclea (do grego, caracol), e o labirinto, órgão responsável pelo equilíbrio do corpo. As alterações que levam à surdez podem aparecer em qualquer um desses pontos.

Na orelha externa, o que mais leva pessoas aos consultórios

é a chamada "rolha de cera", quando a produção excessiva do cerume tapa o conduto auditivo. "Essa surdez

é transitória. O médico limpa ou faz uma lavagem e a audição volta ao normal. Só que a maioria dos pacientes vem ao consultório pedindo uma lavagem e nem sempre ela é indicada. Para o otorrino, a melhor coisa é quando o paciente tem cera. A pessoa vem com o ouvido doendo, entupido, desesperada e você resolve o problema em dois minutos. Ele sai elogiando você. Só que às vezes o problema é outro."

Ele explica que a pessoa pode ter uma descamação da pele (eczema) no conduto ou uma micose, muito comum no verão, quando as pessoas freqüentas piscinas. Entra água no conduto, propicia a proliferação de fungos, com coceira intensa, dor e perda de audição. Na ponta do conduto, fica a membrana timpânica, que pode ser rompida por uma infecção forte ou ser perfurada por objetos estranhos. Quando isso acontece, o local inflama, com produção de pus, dor e prejuízo da audição. O tratamento deve ser rápido, para não agravar o quadro. Mas há os casos de pessoas que nascem com uma malformação nesta primeira porção do aparelho - ausência de orelha ou de conduto auditivo . Nestes casos, o problema, segundo o especialista, é definitivo.

Ouvido médio

"O ouvido médio tem uma comunicação com a parte posterior do nariz. Um canal por onde entra secreção nasal, principalmente nas crianças de até três anos, idade em que essa trompa é mais retificada. Essa secreção catarral pode se contaminar, dando origem a quadros infecciosos, com muita dor e febre (otite média aguda). Ou essa secreção pode ficar parada no ouvido médio, impedindo a transmissão sonora. O som passa pela orelha, atravessa o tímpano, vibra os ossículos, mas ao encontrar a secreção, não chega ao

órgão auditivo, nem ao nervo. É a chamada otite média cerosa ou secretora, em que o paciente não sente dor."

Aguiar chama a atenção para o fato de que esse problema é muito freqüente em crianças que mamam deitadas ou naquelas que têm produção excessiva de secreção nasal - é o caso dos alérgicos e dos que têm adenóide aumentada

(carne esponjosa). Ele observou que durante uma gripe é comum o ouvido ficar "entupido", mas que esse mal-estar deve desaparecer conforme o nariz volte ao norma. Se a gripe ceder, o nariz parar de produzir secreção e o ouvido continuar tapado, é bom procurar o médico. Se houver secreção parada no ouvido médio, é feita uma limpeza ou drenagem.

Ainda no ouvido médio, pode haver uma malformação dos ossículos, que interferiria na transmissão do som. E uma doença chamada otoesclerose, que é uma rigidez do estribo. Conforme Aguiar, esta doença acomete cinco mulheres para cada dois homens, o que leva os especialistas a acreditar que ela tenha origem hormonal. Nas mulheres, ela aparece entre 20 e 40 anos, agravando-se durante a gestação.

Ouvido interno

As doenças do ouvido interno são as que alteram o funcionamento do nervo auditivo ou da cóclea.

"Normalmente, esses problemas não se resolvem com medicamentos, nem com cirurgias. São as doenças que levam ao uso de aparelhos de amplificação sonora. São doenças congênitas que podem ser hereditárias

(genéticas) ou não." É o caso da surdez causada por infecções, como a rubéola e a varicela, que acometem a mãe e refletem no bebê com conseqüente deficiência auditiva. Além disso, o paciente pode ter uma malformação da cóclea.

Já no grupo das disfunções adquiridas, estão as oriundas de doenças infecciosas, como a caxumba, a meningite e a malária. "O vírus da caxumba tem uma atração pelo nervo auditivo. Normalmente são casos unilaterais (a surdez atinge ou o ouvido direito ou o esquerdo). Neste caso, não há o que fazer, apenas preservar o lado bom. Só que normalmente a criança não percebe, até que um dia ela atende o telefone e acha que está mudo. Aí ela passa para o outro lado e ouve. No caso da meningite, principalmente a bacteriana, além do prejuízo do germe, a audição pode ser prejudicada pelos medicamentos. Existe uma linha de remédios

(antibióticos principalmente) que são ototóxicos. Eles provocam lesões auditivas."

No entanto, o médico salientou que não deve haver pânico. Esses medicamentos - também usados contra a tuberculose e a malária - só são prejudiciais à audição quando usados em dosagem e por tempo inadequados. Por isso, o reforço: não se deve fazer uso de automedicação. Só o médico é capaz de prescrever, com segurança, um antibiótico.

Aparelho: é preciso aprender a ouvir

Os dispositivos de amplificação sonora são personalizados, ou seja, feitos para compensar a deficiência de cada paciente

Para a maioria das disfunções auditivas oriundas do ouvido interno, o tratamento inclui a adaptação dos chamados Aparelhos de Amplificação Sonora (AAS). O paciente que recebe um desses dispositivos precisa, no entanto, aprender a ouvir através dele, o que é feito num longo processo de treinamento. Segundo o otorrinolaringologista Helder Aguiar, a dificuldade de adaptação varia: se o paciente perde a audição depois que já domina a linguagem, aprender a ouvir através do AAS é mais razoavelmente simples. Mas quando ele tem uma deficiência congênita ou perde a audição na infância, o terapeuta tem que ensinar tudo, tanto a ouvir, como a falar através do aparelho.

Neste caso, o deficiente vai iniciar seu tratamento no primeiro degrau. Ele é induzido a reconhecer os sons, separar um do outro (a voz humana de uma buzina, de um latido, do bater numa porta). Então, essas diferenças vão ganhando nome (voz, buzina, latido). Paralelamente a isso, ele começa a reproduzir os sons, falar palavras, formar frases, tudo num processo bastante lento.

Aguiar explica, no entanto, que antes de indicar um aparelho, o profissional precisa avaliar a condição auditiva deste paciente. Citando como exemplo um idoso, ele comenta que primeiro é necessário medir a quantidade que ele ainda ouve e a qualidade desta audição, ou seja, a capacidade de entendimento que ele tem. Se esta capacidade é boa, o aparelho pode ter um excelente resultado. No entanto, quando o entendimento é restrito, o aparelho dificilmente vai surtir os resultados esperados.

Neste sentido, Aguiar salienta: "Não se compra aparelho por propaganda de televisão. Não se compra aparelho por propaganda de jornal. O aparelho é colocado, chama-se aparelho de amplificação sonora individual, ou seja, é para você, para sua perda auditiva. E para cada perda auditiva existe um aparelho mais adequado. Não importa de qual empresa. Todas têm dispositivos para diversas alterações auditivas". Ou seja, tal qual os óculos de grau, há diversas marcas, mas para cada tipo de deficiência visual é prescrito um óculos específico. O uso inadvertido de aparelhos pode, evidentemente, piorar a dificuldade para ouvir.

Poluição sonora

O barulho do tráfego, buzinas, motores, o volume exagerado dos aparelhos de rádio e TV, dos aviões, das indústrias, agridem cada vez mais a audição humana. Para piorar, as pessoas têm passado muitas horas seguidas no trabalho, convivendo com esse emaranhado de sons em mais da metade de seu dia. Em função disso, tem aumentado o número de casos de Perda Auditiva Induzida pelo Ruído (Pair), principalmente em trabalhadores da indústria metalúrgica, de acordo com o otorrinolaringologista Helder Aguiar.

"Aí entra também a questão da suscetibilidade individual, mas conta o tempo de exposição ao ruído em anos e o tempo de exposição diário. Esse tipo de lesão é uma lesão séria, porque normalmente a pessoa não percebe a perda auditiva. Essa perda atinge determinadas freqüências sonoras, então a pessoa ouve normalmente, mas vai ao médico dizendo ouvir um barulho, um zumbido constante. Você faz o exame de audição e constata a perda. Essa perda afeta o nervo e não tem retorno. A única alternativa

é que, uma vez a perda instalada, se você se afasta definitivamente do ruído excessivo, ela estaciona. Só que se você continuar trabalhando em ambiente ruidoso, mesmo usando protetor, ela progride."

O especialista salienta que mesmo a poucos meses da virada do milênio, muitas empresas não se preocupam com a audição do funcionário, não exigindo os exames admissional e periódico, não obrigando seus empregados a usar os equipamentos de proteção. Para Aguiar, a empresa tem que oferecer o equipamento, mas também obrigar o funcionário a usá-la, evitando um problema de saúde e um futuro problema judicial, quando este funcionário com perda auditiva sair da empresa.

Segundo a professora Maria Cecília Bevilacqua, da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP), mesmo nos momentos de lazer é preciso ter cuidado. "A pessoa que vai a discotecas, casas noturnas e shows precisa dar um descanso ao ouvido no dia seguinte. Não dá para ir a um baile, dormir com a TV ligada e na manhã seguinte ligar o som. O ouvido não agüenta. Não é proibir, mas diminuir a cultura do barulho. A sociedade moderna ainda defende que barulho é sinal de progresso, mas é possível fazer sem ser tão ruidoso."

O aparelho auditivo

Pavilhão - Trata-se de uma cartilagem fina e resistente, de formato característico, com pregas, fossas e saliências. Apenas o lóbulo não tem cartilagem;

Conduto auditivo - É um canal com 2 a 3 cm de comprimento por aproximadamente 1 cm de diâmetro. nas paredes desse canal encontram-se numerosas glândulas sebáceas que segregam o cerume;

Tímpano - É uma membrana finíssima, quase transparente, que fecha o conduto auditivo. Tem forma quase circular, com cerca de 1 cm de diâmetro e vibra quando as ondas sonoras passam por ela;

Martelo, bigorna e estribo - Indicam três pequenos ossos, os menores do esqueleto humano; o estribo, por exemplo, pesa menos de 3 mg;

Trompa de Eustáquio - Canal que interliga o ouvido médio e a nasofaringe (parte posterior do nariz). Forçando o ar dos pulmões com a boca e o nariz fechados, sente-se uma pressão no ouvido. O nome do canal deve-se ao anatomista italiano Bartolommeo Eustachio, que o descreveu pela primeira vez no século XVI;

Vestíbulo - É a "antecâmara" do ouvido interno: contém um líquido transparente onde ficam imersos os órgãos do equilíbrio;

Canais semicirculares - São três canais que, partindo do vestíbulos, descrevem um semicírculo e voltam a um ponto próximo ao de onde partiram. Permitem perceber os movimentos da cabeça;

Caracol (cóclea) - É um pequeno canal espiralado, semelhante à carapaça do caramujo. Contem a enfolinfa, um líquido em que ficam imersos numerosos e finíssimos cílios, que são as extremidades das célula nervosas que recebem os sons. Seu conjunto constitui o órgão auditivo propriamente dito (órgão de Corti, em homenagem ao anatomista italiano Alfonso Corti, que primeiro o descreveu, em 1851).

Percurso do som

"Goool!" O longo grito do locutor sai nítido do rádio de pilhas. Como percebemos esse som? A onda sonora produzida pelo alto-falante do rádio percorre o ar a 331,4 m/seg, a velocidade do som. Uma pequena parte da onda alcança o pavilhão, cuja forma facilita a penetração no conduto auditivo. Na extremidade dele, a onda sonora choca-se com o tímpano, que vibra. Essa vibração passa pelos ossículos, que ampliam a intensidade da onda, sem alterar sua freqüência. O estribo faz vibrar a membrana que envolve o líquido do vestíbulo, prolongando a vibração até o interior do caracol. Ali vibram os cílios das células sensoriais, gerando um impulso nervoso que é transmitido ao cérebro. No centro auditivo deste, os impulsos são devidamente interpretados e traduzidos em sensações sonoras.

Centrinho quer triagem na maternidade

Especialistas defendem que a participação direta da família e de professores é essencial no tratamento

A equipe de Audiologia do Hospital de Reabilitação das Anomalias Crânio-Faciais - Centrinho/USP - acaba de encaminhar ao Ministério da Saúde um projeto que propõe a presença de fonoaudiólogos em todas as maternidades do País visando à triagem precoce de portadores de deficiências auditivas. Segundo a coordenadora do Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA), Maria Cecília Bevilacqua, atualmente, os problemas auditivos só são descobertos, em média, quando a criança já tem 1,5 ano. Com a triagem nas maternidades, a identificação poderia ser feita logo no nascimento e o tratamento seria iniciado antes que houvesse uma lacuna no período de aprendizado da linguagem.

"Hoje, só na região da Escandinávia

- Dinamarca, Suécia, Finlândia e Noruega -, onde o serviço de saúde é extremamente bem estruturado,

é que tem o agentes comunitários que visitam a famílias. Com isso eles conseguem fazer o diagnóstico antes do primeiro ano de vida. Mas fora desses pólos, o diagnóstico só é feito quando a criança já tem 1,5 ano."

Ela explicou, que o projeto sugere que esta avaliação em maternidades comece em cidades onde há cursos de graduação em Fonoaudiologia, "porque é o fonoaudiólogo que executa esse tipo de exame. Mais tarde, o programa seria generalizado. Isso mostra a nossa preocupação para que o projeto não seja apenas mais uma lei, mais uma resolução apresentada como uma boa idéia, mas sem um respaldo de funcionamento".

Como identificar

Observar o desenvolvimento da criança é essencial na identificação de deficiências sensoriais. Ainda bem pequeno, um bebê já procura ruídos com os olhos, já se acalma ao ouvir a voz de sua mãe. Por volta dos quatro ou seis meses, a criança já pode virar a cabeça na direção do som. E um pouco mais tarde, já reage ao ouvir seu nome.

No entanto, existem diferentes graus de surdez e uma surdez leve a moderada exige uma observação mais detalhada. Os especialistas explicam que muitas vezes, o que os pais chamam de distração pode ser um indício de deficiência auditiva. É o caso das crianças que a tudo perguntam "Hã?", "O quê?", ou daquelas que exageram no volume da TV. Alguém diminui este volume, mas a criança alega não estar entendendo o que se diz.

A escola é outro ambiente que permite a suspeita de problemas auditivos. Um aluno "desatento" pode não estar conseguindo entender o que o professor fala. Isso complica quando a sala de aula é ruidosa, onde todos falam demais, se movimentam demais. A voz do professor pode ficar misturada ao barulho. Professores, em geral, devem observar: se a criança apresenta dificuldade na pronúncia das palavras, se ela aparenta desânimo, se ela responde aos chamados, se inclina a cabeça na tentativa de ouvir melhor, se usa palavras inadequadas, se não se interessa por atividades em grupo, se é retraída demais, se fala muito alto ou baixo, se pede repetição freqüentemente.

Na maioria dos casos, a suspeita de um distúrbio de audição é levantada por pessoas da família, amigos ou professores. Diante de uma suspeite, deve-se logo fazer um exame, porque esperar pode dificultar o tratamento.

Habilitação e reabilitação contínuas

Desde 1987 o Centrinho recebe pacientes com distúrbios auditivos. E como a filosofia do Hospital é de atendimento global, vários centros foram criados, com diferentes atividades. O Centro de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão (Cedalvi ou CDA) é o setor responsável pelos primeiros testes, diagnóstico e colocação de aparelhos. A criança que recebe o aparelho é encaminhada ao Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau), onde são desenvolvidas várias atividades lúdicas e pedagógicas no intuito de treinar a criança para usar o dispositivo.

Paralelamente ao Cedau, existe a Casa Caracol, uma casa montada tradicionalmente, onde os pais aprendem a aproveitar os momentos do dia-a-dia para incentivar seus filhos a desenvolver a linguagem oral. De acordo com a coordenadora, Salimar Demétrio, ali, terapeutas, pais e alunos cozinham, mostrando ao deficiente o som do liqüidificador, o som de um abrir e fechar de portas, o som da água que sai da torneira na pia, bem como as diferenças entre garfo e colher, prato e pires, entre outros. Na hora do banho, ensina-se a criança o nome das partes do corpo, incentiva-se o pequeno a estar atento aos diferentes sons. Segundo os terapeutas, é desta forma que ele vai entendendo e assimilando a linguagem.

Mas algumas pessoas não se adaptam ao aparelho auditivo. Estas são encaminhadas ao Centro de Pesquisas Audiológicas (CPA), que vai buscar o melhor tratamento. Foi o CPA que trouxe pioneiramente para o Brasil a técnica do implante coclear, excelente alternativa para portadores de deficiência auditiva profunda.

Escola

A coordenadora do Cedau, Maria José Benjamin Buffa, salienta que o Cedau não é uma escola, ao contrário, defende que as crianças estejam matriculadas em escolas regulares, longe das salas especiais. "Hoje o movimento maior é a inclusão da criança com deficiência. Trabalhamos com estratégias terapêuticas com o objetivo de desenvolver a função auditiva, para posterior aquisição da linguagem oral. Elas estão aqui para aprender a falar. Não adiante colocar um aparelho nela e não treiná-la, não habilitá-la para usá-lo."

Ela explica que evidentemente a criança com problemas auditivos tem dificuldade para separar a voz do professor dos demais ruídos em sala de aula. Para amenizar esse problema, o Cedau coloca à disposição dos alunos um aparelho de freqüência modulada, o FM. O aluno usa um aparelho que tem uma pequena antena. O professor ministra a aula falando através de um microfone. O equipamento permite que a voz do professor chegue pura ao deficiente auditivo, tornando mais fácil o entendimento.

"O problema do FM é com alunos maiores. Os pequenos têm apenas um professor. Os maiores têm vários e eles ficam constrangidos de ter que pedir insistentemente para cada um deles usar o FM. Então, muitos desistem e preferem enfrentar a dificuldade de ouvir só com o AAS. Ainda hoje os aparelhos chamam a atenção. Acreditamos que um dia eles serão considerados tão normais quanto os óculos são hoje."