Doenças reemergentes preocupam especialistas e população
Doenças reemergentes
preocupam especialistas
e população
Texto: Andréia Alevato Ascari
As doenças que eram consideradas controladas no País, como a tuberculose, leishmaniose e leptospirose, estão de volta. São chamadas de reemergentes e preocupam especialistas e população.
Segundo a infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital de Base, Cibele Ghedini Antônio, há períodos de controle das doenças e os médicos e hospitais da cidade estão preparados para receber os pacientes e cuidar das doenças reemergentes.
"No caso da Leishmaniose, tanto a mucocutânea como a viceral, em Bauru, o Instituto Lauro de Souza Lima oferece o melhor atendimento. Lá, há tratamento especial para a doença", afirmou a infectologista.
Sobre o Hantavírus, a médica afirmou que é uma doença nova e que talvez os médicos não estejam tão preparados para atender os casos com a doença, mas que a cidade e o profissional podem "dar conta do recado".
"O Hantavírus é uma coisa nova. E, talvez, por isso os médicos não estejam tão preparados para atender os casos, mas a cidade e os profissionais podem 'dar conta do recado'. O que acontece também é uma demora no diagnóstico ou até uma demora por procurar o médico, e quando chega para a gente, mesmo diagnosticando logo, não dá tempo de socorrer", completou a médica.
A infectologista citou ainda epidemias de sarampo. Para ela, a principal causa é a falta de seriedade com a vacinação.
"As pessoas não estão levando a sério a vacinação, por isso há epidemias de sarampo. E sarampo é uma doença grave também. Outra doença que estava controlada e que agora causa epidemia
é a dengue. Há o descontrole da doença por questões sanitárias e falta de higiene. E o único jeito de acabar com a dengue é acabando com o mosquito. E somos nós que precisamos acabar com o mosquito, não deixar que ele se prolifere em água parada no nosso quintal, porque não adianta a Vigilância Sanitária sair caçando mosquito em épocas de epidemia. Ela tem que fazer a parte dela e nós também", disse.
Maria Helena de Abreu, diretora do Departamento de Saúde Coletiva da Secretaria Municipal de Saúde, disse que o necessário para se evitar epidemias de doenças controladas
é que os programas continuem e não parem.
"O necessário é que esse convênio continue existindo. Ele começou em 97, foi renovado este ano e termina em dezembro. Nós não sabemos se ele será renovado. Caso não seja renovado, o município, de uma certa forma, tem que assumir essas ações. Só que sem o repasse de verbas e só com a verba exclusiva do município, a coisa fica complicada. E isso acontece em todos os convênios, seja para o combate de dengue, leishmaniose ou aids", afirmou Maria Helena.
A verba para o programa de combate à dengue, no primeiro ano foi de R$ 980 mil mais 10% disso em contrapartida. Desta vez, o convênio foi renovado em R$ 800 mil e mais 10% disso em contrapartida.
Para combater doenças, como a dengue e a leishmaniose,
é necessário uma ação conjunta entre a população e a Secretaria da Saúde. Nesses dois casos, as doenças são transmitidas por mosquito
(o da dengue se prolifera em água parada e o da leishmaniose em lixo orgânico).
"Para combater essas doenças, como dengue, leishmaniose, leptospirose, cólera e meningite, que precisam de intervenção rápida, tem que haver a notificação dos suspeitos, através do Departamento de Saúde Coletiva que trabalha 24 horas por dia nos 365 dias do ano. A notificação dos suspeitos é importante para que a gente tenha o diagnóstico rápido. E ainda é mais importante que a população tenha consciência do problema. Um dos principais é o lixo, porque as pessoas não o enxergam como problema. Elas jogam o lixo num terreno ao lado da casa, e ali se proliferam ratos, baratas, mosquitos, escorpião, cobra e aranha, e traz doença para suas famílias. Por outro lado, o dono do terreno também não se importa em cuidar do que é seu. Infelizmente, há uma grande falta de educação das pessoas que não esperam o lixeiro. Nós temos a informação da Emdurb que 99% da cidade está coberta pela coleta de lixo. Então, a desculpa não é falta de coleta de lixo e sim, falta de higiene mesmo", explicou Maria Helena.
A diretora do Departamento ressaltou ainda que a tuberculose, a cólera, a leishmaniose, porque eram doenças que já haviam sido banidas no mundo e que por falta de infra-estrutura nas cidades (não há agua tratada, não tem rede de esgoto e de água).
"Isso ocorre geralmente em favelas. Em Bauru, nós fizemos um levantamento sobre as possíveis condições de cólera na cidade e o nosso é um dos melhores. 88% da cidade tem rede de esgoto e o Dae (Departamento de Água e Esgoto) já está planejando colocar a rede nos locais que estão faltando", completou.
Para que doenças que ainda não existem em Bauru, o Departamento de Saúde Coletiva de Bauru está organizado para notificação e tomada de atitudes com relação a todas as doenças. Um esquema de profissionais (médicos, enfermeiros e outros) está de plantão permanentemente para notificar as suspeitas de doenças. Se houver algum caso, o Departamento aciona a Secretaria Estadual de Saúde loca, que aciona a central que aciona o Ministério da Saúde para que passem as orientações adequadas.
O presidente da Associação Paulista de Medicina
(APM), Carlos Alberto Monte Gobbo, disse que é fundamental que haja continuidade nos investimentos, programas específicos de abordagem a curto, médio e longo prazo.
"O mais importantes nos programas de saúde, principalmente nas áreas de doenças infectocontagiosas, são programas que não podem sofrer descontinuidade", disse o presidente da APM.
Para ele, a situação da saúde no país e no Estado é caótica, porque há cortes no orçamento.
"A situação é caótica, porque as doenças reemergentes mostram o abandono dos investimentos na saúde. Há cortes no orçamento. Em Bauru, vivenciamos um atendimento público em crise em todos os níveis. É a cidade que não tem condição de arcar com a municipalização, o Estado que não repassa dinheiro suficiente e a Federação que não repassa dinheiro suficiente. E nenhum desses três assume a responsabilidade, um empurra para o outro. E isso não
é um fato isolado e sim uma situação que está acontecendo no Brasil todo", reclamou o médico.
Sobre o preparo dos novos médicos através das universidades, Gobbo afirmou que "infelizmente, as faculdades não preparam os futuros profissionais para tratarem de novas doenças e das reemergentes".
"São as turmas que estão entrando agora que estão passando por uma reforma de currículo, porque a universidade estava completamente "departamentalizada", como se o aluno passasse por uma galeria de lojas no shopping e visse que aqui é pediatria, aqui é ginecologia, e só depois ele escolhe qual vai se dedicar. Hoje, o aluno, até o 6.º ano, ele tem pinceladas gerais para depois se preparar e se especializar. Não havia, até então, a preocupação de se formar um generalista. Hoje, isso está sendo retomado, porque nos últimos 30 anos, a preocupação era a especialização. Outro problema é a proliferação de faculdades de medicina, que às vezes, não têm nem hospital-escola", finalizou o médico.