04 de março de 2026
Geral

Reflorestamento

Fábio Grellet
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa propõe modelos de reflorestamento

Pesquisa propõe modelos de reflorestamento

Texto: Fábio Grellet

Projeto oferece modelos que podem ser adotados por agricultores porque, além do baixo custo, oferecem rendimentos, advindos da venda de madeira, por exemplo

Se a ecologia continua sendo um tema politicamente correto, a defesa da fauna e da flora ainda cabe a alguns abnegados, que não medem esforços para atingir seus objetivos. A engenheira florestal Vera Lex Engel, que também atua como professora do Departamento de Ciências Florestais da Unesp de Botucatu, desenvolve desde janeiro de 1997 um projeto para reflorestar áreas que eram tomadas pela mata atlântica mas foram devastadas há muito tempo. Em parceria com um instituto norte americano (o Forest Service - International Institute of Tropical Forestry, ou Serviço Florestal dos Estados Unidos), a pesquisadora conseguiu implantar, em três áreas das fazendas experimentais da Unesp em Botucatu (Lajeado e Edgardia), as experiências imaginadas. A mata atlântica já chegou a ocupar 82% do solo do Estado de São Paulo e, hoje em dia, essa quantia foi reduzida a apenas 7%.

Projetos como esse não são novidade: a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) desenvolve há 25 anos um plano semelhante, para reflorestar margens de represas situadas ao lado das usinas hidrelétricas. Também mineradoras e outras empresas obrigadas por lei a investir em reflorestamento estão fazendo sua parte, segundo afirmou a engenheira. A engenheira florestal constatou, porém, que os agricultores (todos eles - pequenos, médios e grandes), por sua vez, não têm adotado formas de conservar ou reconstituir a mata nativa. Encontrando dificuldades de obter financiamentos até para cultivos rentosos, o agricultor não se sente estimulado a adotar projetos de preservação da mata - a qual, numa análise primária, não traz qualquer rendimento, e muitas vezes é encarada como uma área inoperante na propriedade.

Eis aí a inovação do projeto desenvolvido pela engenheira: ela testou quatro modelos de reflorestamento, e cada um oferece certas vantagens ao agricultor. Assim, este pode escolher qual deles melhor se adapta às condições suas e da área que precisa ser reflorestada. Aquela cujo valor investido é recuperado no prazo mais curto permite ao agricultor ganhar o equivalente ao custo em três anos

- sem falar que, em três meses, o investimento começa a ser recuperado. Ao longo dos anos, os ganhos passam a constituir lucro líquido. Mas o melhor investimento corresponde a outro modelo, cujo retorno é mais demorado porém em valores bem maiores.

Um dos modelos corresponde a plantar sementes diretamente no solo. Elimina-se, assim, o transplante das mudas, que é usual, e reduz-se o custo do projeto, já que as sementes são mais baratas que as mudas. Mas a quantia de sementes que germina

é muito menor, se comparada ao plantio em viveiros, já que não se controlam diversos aspectos influentes em seu desenvolvimento. Esse é o modelo mais barato: custa cerca de R$ 650 por hectare.

Outro modelo consiste no plantio de três faixas de árvores, seguida por uma faixa de cinco metros onde há cultivo de algum produto agrícola. Enquanto as árvores não se desenvolvem a ponto de impedir o cultivo agrícola, ele

é mantido. Com o tempo, vai sendo substituído pela mata nativa. As três faixas de árvores são necessárias porque aquelas situadas no centro crescem mais lentamente e precisam ser protegidas por espécies que se desenvolvem mais rapidamente - as quais ocupam, portanto, as laterais. O lucro, neste modelo, advém da comercialização tanto dos produtos agrícolas como da madeira de parte das

árvores que crescem mais rapidamente. Como elas também se regeneram com rapidez, é possível cortar parte delas sem prejuízo ao objetivo final do projeto - qual seja, o reflorestamento.

O terceiro modelo testado é semelhante ao anterior, mas difere ao dispensar o cultivo agrícola. São apenas linhas de árvores, alternando-se espécies de crescimento lento e rápido. O lucro advém da venda da madeira extraída.

O quarto modelo, plenamente ecológico, é o mais caro deles e observa estritamente o aspecto de reflorestamento, sem preocupação com os prazos para que o investimento dê retorno. Mas a pesquisadora alerta que, a longo prazo,

é o modelo mais rentável, já que algumas espécies de árvores produzem madeira muito valorizada e de fácil comercialização.

As mudas utilizadas foram produzidas no viveiro da própria Unesp, em Botucatu.

Para optar pelo modelo a ser adotado, o agricultor deve observar diversos aspectos - como o tipo de solo em que será desenvolvido e a possibilidade de realizar a manutenção constante da área ou deixá-la florescer sem que isso requeira cuidados constantes.

Já foram plantadas 25 mil árvores, calcula a engenheira, que agora tenta organizar uma parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente para que, juntos, ela e a entidade busquem financiamentos para os agricultores eventualmente interessados em implantar qualquer dos projetos. Quem se dispuser a adotá-los imediatamente, porém, já pode se basear nas experiências em curso para escolher o modelo mais adequado e tornar-se efetivamente um defensor da Mata Atlântica. Afinal, mais que um discurso, a defesa da ecologia deve ser feita através de ações.