04 de março de 2026
Geral

Superdotados

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 13 min

Bauru desenvolve projetos para superdotados

Bauru desenvolve projeto para superdotados

Texto: Adriana Rota

Detectar e implantar um programa de atendimento a crianças superdotadas. Essa é a intenção da Diretoria de Ensino de Bauru (antiga Delegacia de Ensino). Partindo do pressuposto de que as peculiaridades têm de ser respeitadas, o projeto deve entrar em prática já a partir do próximo ano, contando com o apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

O trabalho será baseado no "Programa de Atendimento ao Escolar Bem Dotado, Talentoso, Portador de Capacidade Elevada", de autoria da psicóloga Zenita Cunha Guenther, da universidade Federal de Lavras e diretora do Centro para o Desenvolvimento do Potencial e Talento (Cedet), que desde 1992 já selecionou cerca de 400 superdotados nos municípios mineiros de Lavras, Guaxupé, Sabará e Formiga. São alunos da 1.ª a 4.ª série do ensino fundamental, "recrutados" pelos próprios professores, que desenvolvem atividades e projetos revertidos para o benefício das comunidades locais.

Professores e familiares recebem treinamentos e orientação para lidar de forma adequada com as crianças e toda a comunidade

é mobilizada a contribuir, de forma voluntária, através do apelo da mídia, realização de palestras, debates, conferências, grupos de estudo, consultoria direta, dentre outras ações. Reuniões são realizadas periodicamente com o voluntariado, que desenvolve as diversas atividades junto aos superdotados.

De acordo com a assistente técnico pedagógica (ATP) da Diretoria de Ensino de Bauru, Vera Lúcia Capellini, 32 anos, que coordena o projeto, a idéia, pelo menos a princípio, não é criar escolas ou salas especiais, mas planos de enriquecimento curricular e de aceleração, sem tirar os superdotados da escola normal. Os grupos deverão ser divididos por áreas, como Ciência, Artes e Comunicação, de forma a abranger as mais diversas superdotações. Encontros programados das crianças para troca de informações e integração também são desejáveis. Nos Estados Unidos, por exemplo, desde a década de 60 o

"Programa de Sábado" reúne crianças bem dotadas em câmpus de universidades com esse fim, monitorados por alunos da própria entidade que ganham créditos por isso.

Embora crianças dos quatro primeiros anos de vida escolar estejam no que se considera a idade ideal para estimular talentos e promover o desenvolvimento geral, a Diretoria de Ensino pretende estender os trabalhos aos alunos até o ensino médio numa etapa subseqüente.

Outras diferenças

A Diretoria de Ensino já desenvolve trabalhos com crianças e adolescentes "diferentes", ou seja, portadores de deficiência visual, mental, auditiva e física. Além das salas especiais, em algumas escolas existem salas de recursos onde são sanadas eventuais dúvidas da aula normal e desenvolvidas outras atividades por pedagogas habilitadas. A idéia é integrar os alunos que tenham algum tipo de limitação aos demais, não só para facilitar a comunicação mas, também, para criar consciências, afastando os preconceitos. Para quem acha que isso atrasa os demais alunos, Vera dá um recado:

"Eles estão aprendendo para a vida. Além de levar para a sociedade esse sentimento de integração, a diversidade dentro da sala enriquece". Ela salientou, ainda, que apesar de as escolas não poderem recusar a matrícula de nenhum aluno, elas não devem simplesmente incluí-lo, colocá-lo junto aos demais, e sim "oportunizar que eles obtenham todo o conteúdo e o sucesso, mesmo que todos tenham de se adaptar".

Para isso, segundo ela, basta identificar os canais de comprometimento e descobrir qual o canal de comunicação pelo qual a aprendizagem pode ser efetivada. Por exemplo, o cego tem a audição apurada, o que pode ser aproveitado nas aulas com instrumentos musicais. Além disso, outros táticas de ensino bem mais interessantes para todos os alunos podem ser desenvolvidas, criando um clima de cumplicidade entre todos.

Às vezes ocorrem situações em que os próprios pais de deficientes apresentam resistência ao ensino em salas normais, achando que o filho será rotulado negativamente.

"Os pais têm de enfrentar e assumir o quanto antes para que seja possível atingir o sucesso; todos têm chance de competir e crescer. Quanto mais eles negam, mais perdem tempo", alertou a especialista.

Serviço

A Diretoria de Ensino mantém um trabalho de orientação pedagógica aos professores que recebam alunos com deficiências e pode indicar escolas com trabalhos nas diferentes deficiências para crianças a partir dos três anos de idade. O telefone para informações é 238-6977.

País ganha investindo em superdotação

No Brasil, estima-se que existam pelo menos 1,5 milhão de superdotados atualmente. No mundo, eles podem representar 4% da população total. Para que se desenvolvam de modo adequado, tanto pessoal quanto profissionalmente, eles necessitam de atendimento apropriado. Desse modo podem, inclusive, contribuir para o desenvolvimento da comunidade onde vivem.

Países do mundo todo descobriram isso há tempos, e ampliam cada vez mais os investimentos nessa área. Por aqui, apenas alguns esforços isolados têm sido observados. O MEC, através de sua Secretaria de Educação Especial, no entanto, parece estar começando a acenar de modo a ampliar suas ações. Um primeiro passo foi dado com a publicação de "Diretrizes Gerais Para o Atendimento Educacional Aos Alunos Portadores de Altas Habilidades: Superdotação e Talentos".

Essas diretrizes vêm a corroborar com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de número 5.692, de 1971, que no seu artigo nono, garante o atendimento especial a superdotados, deficientes físicos e mentais e com atraso considerável quanto à idade regular de matrícula. O Conselho Federal de Educação, de 1972, por sua vez, determina que "o progresso do estudante deve atender o ritmo próprio de aprendizagem e a diversos interesses e aptidões".

A freqüência é "dispensável ante a evidência de aproveitamento excepcional" e o avanço de séries é permitido, inclusive para ingresso na faculdade, no prazo de até dois anos para apresentação da prova de conclusão do ensino de segundo grau (atual ensino médio), desde que reconhecida a superdotação antes do exame vestibular.

Todas essas informações suscitam a dúvida: quem deve ser considerado superdotado? O termo pode ser aplicado para aqueles que apresentam um desempenho superior nas diversas

áreas de suas atividades. Por esse motivo, podem apresentar problemas de entrosamento com pessoas de mesma idade ou representar uma "ameaça" a professores não preparados, o que resulta em uma relação negativa com a escola. Em virtude disso, o superdotado não é, necessariamente, aquele aluno brilhante como se costuma imaginar. Além disso, os tipos de superdotação são variáveis, podendo ser condicionadas social e culturalmente. Nesse aspecto, a preocupação é ainda maior porque as habilidades têm de ser desenvolvidas ainda durante a infância, preferencialmente, para não resultar em frustrações, insegurança, isolamento, indiferença revolta ou comportamento exibicionista. Famílias sem condições financeiras, portanto, dificilmente conseguem investir nos filhos. Além disso, as cidades carecem de locais apropriados para acompanhamento dessas pessoas altamente habilitadas e talentosas.

Há tempos

O interesse por pessoas com habilidades superiores não

é atual. Há registros de exames competitivos elaborados pelos chineses 2 mil anos antes de Cristo, que selecionavam crianças classificadas como "divinas" e símbolos da prosperidade nacional. Platão, na sua época, pregava o cultivo de tais habilidades em benefício do Estado. Existem, também, histórias como a de um jovem alemão que se tornou doutor em Filosofia pela Universidade de Leipzog, na Alemanha, aos 14 anos. Mozart é a personalidade mais conhecida nesse campo, já que começou a produzir aos 4 anos de idade.

Garota aguarda chance para desenvolver potencialidades

São muitos os relatos de crianças que se destacam na escola e em muitas outras atividades. Mariana Costa Belz, 10 anos, é uma dessas cabeças privilegiadas. Ela possui todos os traços comuns aos donos de altas habilidades.

"Aos dois anos, Mariana já jogava dominó com os irmãos, um deles 16 anos mais velho. Com o baralho, ela associava as letras das cartas aos nomes de pessoas conhecidas. Nessa época já falava tudo perfeitamente. A gente achava que era influência dos irmãos mais velhos", disse a mãe, a porteira Lourdes Belz, 48 anos.

As habilidades da garota foram detectadas nesse período por uma pedagoga do maternal. Aos quatro anos, foi levada ao psicólogo pela primeira vez, porque era madura demais, segundo a mãe, e a família não sabia como lidar com a situação. Aos sete, um teste aplicado por uma psicóloga da Universidade de São Paulo (USP) constatou as habilidades e potencialidades de Mariana. Seu QI variou de 160 a 195, dependendo do quesito.

Os pais a matricularam na mesma escola em que os outros filhos estudaram, achando que seria o melhor. O resultado foi uma seqüência de idas para a diretoria, castigos, que levavam a quadros freqüentes de depressão. Lourdes diz que, ainda hoje, sua filha tem encontrado dificuldades para se adaptar ao método da escola, pouco atraente com as suas atividades habituais. "A professora diz saber que a Mariana sabe, mas teria que provar isso através de notas. Tudo o que vem de forma escrita, ela não desenvolve muito bem. Como seu raciocínio é muito rápido, ela é lenta para escrever, por exemplo" comenta a mãe.

Por falta de condições financeiras, a família não pode colocá-la numa escola que atenda as necessidades dela. "Estamos há um ano em Bauru. Meu marido, que trabalhava na área de Recursos Humanos, ficou desempregado, por isso viemos para cá. Atualmente, vivemos do meu pequeno salário e da ajuda dos parentes". A mãe conta que, em São Paulo, Mariana chegou a estudar numa escola que utilizava a pedagogia Waldorf, que dá muita liberdade e vazão ao lado criativo das crianças. Lá, ela teve um desenvolvimento tranqüilo, pois não havia a obrigação de fazer isso ou aquilo. Da 1.ª série ela passou para a 3.ª série, direto.

"Infelizmente, hoje, não temos meios para dar a escola que ela precisa e merece. Nós não questionamos, não exigimos nada e não forçamos. Não esperamos que ela seja uma doutora, mas que ela seja feliz, não frustrada", desabafa a mãe.

A menina tem grande interesse pelas aulas de Educação Física, Educação Artística e Matemática. Agora, quando o assunto é Português, Ciências, Geografia ou História, a coisa muda de figura. "É muito texto para ler e copiar", reclama. "Mas eu gosto de gibi e livros de histórias". Mariana surpreendeu os pais quando comentou que não sabe porque tem tanta facilidade para aprender "certas coisas". Sua capacidade para decorar, por exemplo, é grande. Muito ativa, a garota acorda às 6h30, 7 horas, mesmo nos finais de semana. A maior parte de seus amigos são crianças pequenas ou mais velhas.

*Colaborou Ana Maria Ferreira

Como se avalia um superdotado?

No início do século, o francês Alfred Binet inventou o teste de Quociente de Inteligência (QI). Ele determina, através de uma escala de valores, que números superiores a 120 revelariam uma inteligência acima da média. Esse teste deu origem a outros, que abordam somente o aspecto verbal, não-verbal ou ambos. É o caso do Wisc, um dos mais utilizados, porque vem sendo aperfeiçoado desde sua criação pelo norte-americano David Weschler, em 1949, com versão para adultos e crianças.

Ele consiste em propor desafios, seja através da montagem de figuras (em quebra-cabeças), arranjo de histórias

(a partir de figuras de situações do cotidiano, com começo, meio e fim), perguntas e respostas de avaliação do vocabulário (o que é? para que serve?) e da compreensão de mundo (autonomia e capacidade para resolver problemas), verificação de como a pessoa estabelece semelhanças entre os objetos

(por exemplo, o que o violão e o piano têm em comum?), potencialidade aritmética (possibilidade de fazer cálculos sem uso de papel e caneta, montagem de figuras geométricas) e teste de execução (deve-se apontar o que falta nas figuras mostradas).

O grau de dificuldade de cada uma dessas etapas é crescente e, geralmente, os subtestes verbais e de execução são alternados para evitar monotonia. Existe um tempo determinado para cada atividade, calculado por cronômetro. Quando aparecem dificuldades, a tendência é a desistência, o que acaba prejudicando os resultados dos subtestes seguintes. Nesse caso, ocorre uma interrupção e uma nova seção

é agendada. Pode-se obter os resultados parciais (verbal e de execução) e o total, relacionando-se os pontos brutos com a escala de avaliação, dividida por idade

(incluindo meses e dias de vida). Convém salientar que testes como o Raven utilizam-se de escalas diferenciadas (nesse caso específico, chamada de percentil), mas que o princípio

é o mesmo do QI.

Apenas esse tipo de teste, no entanto, não é suficiente para avaliar a existência de uma inteligência acima da média. Para a professora de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e supervisora do Centro de Psicologia Aplicada (CPA), Olga M. P. R. Rodrigues, 47 anos, o ideal é que testes diferentes sejam aplicados, que haja um processo de observação e acompanhamento da criança (inclusive das notas) e do ambiente no qual está inserida e entrevistas com a família e professores.

A especialista interpreta a palavra inteligência como uma

"capacidade para entender o mundo", que pode variar de "infra", passando por "normal" e chegando a "super". Para ela, enquanto a inteligência considerada abaixo do normal é facilmente identificada, a superior acaba sendo "abafada", principalmente nas escolas, por professores que se sentem ameaçados ou acham que esse tipo de aluno atrapalha. "Mas se você me perguntar se o aluno superdotado precisa de um professor superdotado, eu vou responder que não. Ele só precisa saber para onde encaminhá-lo de forma que possa desenvolver suas habilidades", explicou. Existem, também, pais que superestimam a capacidade de seus filhos, geralmente quando são únicos, até por não ter parâmetro de comparação com outros e isso causa uma pressão excessiva e prejudicial. Olga alertou, ainda, sobre o perigo de avaliar a pessoa como "burrinha" ou "gênio". "Qualquer rótulo leva a um estigma, que torna-se preconceito".

Ao longo dos anos, estudos demonstraram que o QI é uma função que varia de acordo com o tempo e a quantidade de estimulação, existindo a possibilidade de regressão desses índices. O rendimento escolar também não deve ser visto como único patamar de avaliação. Em 1983, o livro Estruturas da Mente, de Gardner, começou a questionar a tese de inteligência geral, na qual a maior parte desses testes está inserida. Surge, então, a Teoria das Inteligências Múltiplas, que se baseia em inclinações e capacidades numa série de

áreas de conhecimento, independentes entre si. Daí, sairiam sete tipos de inteligências: lingüística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica e duas áreas de compreensão relacionadas à pessoa (interpessoal e intra-pessoal).

A partir desta década, o controle das emoções passou a ser visto como um ponto fundamental na boa utilização da inteligência, qualquer que seja seu grau, especialmente após o lançamento do livro Inteligência Emocional, de Daniel Goleman. Em linhas gerais, ele prega que as potencialidades só são efetivadas quando se consegue aliar plenamente a racionalidade à emoção.

Características que podem identificar um superdotado

curiosidade

persistência

criticidade

senso de humor

facilidade de compreensão

não propensão a aceitar afirmações, respostas ou avaliações superficiais

facilidade em propor idéias

sensibilidade a injustiças

imaginação e fantasia

estabelecimento fácil de relações entre objetos

originalidade na resolução de problemas

talento incomum para artes, música, dança, esporte, dentre outras áreas

ciclo de amizades composto, geralmente, por pessoas mais velhas

capacidade para pronta resposta

flexibilidade de pensamento

fluência de idéias

independência de ação

rapidez perceptiva

liderança

instabilidade reacional e emocional distração

impaciência

hiperatividade

apatia

agressividade

anda e fala mais cedo que a maioria das crianças de mesma faixa etária e sexo

interesse precoce por palavras, leitura e números

vocabulário extenso para a idade

boa memória

capacidade incomum de planejamento e organização

interesse pela criação maior que por atividades monótonas e rotineiras

interesse por várias atividades

capacidade para relatar experiências com riqueza de detalhes

Obs.: reunir essas características não é garantia de superdotação, bem como não é necessário apresentar todas elas para ser qualificado como superdotado

Fonte: http://www.fusoes.com.br/ñickeros/superdotado.html

http://www.ez-poa.com.br/~leal/trab.html