Plano Real interfere em ganhos dos autônomos
Plano Real interfere em ganhos dos autônomos
Texto: Luciano Augusto
Autonomia, pelo dicionário, quer dizer a faculdade de se reger ou se conduzir por si próprio; independência. Entretanto, em tempos de Plano Real, a realidade dos trabalhadores autônomos é um pouco diferente da definição. Para "ter esta independência" sem um ganho fixo no final do mês, o profissional precisa se desdobrar e se aperfeiçoar sempre.
Nivaldo Araújo, 32 anos, já trabalhou, há oito anos, com carteira assinada na função de ajudante geral e também como chefe de segurança no Aeroporto Internacional de Cumbica. Mesmo neste período, continuou trabalhando na profissão que mais gosta: como encanador, eletricista e pedreiro autônomo. Atualmente, ampliou sua atuação para as áreas de dedetização e limpeza de caixas d'água. Para fazer tudo isso, Araújo atende aos clientes 24 horas por dia.
Para continuar prestando estes serviços, Araújo conta que ficava em São Paulo quatro dias por semana e depois vinha para Bauru, onde trabalhava o resto da semana resolvendo, principalmente, problemas de vazamento e entupimento.
Ele afirmou que presta estes serviços há 25 anos e que "a pior época está sendo esta porque tem uma concorrência desleal provocada pelo Plano Real". De acordo com ele, desde que o Real foi implantado "o pessoal não quer gastar e quer o serviço bem feito e com qualidade". Mesmo assim, afirma que não voltaria a trabalhar com carteira assinada.
O autônomo aponta que muitos trabalhadores que perderam seus empregos nos últimos tempos, estão rumando para estes setores, prestando os mais variados serviços.
"Eles vão nas lojas de R$ 1,99 e compram as ferramentas e falam que é encanador e eletricista. Só que eles vão aprender em cima do serviço do cliente", reclama.
O culpado por essa situação, para Araújo,
é o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso.
"Ele é responsável porque inventou o Plano Real, que foi uma estratégia para ganhar a eleição, e ferrou quem trabalha", avalia o prestador de serviço. Diz ainda que o maior problema do País atualmente, o desemprego,
"partiu do senhor Fernando Henrique".
Antes do Plano Real, os ganhos mensais dele chegavam a até R$ 1.500,00. Agora, não passa de R$ 500,00 por mês, gastos basicamente com alimentação para ele e para a esposa. A diminuição no faturamento foi provocada pelo aumento dos preços dos produtos que utiliza no trabalho, como produtos químicos e peças para reposição.
"Esta história de que não tem inflação
é pura ilusão", diz.
Outro fator que prejudicou seu lucro foi a queda no valor do serviço prestado, que está valendo quatro vezes menos do que antes do Plano Real. Por um serviço que ele cobrava cerca de R$ 400,00, hoje não passa de R$ 100,00. Um preço justo, para ele, seria, pelo menos, R$ 180,00. A única coisa que paga é a contribuição previdenciária para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), calculado sobre um salário mínimo.
Por isso, afirma Araújo, teve que passar a comprar tudo
à vista, "porque não dá para ter uma previsão para o final do mês". Quando não tem o dinheiro, ele não compra.
O tecnólogo civil Marcos Carvalho, 38 anos, também reclama da situação atual do País. Há cinco anos ele tinha uma empresa de construção que teve que ser fechada, "porque acabou ficando proibitivo". Os impostos encareceram o custo fixo da empresa e a "situação econômico-financeira do País" inviabilizou a continuidade do negócio.
Agora ele trabalha, com a experiência adquirida, como autônomo administrando a construção, reforma e venda de imóveis.
Mas ele não se considera o único injustiçado pelo Plano Real. "Com relação as dificuldades do País, hoje não está fácil para ninguém", afirma.
Por outro lado, ele diz que trabalhando como autônomo tem mais chance de obter sucesso, porque pode oferecer um custo mais baixo, "que é o que todos têm procurado", e a tendência é melhorar. Os encargos diminuem e os "custos fixos", que interferiram na empresa anteriormente, são derrubados.
A forte concorrência também provoca a queda da margem de lucro.
"Obviamente, o lado bom é que não existe patrão, não tem horário fixo de trabalho. Mas se tivesse um emprego fixo, que eu pudesse ter aquele dinheiro todo mês, não tenho dúvidas que optaria por isso", afirma. Os ganhos, entretanto, teriam que ser, pelo menos, compatíveis com os salários da sua categoria profissional.
O Plano Real, diz, está custando muito caro para os brasileiros toda estas mudanças. Embora as tome como necessárias,
"o remédio é muito forte". Os juros altos e a recessão prejudicam as oportunidades no mercado de trabalho.
Já a realidade da headhunter (assessoria para recolocação profissional) Liliane Scarelli, de 33 anos, é um pouco melhor.
Ela atua há três anos no novíssimo mercado de home-office (escritório montado em casa e o trabalho
é feito via Internet e telefone). No seu trabalho, ela trata da carreira de profissionais que perderam seus empregos ou buscam um novo desafio, canalizando o perfil deste profissional para as empresas, até vincula-los novamente ao mercado de trabalho, tanto no Brasil quanto no Exterior. "Eu trabalho exclusivamente na empregabilidade do profissional, desde a saída do emprego até o retorno dele ao mercado", explica Scarelli.
Trabalhando com uma carteira com 500 talentos, ela diz que a tendência
é de cada vez expandir mais ainda, "porque os profissionais que se deram bem com o trabalho, orientam outros e assim vai sendo formando uma cadeia" e o "escritório" caminha.
O que dá segurança econômica, revela a profissional,
é justamente trabalhar com este grande volume em carteira.
A dica de Scarelli para ter retorno financeiro é primeiro investir no seu próprio trabalho para depois ter retorno e é o que ela tem feito. Segundo ela, seus ganhos mensais já chegaram a R$ 3 mil.
Entretanto, ela lembra que há um investimento contínuo em equipamentos, livros, revistas, cursos, porque "temos que estar antenados em nível global".
Quando iniciou suas atividades nesta área, há três anos, ela confessa que "o mercado era meio restrito". Mas com o treinamento inicial bem feito, com o andamento bem sucessido das primeiras investidas, um constante aprimoramento, parcerias e a ampliação do leque de serviços que oferece, sua atividade caminhou a passos largos. "Trabalho com o nível corporativo, ou seja, em todos os níveis de atuação profissional", complementa.
Antes de se tornar headhunter, trabalhou cerca de 10 anos com carteira assinada nas áreas industrial, de prestação de serviço e no comércio. Voltar ao trabalho assalariado? Não, "mesmo que como autônoma o trabalho seja dobrado, de domingo a domingo e sem horários".