07 de julho de 2026
Geral

SUS

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 4 min

Crise na AHB será discutida hoje em SP

Crise na AHB será discutida hoje em SP

Texto: Josefa Cunha

A suspensão dos atendimentos não emergenciais a pacientes do SUS, determinada anteontem pela Associação Hospitalar de Bauru (AHB), será discutida hoje, em São Paulo, com o coordenador de Saúde do Interior, Luiz Roberto Mussolino. A audiência foi solicitada pelo diretor da DIR-X, Flávio Baddim Marques, e está agendada para o final desta tarde. A secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Telles Nunes, e o presidente da regional Bauru da Associação Paulista de Medicina (APM), Carlos Alberto Monte Gobbo, estarão acompanhando Baddim. O ex-deputado Tuga Angerami (PSDB) também foi convidado, mas não havia confirmado presença até ontem à tarde.

Os principais representantes do setor, embora não responsabilizem o Estado como único culpado pela crise hospitalar, partem em busca de soluções efetivas. Baddim, Nunes e Gobbo dizem compreender as dificuldades da AHB em manter as atividades, mas não concordam com a medida tomada pela entidade. Cada um deles expôs críticas distintas ao corte promovido, mas os três são unânimes quanto à necessidade urgente de soluções que garantam efeitos reais.

Flávio Baddim Marques, ainda que alegando não ter avaliado o problema e seus impactos mais profundamente, não se mostrou convencido da necessidade da suspensão. Ele não entende, por exemplo, como a situação pode ter piorado numa época em que a AHB registra aumento no faturamento. A melhoria financeira, segundo ele, estaria vinculada aos novos serviços de pronto-atendimento da unidade. "Quero saber o que realmente motivou essa situação, porque o problema desta vez não é do SUS. Sinceramente, não esperava que isso fosse acontecer", lamentou.

A secretária municipal da Saúde, por sua vez, criticou a forma como a AHB procedeu a suspensão, "sem comunicar previamente uma decisão tão séria".

"Fomos avisados de última hora e não conseguimos enviar representante para a reunião convocada pela diretoria da AHB. Mesmo que tivéssemos enviado alguém, seríamos voto vencido, porque eles já haviam tomado a decisão. Essa atitude nos pegou de surpresa e impediu adaptações alternativas, o que dá margem para questionamentos. Não queremos interferir na gestão da AHB, mas temos responsabilidades sobre os munícipes que precisam de atendimento", avaliou.

A titular da SMS também destacou que a suspensão pode provocar aumento dos casos emergenciais, na medida em que os pacientes graves - não considerados urgentes - tendem a piorar. "A limitação da AHB não dá brecha para os pacientes graves, mas se estes não receberem tratamento certamente chegarão como emergência. Há outro problema também: se os pacientes do SUS já eram obrigados a aguardar em lista de espera, agora nem com ela terão acesso ao sistema", observou. "Não sei até onde o Estado pode intervir, mas espero que encontremos uma solução através do diálogo", acrescentou.

A postura mais radical quanto ao problema da AHB, entretanto, vem do presidente da APM, Carlos Alberto Monte Gobbo. Em sua opinião, o sistema de saúde local não pode mais continuar sofrendo desgastes com impasses, ameaças e estratégias que visam soluções paliativas e imediatas. "Não adianta ficar criando situações para sacar R$ 400 mil daqui, R$ 300 mil dali. Para que a crise fosse definitivamente resolvida, seria preciso injetar todo o recurso necessário para reabilitar o crédito da entidade. A AHB, por sua vez, teria que mudar sua filosofia administrativa, porque da maneira como está outros problemas não demorariam aparecer", avaliou.

Para Gobbo, o papel dos dois personagens que protagonizam a história tem que mudar. De um lado, o Estado, responsável em grande parte pela crise, tem que oferecer condições de administração à entidade mantenedora; de outro, a AHB tem que mostrar capacidade para gerenciar o serviço.

"A Associação tem que ter uma postura firme e decisiva. Se não está conseguindo administrar, o melhor caminho é entregar as chaves ao Estado. O pessoal que está lá é bem-intencionado, mas está faltando mais coisas além de dinheiro. Eu vejo que a própria AHB não se ajuda e leva a situação em banho-maria. Está mais do que na hora de dar um basta", disparou.

Embora reconheça as dificuldades do sistema de saúde, Gobbo não culpa o Estado pelo impasse que motivou a suspensão dos atendimentos. "A dívida pendente com o INSS foi gerada por falha administrativa e acho que o governo não tem nada a ver com a decisão judicial que reteu parte do repasse de verbas. É claro que o Estado, sendo o proprietário das instalações dos hospitais geridos pela AHB, peca por não oferecer condições, mas a entidade não é obrigada a continuar administrando sem estrutura. A situação atual macula a imagem dos hospitais locais, desgasta os médicos e funcionários e gera desconfiança nos pacientes. Isso é péssimo", concluiu.