07 de julho de 2026
Geral

Morte

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Superar perdas pode evitar doenças

Superar perdas pode evitar doenças

Texto: Rita de Cássia Cornélio

Pesquisas científicas mostram que superar morte de uma pessoa querida pode evitar aparecimento de tumores malignos

Toda perda gera uma crise e exige mudanças. Durante a vida, o ser humano passa por muitas delas, mas a mais devastadoras, a mais dolorida e a mais sofrida é a perda por morte biológica. Pesquisas científicas comprovam que a depressão que sucede à morte altera os sistemas imunológico, nervoso, hormonal e abala o psicológico. Superar a morte de uma pessoa querida pode evitar, inclusive, o aparecimento de tumores malignos.

A cultura ocidental não prepara o indivíduo para enfrentar as perdas, especialmente a morte, que é um tabu na nossa sociedade. A psicóloga Solange Neme Soliva enfatiza que a perda pode trazer ganhos. "O importante é saber lidar com a perda. Há várias maneiras de enfrentar a perda. Podemos lidar de maneira saudável ou traumática. Se optarmos pela saudável, podemos crescer e reformular metas de vida", disse.

Ela lembra que em alguns casos a perda de uma pessoa querida pode significar o nascer de novo da outra. "Toda perda exige mudanças, transformações. Se uma pessoa é totalmente dependente e se vê sozinha, pode reagir e se tornar independente. Assim como, há àquelas que pedem a morte na esperança de se livrarem da dor, ou de reencontrar a pessoa que morreu, dependendo da crença", explicou.

A perda, em qualquer fase da vida, é uma crise difícil de ser superada. Mas na velhice ela ganha uma dimensão ainda maior, até porque costuma-se dizer que é uma

época de perdas. "Obviamente que na velhice a gente perde os amigos, os parentes, etc. O que eu quero enfatizar é que na velhice não ocorrem só perdas, também há ganhos", disse a psicóloga.

De acordo com Solange Soliva, a perda para o idoso é um assunto que vem sendo muito discutido. "No Ano Internacional do Idoso (este ano), os cientistas, estudiosos e profissionais voltaram sua atenções para a saúde do idoso. Como a perda pode significar o aparecimento de doenças ou mesmo a morte para uma população crescente, o assunto está sendo muito discutido", explicou.

A psicóloga ressalta que durante o Simpósio Internacional

"O idoso e a Família", realizado no mês passado, a perda foi amplamente discutida. "Um dos temas de palestra foi esse. Notamos a preocupação dos profissionais quanto ao que a perda pode significar para o idoso", ressaltou.

Na opinião dela, o idoso do sexo feminino consegue superar mais facilmente a perda do companheiro. "Estamos generalizando, mas a mulher tem mais facilidade porque procura auxílio. Observamos, através de pesquisas que a mulher busca apoio e acabam enfrentando melhor a situação", contou.

Doenças

O luto é uma preocupação contemporânea e tão importante que a Pontífice Universidade Católica de São Paulo tem um laboratório para atender pessoas que estão enfrentando a situação, ressalta a psicóloga. "Quando morre alguém na família, ela toda tem que se reorganizar", disse a psicóloga.

Existem muitas doenças graves relacionadas com a perda.

"Várias pesquisas mostram que o estresse gerado pela perda, tanto por morte como por outras perdas significativas, pode provocar o aparecimento de tumores malignos, como o câncer, especialmente em mães que perderam filhos.

O efeito do estresse, segundo Solange Soliva, não são imediatos. "Observamos que parte dos portadores de câncer passaram por uma perda significativa anos antes do aparecimento do tumor", disse. Outras doenças, como a artrite rematóide, doenças auto-imunes, do sistema nervoso e outras podem surgir quando a perda não é superada.

No caso dos idosos, de acordo com a psicóloga, o estado depressivo provocado pela perda pode antecipar a morte do viúvo.

"A falta de expectativa no futuro aumenta ainda mais o estado depressivo. É comum as pessoas falarem "não dou um mês para esse viúvo morrer". Isso porque, muitos deles, desejam a morte porque a vida perdeu o sentido para ele", disse.

Luto pode durar a vida inteira

O luto pela morte de uma pessoa querida pode durar uma vida inteira.

"Podemos dividir o luto em dois: o normal e o patológico. O normal, segundo pesquisas, é aquele que dura no máximo dois anos. Tem início após a morte e o sofrimento e dor vão diminuindo com o passar do tempo. Ao mesmo tempo, a pessoa que ficou vai reestruturando sua vida para, no final do período, ter superado a crise", explica a psicóloga Solange Soliva.

O luto patológico é aquele em que a pessoa não consegue superar a morte da pessoa amada. Tem início após dois anos da morte. "A pessoa não consegue superar a crise. Entra em um processo defensivo patológico. Nega a perda. Costuma conservar objetos para manter a presença do morto através de coisas, situações. Há casos de viúvas que costumam colocar o prato na mesa para ter a impressão de que seu companheiro vai se alimentar", explicou.

O luto patológico pode durar a vida inteira. "Para essa pessoa, o tempo cronológico não conta. Vale o tempo existencial. Quando ela fala da pessoa que morreu, a gente tem a impressão de que a morte aconteceu ontem e já faz mais de 10 anos", explicou a psicóloga. A pessoa que não supera a crise desencadeada pela morte de um ente querido, precisa de tratamento, se não ela pode desenvolver vários tipos de doenças", disse.

Todas as perdas de menor intensidade fazem parte da vida. "Durante toda o nosso desenvolvimento perdemos e ganhamos. É preciso assinalar que cada perda tem um ganho, depende de como ela é resolvida", explica a psicóloga Solange Soliva.

Ela ressalta que durante seu o desenvolvimento a pessoa sofre várias perdas significativas. "Perdemos a infância, a adolescência. Há mulheres que consideram a menopausa uma perda, porque ela perde a capacidade de gerar filhos. A perda do emprego, do status, do namorado, da situação financeira, etc. Todas podem afetar o indivíduo", disse.

Os pais são modelos e ponto de referência para uma criança. Perder o ponto de referência, na infância, pode significar problemas no desenvolvimento desse indivíduo. A psicóloga Angélica Christino explica que os pais influenciam a criança em todo o desenvolvimento de sua personalidade. "A perda de um de seus modelos de forma inesperada pode causar problemas, mesmo que haja substituição dessas figuras. Não são modelos originais, nunca vai ser a mesma coisa", detalhou.

A psicóloga lembra que vários sintomas podem alertar os responsáveis de que a criança não encarou bem a morte de uma pessoa querida. "Depende da idade. Uma criança em idade escolar pode apresentar problemas nessa

área. Dentro de casa, a criança pode se tornar agressiva, retraída. Esses sintomas demonstram que a criança está com dificuldade para lidar com isso. É o momento da intervenção", disse.

Na opinião dela, o tema é polêmico. "Na nossa sociedade não se lida com a morte de uma maneira natural. Natural no sentido de que ela é mais uma etapa do desenvolvimento do ser humano. Ninguém se prepara para a morte antes que ela chegue", lembrou.

Quando a morte chega através de uma doença prolongada, as pessoas se preparam mais. "A morte anunciada é mais fácil de ser encarada pela família. A inesperada não tem como. Para que isso mudasse, seria preciso que a sociedade se conscientizasse de que a morte faz parte da vida", disse.

Como conscientizar a sociedade é que é o problema, segundo os especialistas. "Como fazer isso é que é o problema. É um assunto tão polêmico como a educação sexual nas escolas. Tem livros infantis que abordam o tema. Mostrando a morte dos mais velhos, mas não sobre morte repentinas. É preciso ter muito cuidado em abordar a morte com crianças, para não gerar mais problemas", explica a psicóloga.

10 anos depois

Dez anos se passaram do dia em que o casal Ana e Mário Parolin perderam o filho mais velho em um acidente automobilístico. Embora já tenham superado a crise causada pela morte, eles ainda se recordam com saudade dos momentos bons que passaram juntos.

"Lembro dele todos os dias, com alegria. Mas, há dias em que a gente chora de saudade", contou a mãe.

Para a mãe, o pior da morte inesperada foi o dia seguinte.

"O susto é grande e só no dia seguinte é que a gente dá conta do que aconteceu. Achava que era um sonho e que ia acordar e nada daquilo tinha acontecido. Porém, no dia seguinte você percebe que é real", disse.

A fé em Deus e a certeza de que o filho já tinha cumprido seu papel na terra deram forças para o casal superar a crise. "Não cheguei a ficar em depressão. Nos primeiros meses, íamos sempre ao cemitério e lá ficava chorando e rezando. Depois, entendi que não adiantava nada. Todo mundo vai morrer é a única certeza", afirmou.

A mãe diz que superar a morte do filho é mais difícil porque na nossa cultura acredita-se que os velhos irão morrer primeiro. "Eu achava que ia morrer antes de todo mundo e não iria passar por essa dor. Quando o Marcos morreu, eu entendi que as coisas não eram assim".

Na opinião dela, a oração do Pai-Nosso e a companhia de parentes e amigos ajudaram muito. "É melhor e muito importante a presença de pessoas. A gente tem que falar sobre a pessoa que morreu, desabafar para não ficar deprimida. Nas horas mais difíceis eu rezava o Pai-Nosso", relembra.

Dicas para se livrar do luto patológico

* Não fugir do enterro e de todos os rituais que o envolve

* Chore bastante no dia e nos dias posteriores

*Não conserve por muito tempo os pertences da pessoa

* Guarde algumas lembranças, se quiser

* Procure apoio nos amigos, parentes e em todas as pessoas com quem mantém vínculos afetivos

* procure se distrair

* uma viagem pode ajudar a superar a crise