14 de março de 2026
Geral

MST

Redação
| Tempo de leitura: 4 min

Sem-terra causam medo e prefeito de Anhembi temo colápso

Sem-terra causam medo e prefeito de Anhembi teme colápso

Anhembi - Moradores da pequena Anhembi, com 3,5 mil habitantes, na região de Botucatu, estão assustados e preocupados com o acampamento de 1,2 mil famílias de sem-terra na área urbana da cidade. O prefeito Geraldo Conceição Cunha

(PSDB) teme um colápso e pede providênciass ao Estado.

O Movimento dos trabalhadores Sem-Terra (MST), por sua vez, que concluiu na manhã de ontem a transferência das famílias para a área urbana de Anhembi, apresentou ao prefeito Cunha a proposta de participar da tomada de decisões que envolvam o grupo na cidade.

O coordenador estadual do movimento e líder do acampamento

"Nova Canudos", João Paulo Rodrigues, pediu uma reunião com as autoridades e entidades locais. "Queremos esclarecer por que estamos aqui e saber de que forma podemos contribuir para resolver os problemas que surgirão com a chegada do nosso pessoal", disse.

As lideranças querem discutir tudo o que envolva o destino dos sem-terra. Rodrigues esteve com o prefeito e obteve autorização para uso dos vestiários do estádio local pelas famílias. O prefeito foi convidado a participar da reunião que os líderes terão, quarta-feira, com a presidente do Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), Tânia Andrade.

O MST quer que o Itesp aponte áreas devolutas existentes na região e que poderão servir para o assentamento das famílias. "Acho que o prefeito também está interessado em que o grupo vá para um assentamento o mais rápido possível", disse Rodrigues.

Segundo ele, a permanência na área urbana não

é o objetivo dos sem-terra. "Mas, enquanto ficarmos, esperamos apoio e colaboração." O líder sugeriu que pode usar politicamente o grupo para atingir seus objetivos. "São quase mil votos, o suficiente para a gente eleger um prefeito aqui, mas esse não é o nosso objetivo."

O prefeito confirmou o contato com o líder do MST, mas lembrou que a cidade tem pouco a oferecer. "Nossos recursos são limitadíssimos e mal dão para atender

à população daqui." Ele acha que o Governo do Estado deve tomar a frente das negociações com os sem-terra. "Vou pedir isso ao governador Mário Covas, segunda-feira."

A audiência será realizada à tarde no Palácio dos Bandeirantes. O prefeito pretende reunir-se também com sua assessoria jurídica para decidir se decreta estado de emergência na cidade. "De uma hora para outra, a população urbana aumentou mais de 30% e pode haver um colapso na saúde e no saneamento", disse.

Invasão urbana

As 1,2 mil famílias de sem-terra foram despejadas da Fazenda Boa Esperança na última quinta-feira, recusaram uma área oferecida para assentamento provisório e decidiram acampar anteontem na área urbana de Anhembi. As barracas foram erguidas ao lado do estádio de futebol, próximo da margem do rio Tietê. A cidade, de 3,5 mil habitantes, recebeu os sem-terra com curiosidade e medo. Parte do comércio fechou as portas com receio de saques. O grupo tinha deixado a Fazenda Boa Esperança, a dez quilômetros da cidade, na manhã de quinta-feira, após acordo com a Polícia Militar. A PM levara 286 soldados para o despejo, cumprindo ordem judicial, mas não chegou a entrar em ação. Liderados por Rodrigues, os sem-terra saíram em marcha e, 300 metros adiante, invadiram a Fazenda Ribeirão dos Pires, derrubando a cerca e ateando fogo no pasto. O proprietário, Alfredo David, conseguiu uma liminar na Justiça de Piracicaba. Diante da possibilidade de novo despejo, as lideranças aceitaram transferir as famílias para uma área de 300 hectares, penhorada pelo Banco do Brasil.

O transporte foi providenciado pelo dono da Boa Esperança, Osvaldo Calcidoni. Segundo Rodrigues, ao chegar no local, os líderes verificaram que a fazenda estava dividida em lotes e tinha casas.

"Não havia condição de ficar por lá", disse.

À noite, quando o aparato policial já se desfizera, as famílias foram levadas de volta à Fazenda Boa Esperança. Temendo nova invasão, o proprietário retirou sua família da propriedade e pediu ajuda à PM, mas Rodrigues informou que usaria o local apenas para passar a noite.

A chegada dos sem-terra agitou Anhembi. Enquanto curiosos acompanhavam a montagem dos barracos, o prefeito Geraldo Conceição Cunha tratava de agendar uma audiência com o governador Mário Covas. "A cidade não tem como atender a tanta gente.

Rodrigues admitiu que os sem-terra podem representar um transtorno.

"Muita gente aqui saiu da rua e de favelas, mas faremos o possível para evitar o alcoolismo e a mendicância."

O líder João Paulo Rodrigues não considera o grupo radical ou violento. "A maioria veio das favelas e muitos já apanharam da polícia, por isso a reação

é diferente da de grupos formados só por agricultores.