Leitores polemizam reencarnação
Leitores polemizam reencarnação
Texto: Adriana Rota
"Espero não encontrar judeus, nem pagãos, nem católicos, nem protestantes, alemães, ingleses ou franceses quando atravessar a barreira para o outro lado. Espero encontrar apenas almas irmãs, sem distinção de credo, raça ou cor. Quero, então, ter terminado o luto contra a intolerância, a fim de poder descansar em paz por toda a eternidade" (Napoleon Hill)
"Não estou de acordo com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizeres" (Voltaire)
O assunto reencarnação está em alta. Pelo menos é o que indica as inúmeras cartas enviadas e publicadas na Tribuna do Leitor do JC, que têm gerado um dos maiores debates dos últimos tempos depois da euforia causada pela instabilidade política da era Antônio Izzo Filho. O ponto de partida foi um artigo intitulado "Reencarnação e Casamento", escrito por Richard Simonetti e publicado na Coluna Espírita no dia 13 de junho. Daí, seguiram-se mais dois artigos e pelo menos 14 cartas de espíritas, evangélicos e católicos, que por vezes entraram mais no campo da intolerância do que da reencarnação propriamente dita.
Richard Simonetti, 63 anos, presidente do Centro Espírita Amor e Caridade e autor de 25 livros na área, disse ser espírita de berço. Ele escreve há muitos anos para o jornal e já imaginava que o assunto geraria alguma repercussão, não tão grande, entretanto. De qualquer maneira, o autor do artigo que gerou tanta polêmica acredita que a mídia continua sendo o palco ideal para a divulgação e troca de idéias. "Devo louvar aqueles que dirigiram suas cartas para a Tribuna pelo nível da discussão. Embora algumas pessoas tenham defendido seu ponto de vista enfaticamente, em linhas gerais não houve agressão, talvez com algumas pequenas exceções", elogiou.
Questionado sobre o que pode ocorrer com aqueles que não aderem à tese da reencarnação, Richard é enfático. "Para quem admite a idéia de que vai dormir até um suposto juízo final, só posso adiantar que terá uma grande surpresa quando for para o Além. O Espiritismo não especula a respeito da vida além-túmulo. É uma doutrina baseada nas informações colhidas no próprio plano espiritual através de indivíduos dotados de sensibilidade psíquica, os médiuns", explicou.
No seu entendimento, a reencarnação faz parte de um processo de evolução "muito mais compatível com a Justiça", e não foi uma "invenção do Espiritismo", já que existe há dez mil anos.
"Os hindus já defendiam a reencarnação", salientou. Quanto a possíveis represálias de Deus contra os que não crêem na ressurreição, ele afirma que não existe castigo. "Deus é pai e nenhum pai quer a perdição eterna de seu filho. Ele é amor e misericórdia e dá diversas possibilidades de reabilitação para aqueles que se transviaram. Na medida em que você infringe a lei divina, claro que vai ter de responder por isso, mas não depende de Deus fazer sua vingança pessoal. Sendo amor, ele perdoa sempre. Compreende perfeitamente que nossas fraquezas e erros são decorrentes de nossas limitações morais e que temos de ter um tempo para crescer espiritualmente. Todos nós estamos destinados
à perfeição e vamos chegar lá através de múltiplas existências, colhendo em cada uma as conseqüências do que fizemos na anterior e amadurecendo até atingirmos um estágio que nos possibilite viver em planos mais altos. É uma lei divina, um processo de evolução para o espírito", disse.
De acordo com Simonetti, a Igreja Católica contava com correntes reencarnacionistas até que num concílio realizado em Constantinopla, no ano de 556, o grupo que defendia a ressureição prevaleceu, suprimindo definitivamente a idéia de reencarnação. "Um erro teológico substituiu a idéia da reencarnação pela ressurreição. Eu não sei como padres e teólogos podem aceitar que vão dormir até um suposto juízo final e reintegrar-se ao seu corpo, de carne, para serem julgados e terem suas sortes definitivamente seladas. É uma idéia infantil, medieval, que infelizmente está fixada como dogma na Igreja" , afirmou Simonetti.
Católicos não aceitam reencarnação
O bispo de Bauru, dom Aloysio Leal Penna, 66 anos, afirmou desconhecer a história citada por Simonetti. "Existem religiões orientais que acreditam há muito tempo na reencarnação, mas a Igreja Católica, nunca. Nada consta nos Evangelhos", lembrou. O bispo de Bauru disse que a Igreja não aceita a idéia, mas respeita e crê que Deus saberá interpretar as ações de cada um e julgar com sabedoria.
"Deve-se seguir o que acredita, mas procurando aprofundamento para ser coerente com aquilo que diz acreditar. A Igreja sabe, por exemplo, que há muito católico que se diz católico, mas assume posicionamentos de outras religiões. Existe muita falta de formação, e é ela que tem de ser buscada", orientou.
O monsenhor Almir José Cogiola, 67 anos, pároco da Igreja de Snta Rita, é ainda mais enfático: "A Igreja não admite reencarnação. Se a aceitarmos, estaremos negando a onipotência de Deus. Não somos como fôrmas, nas quais se pode colocar a alma do jeito que quiser. Deus não nos fez iguaizinhos. O escultor, por exemplo, nunca faz uma peça igual à outra. Em cada uma é projetada toda a beleza daquele que a está esculpindo". Mesmo assim, considera que "quem não está no caminho certo também poderá ter salvação", mediante a misericórdia divina.
O pastor Edson Valentin, 40 anos, presidente do Conselho de Pastores, compartilha dessa opinião. Ele acha que o homem, em algum momento de sua vida, tem a oportunidade de voltar-se para Deus, confessando seus pecados, arrependendo-se e aceitando Jesus. Mesmo aqueles que possuem algum tipo de deficiência, na sua opinião, serão analisados por Deus de acordo com seu grau de entendimento. No entanto, o homem tem liberdade para fazer opções.
"Aqueles que não crêem, que não têm compromisso de vida com Jesus, estão condenados à separação eterna de Deus. Satanás ainda não está no inferno. No final é que vai receber a condenação e com ele estarão todos aqueles que não quiseram aceitar e seguiram outros caminhos", alertou. "A Bíblia diz que ao homem está ordenado morrer uma só vez. Na ressurreição, a pessoa revive tornando-se uma pessoa nova e transformada não neste mundo, mas na Eternidade. A reencarnação seria composta por múltiplas encarnações com outros corpos, outras personalidades. Deus colocou em cada um a consciência a respeito do próprio Deus, o que fazer dela é responsabilidade individual".
Com relação ao debate travado através da Tribuna do Leitor, o pastor considera que o melhor método seria fazê-lo pessoalmente. "Se é para tornar público, que seja uma oportunidade para que as partes coloquem suas opiniões, por mais divergentes que sejam, assumindo posições sem ataques, brigas, discussões". Para ele, as discussões acabaram saindo um pouco do foco inicial, já que alguns teriam interpretado os posicionamentos contrários como ataques pessoais. "Se vai debater uma idéia, tem de ficar nesse nível. Agora, se o caso for buscar a verdade, fatalmente um dos lados será excluído. Isso porque Cristianismo e Espiritismo são inconciliáveis", ponderou. O pastor colocou, ainda, que no assunto reencarnação católicos e evangélicos têm posicionamentos parecidos, apesar da "nuance espírita" observada na Igreja Católica. "Por exemplo, o capítulo 18 do Deuteronômio, condena a conversa com pessoas que já morreram, coisa que o Catolicismo admite (santos)".
Quanto às constantes citações de trechos bíblicos de todas as partes envolvidas no debate, o pastor avalia que o "grande problema é pegar texto fora de contexto". "Você pode pegar um texto bíblico e dar base a qualquer heresia que quiser. Ele nunca pode ser pego isoladamente, e sim como um todo, sob pena de fazer parecer até que um contradiz o outro. Então, o grande problema desses debates sem muita fundamentação é que a falta de conhecimento bíblico leva a seu uso aleatório", opinou.
O relações públicas da Igreja Budista de Bauru, Massaru Ogino, 63 anos, preferiu não se aprofundar sobre o assunto sob pena de acirrar ainda mais a polêmica.
"Posso dizer que acredito na reencarnação que, no budismo, está baseada na lei do carma. Mas acho que aprofundar o assunto seria inútil, porque cada um tem sua opinião. É como dizem: futebol, política e religião não se discute. Melhor cada um seguir aquilo que acredita, já que todas as religiões têm um denominador comum, que é a relação do ser humano com Deus. Apenas a maneira de seguir é diferente. No fim, chegaremos todos no mesmo lugar. É como uma gincana...", concluiu, com bom-humor.
Cronologia do debate
13 de junho - Richard Simonetti publica seu artigo na Coluna Espírita, tratando sobre a participação dos mentores espirituais no planejamento do casamento, convivência, formaçào da família, separação, dentre outros.
24 de junho - Começam as cartas para a Tribuna. Luiz E. Marciano cita trechos bíblicos para embasar sua tese de que reencarnação não existe. "Deus ama o pecador mas detesta o pecado e todos que contrariam a Sua palavra serão condenados", alertou.
26 de junho - Adilson M. Franco parabeniza Marciano, afirmando que o texto foi esclarecedor, "inspirado pelo próprio Espírito Santo", ajudando a "não confundir, como muitos vêm fazendo só para tirar proveitos".
1 de julho - Antonio O. de Oliveira, "livre pensador, sem religião fixa", que procura "examinar e reter o que é bom", demonstrou pensar que as diferenças podem ser compreendidas desde que se admita a presença de Deus. E concluiu: "...o senhor Richard não confunde, e sim, esclarece".
3 de julho - Jorge A. Terca afirmou não querer julgar ninguém, mas que tanto Simonetti quanto Oliveira estão equivocados de acordo com a Bíblia, citando algumas passagens.
"Mas o sangue de Jesus nos purifica de todo o pecado", amenizou.
6 de julho - José C. F. de Abreu ("O Intrépido", como se auto-denominou) considerou "superficial" a explicação anterior. "O que está na Bíblia é uma coisa, o que cada um de nós interpreta é uma outra história". Ele questiona sobre a sorte das gerações que viveram antes de Cristo, que não o conheceram, que nunca ouviram falar ou professaram o Cristianismo.
7 de julho - Iracema D. Coelho considera a reencarnação não só como uma questão religiosa, mas também filosófica e científica. "Se todos somos iguais perante Ele, como explicar a idiotia, o aleijão, a miséria...? As evidências conduzem a reencarnação como
único modelo capaz de explicar as idéias inatas, a genialidade, as marcas de nascença...". Para ela,
"contra os fatos não há argumentos".
9 de julho - Francisco A. Lira classificou como "bonito" o debate, com suas contradições e pontos de vista propiciando o questionamento. Adepto da idéia do reencarne, salientou: "Deus é um só. Os caminhos que levam a Ele é que são variados e nós temos o livre arbítrio para 'decidir', de acordo com a crença de cada um".
16 de julho - José Quaglio escreveu que na própria Bíblia poderiam ser encontrados "fatos irrefutáveis da sobrevivência da alma", dentre outros, "não fossem a ignorância desmedida, a má-fé e, acima de tudo, a escravidão do homem às suas organizações, aos seus movimentos e suas idéias preconcebidas".
19 de julho - Ulysses V. Christianini, disse não ser "dono da verdade", mas defendeu veementemente que reencarnação não existe, "segundo nos ensina a única e verdadeira igreja de Cristo, a Católica Apostólica Romana". Afirmou que a alma, ao separar-se do corpo, "irá receber sua recompensa que deverá ser a glória eterna na presença de Deus", no caso dos "justos".
20 de julho - Odair Machado, com o título "Os intolerantes", destacou um texto publicado em 76 pelas Edições Paulinas, escrito por Luiz H. da Silva, onde consta que, por vezes, o ateu mostra-se muito mais cristão através de seu comportamento do que aqueles que se proclamam cristãos, mas demonstram intolerância quanto à crença dos demais.
22 de julho - Edson de S. Lima proclamou que Machado "equivocou-se, tentando dar uma lição de moral", já que, em momento algum, as cartas apresentaram ofensas religiosas. Lima ressaltou que "é na polêmica que nasce a dialética", permitindo chegar a uma "nova verdade" ou permanecer com a própria. Ele disparou: "Talvez o mundo esteja como está porque a maioria não tem coragem de colocar sua opinião por medo ou ignorância".
25 de julho - Novo artigo de Simonetti sobre reencarnação, destacando a importância de não descartar o conhecimento científico, que historicamente estaria "transcendendo as acanhadas concepções teológicas".
Na página seguinte, Júlio C. Prado classificou reencarnação e vidas passadas como "fraude", "fenômeno psicológico", "ignorância, superstição ou pseudociência" e "parte da estratégia do diabo". E finalizou: "Devemos manter a mente aberta, mas nem tanto a ponto de o cérebro cair para fora".
Na Tribuna do Leitor, Zélio Póvoa iniciou afirmando que não é "dado a polêmicas", especialmente se o assunto for religião, "por compreender que nem todas as pessoas estão no mesmo grau de evolução e conhecimento espirituais". Avisou que não escreveu para debater, mas para aconselhar que as obras baseadas na Doutrina Espírita sejam estudadas antes de emitidas as opiniões.
"Saiam do 'me engana que eu gosto'", pede aos que relutam em aceitar a reencarnação. Ainda nessa página, Odair Machado exalta o ecumenismo e rebate, indiretamente, as críticas recebidas por sua carta do dia 20.
26 de julho - Danton Gamba questiona: "No dia do Juízo Final, quando será separado o joio do trigo, quantos por cento de nós seremos joio e quantos seremos trigo?". Para ele, "cada cabeça é uma sentença e cada um vê e sente Deus, Jesus, os anjos e os santos de uma forma".