07 de julho de 2026
Geral

Praças

Érika de Lima
| Tempo de leitura: 13 min

Praças de Bauru viram feitas

Praças de Bauru viram feiras

Texto: Érika de Lima

As praças, que há alguns anos eram locais de descanso ou diversão, tornaram-se verdadeiros "centros" comerciais que reúnem vendedores ambulantes de alimentos, artesanato e produtos industrializados. Algumas praças de Bauru assemelham-se a feiras. Na semana passada, a equipe de reportagem encontrou 20 ambulantes espalhados pela praça que já abrigou muitos pássaros, peixes e até jacaré!

A ocupação das praças pelos ambulantes tem uma explicação triste. Sem emprego, a população tem que se "virar" para não passar fome. Vender produtos nas ruas e praças, portanto sem despesa, é a alternativa mais fácil e aparentemente mais lucrativa para muitos desempregados.

As praças são "disputadas" pelos vendedores ambulantes porque, geralmente, concentram um grande número de pessoas e, portanto, a clientela em potencial é maior.

No entanto, os ambulantes que trabalham nas praças, assim como nas demais vias públicas de Bauru, estão sujeitos a ter que procurar outro lugar. A Prefeitura está elaborando um projeto de regulamentação da categoria, que poderá ter que sair das vias públicas. Enquanto isso, eles ocupam a Praça da Paz, a Praça Rui Barbosa, a Praça Portugal e muitas outras para defender o "pão nosso de cada dia"

Praças: de churrasquinho a quadros

Com a taxa de desemprego aumentando, naturalmente há mais desempregados em Bauru. Para tentar remediar a situação, algumas pessoas têm optado por trabalhar como autônomos em locais de movimento, quase sempre em praças públicas

Locais antes sinônimo de descanso e tranqüilidade transformaram-se em locais de compra e venda, em geral de guloseimas e artesanato. As praças reúnem trabalhadores autônomos que, motivados por dificuldades financeiras, procuram meios de trabalho alternativos para ganharem a vida. Móveis, chopeiras, churrasqueiras, bijuterias, plantas ornamentais, capas para estofamentos e até quadros, além de uma grande variedade de alimentos, são vendidos nas praças de Bauru.

A maioria dos vendedores trabalha para sustentar a família e a opção pelas praças deve-se à grande movimentação nesses locais, inclusive nos finais de semana.

A escolha desse novo "emprego" ocorre por vários motivos, dentre eles as demissões coletivas, a dificuldade de recolocação no mercado para quem tem mais de 45 anos e também a necessidade de complementar a aposentadoria que alguns já recebem.

Mas o trabalho desses vendedores não é fácil, como muitos julgam. Mesmo em dias chuvosos precisam estar de prontidão no seu ponto. Leonice Maria Goes, 49 anos, lancheira, conta que, quando chove, tem que estender um plástico sobre o carrinho para não molhar os lanches e continuar trabalhando.

Normalmente, os ambulantes das praças trabalham no horário comercial, mas há aqueles que fazem hora extra e também os que começam a trabalham das 17 horas até a madrugada. Quem passa pela Praça da Paz à noite, por exemplo, pode observar o grande número de barracas lá instaladas e de mesas espalhadas pela via pública.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE), a taxa de desemprego no Brasil cresceu para 7,84% em junho, sendo que no mês anterior foi de 7,7%. Vitor Wayne Marques Silva, 44 anos, é um desses desempregados. Ele revende capas de estofamento na Praça do Líbano, nos finais de semana. Durante a semana, ele vende o produto na região.

O lancheiro Rogério Henrique Celestino, 29 anos, trabalha na Praça da Paz com sua esposa, Andréa Aparecida Turrine, 29 anos. A renda é para pagar o aluguel e as demais contas do casal, que está tendo que reforçar o orçamento para receber o bebê que está para chegar.

Outra atividade muito comum nas praças é a venda de churrasquinho. José Amaro Cardoso, 48 anos, o Alemão,

é churrasqueiro na Praça Rui Barbosa há oito anos e também trabalha para garantir o "arroz e o feijão" dos filhos: "Esse é meu único ganha-pão. Se tivesse um emprego com carteira assinada, não estaria trabalhando aqui", reflete.

Ante esse quadro, a Prefeitura, através de várias secretarias, está elaborando um projeto para regulamentar a situação dos ambulantes. Ainda não existe nenhuma legislação municipal regularizando essa atividade comercial na cidade.

Tânia Kamura Maceri, que responde pela Secretaria de Planejamento

(Seplan), diz que o projeto está sendo elaborado para possibilitar maior controle do trabalho dos ambulantes. "Estamos em fase de finalização do projeto, que poderá ser apresentado ao prefeito em agosto", informa Tânia.

O processo de regularização parece não intimidar os ambulantes, já que trabalhar é uma questão de sobrevivência. Pedro Augusto, 22 anos, natural de Londrina

(PR), vende churrasqueiras, chopeiras e cabides e quando se instalou na Praça Portugal não teve muita sorte. Em menos de uma semana recebeu notificação da Prefeitura para sair da área.

Augusto só faz uma indagação: "Se eu parar de vender, vão me dar serviço? É com esse trabalho que sobrevivo. Se precisasse, até pagaria uma taxa para ficar aqui", disse. Já os ambulantes que vendem lanches em praças devem ficar atentos ao projeto de regularização da atividade da categoria.

O titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), José Ricardo Gracia, adverte que será difícil a autorização para lancheiros em praças. Ele alega que, os ambulantes, nos logradouros públicos, aumentam a poluição visual e também o lixo nas ruas. "Muitas vezes, são encontradas poças de óleo no chão das praças perto dos carrinhos, isso porque ninguém limpa", lamenta Gracia.

Artista plástico vende quadros em praças

Praça também é lugar de exposição. O artista plástico Itamar Gonçalves, 48 anos, curitibano, preferiu unir o útil ao agradável. Ao mesmo tempo em que pinta quadros, os expõe em praça.

Há 25 anos trabalhando no ramo, Gonçalves viaja por todo o Brasil para expor seus quadros em logradouros públicos. Deixando a família em Curitiba, Gonçalves vive como um nômade, para sustentar os filhos e continuar na profissão.

O artista plástico tem um ônibus, apelidado por ele de "Arte Nômade", para levar o trabalho a toda e qualquer cidade. Sem rumo definido, ele segue no ônibus até parar em alguma cidade que lhe pareça poder resultar em boas vendas.

Então, estaciona em praças próximas dos bairros onde moram os mais ricos, que constituem sua clientela. Para ele, as praças são locais ideais para expor os quadros.

Até o vidro traseiro do ônibus foi pintado por Gonçalves. Ele acrescenta: "A pintura atrás do ônibus é para acalmar motoristas nervosos".

Gonçalves expõe seus quadros na Praça Portugal todos os anos. Mas faz uma reclamação de Bauru:

"Em outras cidades há espaço para o artista plástico que chega de fora. Bauru deveria seguir o caminho das demais, mesmo que fosse preciso pagar alguma taxa para ficar".

Hermelindo Polido, 77 anos, mora nos Altos da Cidade, próximo

à Praça Portugal, e acha que os quadros de Gonçalves

à venda embelezam a praça. "Sempre venho aqui e fico muito satisfeito em ver a exposição, que acrescenta mais cultura à cidade", elogia.

Semma quer população cuidando das praças

A Prefeitura optou por trabalhar com parcerias para "colocar a casa" em ordem. A Semma também aderiu à escolha e está trabalhando com empresas e pede à população que colabore com a limpeza das praças

Foi-se o tempo em que a Prefeitura fazia, sozinha, toda a restauração e manutenção das praças. Hoje, devido à crise que as Prefeituras enfrentam, a população deve colaborar e pôr a "mão na massa", se quiser conservar os logradouros públicos.

A Prefeitura de Bauru está fazendo parcerias com empresas e espera que os moradores também ajudem na manutenção e recuperação das praças. A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) explica que a parceria é a saída diante da falta de dinheiro e mão-de-obra para cuidar de tantas praças.

De acordo com o titular da Semma, José Ricardo Gracia, a pasta está com nova filosofia de trabalho. A Secretaria pretende recuperar somente as praças em que os moradores colaborarem. "Não vamos consertar uma praça para destruírem novamente. É necessário que os moradores façam parceria conosco, ajudando na manutenção das praças, como aguar", afirma.

Entretanto, nem todos os moradores aceitam participar dessa parceria. Muitas pessoas, como Geralda Crispin, 44 anos, moradora do Jardim Redentor, não concordam em fazer um trabalho que deveria ser da Prefeitura. "Já trabalho o dia inteiro no meu comércio e não tenho tempo para limpar a praça. Somente nos finais de semana eu poderia e, mesmo assim sozinha, porque não são todos que vão colaborar", argumenta.

Das 189 praças urbanizadas de Bauru, apenas seis foram recuperadas e recebem manutenção freqüentemente. Portanto, são muitas praças que precisam ser limpas e recuperadas, como as do Jardim Progresso, do Jardim Redentor e do Núcleo Presidente Geisel estão há muito tempo sem limpeza e necessitam de manutenção urgente.

Vera Lúcia Zambonato, 40 anos, não vai mais à praça que fica próxima de sua casa, no Jardim Progresso. Ela disse que, além de suja, a praça também está perigosa, um local de uso de drogas. Por isso, ela não deixa os filhos brincarem na área verde e reclama:

"Cansamos de ligar para a Prefeitura capinar o mato e não recebemos retorno".

A praça do Jardim Progresso foi capinada pela última vez, de acordo com moradores das redondezas, no início deste ano. Na ocasião, foram plantadas árvores no centro da praça para não permitir jogos de futebol. Quem não ficou contente são os meninos. Jefferson Lucas da Silva, 14 anos, e Ivan de Oliveira, 15 anos, estudantes, não gostaram das mudas, que impedem os jogos de bola no local. "Nós fazíamos até torneios de futebol. Hoje, não tem mais espaço para jogarmos e nos distrair", relata, indignado.

Já a Praça das Oliveiras, no Núcleo Presidente Geisel, tem espaço para os jogos, mas falta bancos para os moradores sentarem e descansarem. Maria das Graças Ramos dos Santos, 32 anos, não se conforma em ter uma praça perto de sua casa e em péssimo estado, principalmente pela falta de limpeza. Ela acrescenta: "A praça só fica limpa quando é época de eleições".

Sua filha, Joice Ramos dos Santos, 10 anos, também reclama uma praça sempre limpa, para brincar. "Gosto da praça sem sujeira, para brincar de pega-pega com minhas amigas", conta.

Em outras praças, como a da Amizade, localizada no Jardim Redentor III, de bonito mesmo é só o nome. A sujeira tomou conta do local: os canteiros e vasos estão quebrados e as folhas permanecem no chão, sinal de que a praça não vê uma vassoura há muito tempo.

Os meninos do bairro, quando jogam bola na praça, se reúnem e fazem uma pequena limpeza para poder se divertir. Paulo Borges Azarias, 12 anos, é um dos garotos que varrem um trecho da praça para, assim, brincar à vontade. "A praça é muito suja e nós limpamos toda vez que vamos brincar", conta.

A Semma está desenvolvendo um projeto para motivar as pessoas a "adotar" as praças da cidade. Segundo Gracia, o objetivo é que a própria população cuide e conserve as praças da cidade. E frisa: "Queremos que as pessoas cuidem dos logradouros públicos. É necessário que todos zelem das praças como fossem os jardins de suas casas".

Sem praça e área verde

Mas há áreas que foram destinadas a praças e que nem árvores têm. Um exemplo disso é o Núcleo Mary Dota, onde a área destinada à praça tem mais lixo e entulho do que árvores e verde.

Segundo os moradores, os pedidos feitos à Prefeitura para transformar o local em praça foram feitos há anos, mas até agora nenhum foi atendido.

Os moradores querem que o projeto saia da teoria e o terreno torne-se, de fato, uma praça. Com isso, pode evitar que a área, por ter mato alto, seja utilizada como esconderijo de ladrões e de procriação de bichos como cobras e escorpiões.

Maria José Profeta, 59 anos, relata que sua vizinha precisou chamar os bombeiros para que pegassem uma cobra coral que estava dentro de sua casa. Ela afirma, indignada, que a área só

é limpa quando ligam para a Semma. "A obrigação de se construir uma praça nessa área não

é nossa", conclui. desejo dos moradores, incluindo o de Maria, é de transformar a área em praça limpa e com bancos. Ela lamenta: "Aqui poderia ser um local de lazer para todos, ao invés desse terreno abandonado e com bichos".

Vinte ambulantes atuam na Rui Barbosa

A Praça Rui Barbosa, talvez a mais antiga da cidade, que antes recebia famílias e casais de namorados, hoje funciona mais como uma feira livre

A Praça Rui Barbosa, inaugurada no dia 12 de abril de 1914 e que por muito tempo foi local de passeio de famílias e namorados, hoje mais parece uma feira livre. Cerca de 20 vendedores ambulantes, entre pipoqueiros, sorveteiros, lancheiros e hippies vendem seus produtos na praça.

A mais famosa das praças de Bauru, localizada no centro da cidade, a Rui Barbosa não tem mais peixes, pássaros e até jacaré que são motivo de saudade para quem conheceu o local há dez anos atrás. Após a reformulação, sobraram apenas algumas árvores para fornecer sombras e os ambulantes tomaram a praça.

De acordo com os ambulantes que atuam no local, o trabalho na praça tornou-se uma alternativa para não passarem fome. Alguns vendem produtos industrializados, outros caseiros e alguns artesanais, como o artesão Valmir David Rheinheimer, 25 anos, o Gaúcho. Ele vende brincos, colares, anéis e outras bijuterias que faz manualmente.

Mesmo estando há pouco mais de dois anos na cidade, Gaúcho ganhou uma grande clientela. Ele garante que 50% de seus clientes são seus amigos ou conhecidos. "Estou sempre fazendo amizades e meus amigos acabam comprando meus trabalhos", explica.

Gaúcho acrescenta: "Meus artesanatos agradam tanto crianças quanto pessoas idosas. Há uma família que a três gerações compra meus trabalhos: avó, mãe e filha".

Faça chuva ou sol, Leonice Maria Goes, 49 anos, trabalha na Praça Rui Barbosa. Vendendo lanches há mais de 12 anos, ela trabalha das 8h30 às 19 horas todos os dias e, nos finais de semana, até as 23 horas. Ela explica que, por ser viúva, recebe uma pensão que só dá para pagar as contas de água e energia elétrica. Por isso, é preciso complementar a renda.

José Inácio Tavares, 69 anos, aposentado, trabalha há três anos na praça como vendedor de pipoca. Ele reclama: "O que eu ganho num dia é para repor o que foi gasto na data anterior. Está difícil de sobrar dinheiro", disse.

Mauro Gaudino da Silva, 73 anos, aposentado, lembra que levava os filhos para brincar na Praça Rui Barbosa. Já hoje, ele receia em ficar no local e ser assaltado e completa:

"Me arrisco ficando na praça porque há ladrões, mas gosto daqui, de ver o movimento das pessoas e o trabalho dos vendedores ambulantes".

Assim como ele, vários aposentados também vão

à praça para observar as pessoas que passam pelo local para comprar objetos dos ambulantes. Carlos Melges, 87 anos, e Irineu Cintra, 85 anos, se encontram todos os dias na praça para conversar e também paquerar, já que ambos são viúvos. Eles também reclamaram que é perigoso, mesmo durante o dia, ser assaltado na praça. Já o trabalho dos vendedores ambulantes não os incomodam.

Melges ressalta que vai à praça porque, além de descansar, também ajuda os engraxates a comprar material.

"Nós damos auxílio aos engraxates, para que eles continuem sobrevivendo com o dinheiro que ganham", comenta.

O engraxate Anderson Aparecido dos Santos, 21 anos, é um dos que trabalham na Praça Rui Barbosa. Há dez anos na praça, Santos acredita que é um dos locais que mais concentra pessoas e declara: "Para mim, essa praça

é o coração de Bauru e preciso dela para sustentar minha mãe". (EL)