07 de julho de 2026
Geral

Choro

Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Jacob do Bandolin: 30 anos de saudade

Jacob do Bandolin 30 anos de saudade

Nomes consagrados do choro, como o Época de Ouro e Aleh Ferreira, se apresentam este mês, no Sesc Bauru, em homenagem aos 30 anos da morte de Jacob do Bandolin; atrações locais também prestam seu tributo ao mestre

Jacob ganha homenagem em Bauru

No dia 13 de agosto de 1969 morria Jacob do Bandolim, um dos mestres do choro, gênero musical que inovou ao promover o encontro entre a música negra e a canção européia do final do século passado. Para lembrar a data, o Sesc Bauru realiza neste mês, um tributo ao músico, compositor e pesquisador.

O evento "Jacob do Bandolim, 30 Anos de Saudade" vai trazer para Bauru o grupo Época de Ouro, fundado por Jacob em 1964, e Aleh Ferreira, maestro e orquestrador, que se apresenta ao lado de um grupo de choro e de um quarteto erudito de cordas. Além destas atrações, os músicos da cidade também vão estar prestando suas homenagens.

A cantora Lisete Agnelli e Trio mostram hoje, dentro do projeto

"DescontraSom", a partir das 15h30, composições consagradas de grandes nomes da música brasileira, como Pixinguinha, Noel Rosa e, é claro, de Jacob do Bandolim.

Dando continuidade ao tributo, se apresentam o Regional do Vilaça, banda Bagagem, Jekas in Concert e o grupo Chorando Alto, que também vai ministrar uma palestra musicada.

Noites Cariocas

A importância de Jacob na história da música

é maior até que o virtuosismo com que dedilhava seu instrumento e no qual compôs pérolas como "Noites Cariocas". Ele também era um grande pesquisador e seu precioso arquivo integra o acervo do Museu da Imagem e do Som, do Rio de Janeiro, sendo fonte obrigatória de estudiosos da música brasileira.

Jacob do Bandolim nasceu Jacob Pick Bittencourt no Rio de Janeiro, em 1918. Filho único do farmacêutico Francisco Gomes Bittencourt e de Raquel Pick Bittencourt, ele cantava no coro do colégio onde fez o primário. Mais tarde, começou a tocar gaita-de-boca. Com 12 anos, ganhou da mãe um violino, mas não se adaptou ao instrumento e passou para o bandolim, que foi presente de uma amiga da sua mãe. Aprendeu, então, a tocar de ouvido.

Logo depois, já se apresentava na Rádio Guanabara, acompanhado por três amigos. Jacob se aprimorava no bandolim, que tocava no seu grupo, formado por dois violões, cavaquinho, pandeiro e ritmo. Com esse grupo participou, em 1934, do "Grande Concurso dos Novos Artistas", na Rádio Guanabara. Eles derrotaram outros 27 concorrentes e receberam a nota máxima dos jurados. A partir daí, sempre com o conjunto, passou a acompanhar os cantores da Rádio Guanabara, que ficou conhecido como Jacob e sua Gente.

Vendedor e escrivão

Jacob trabalhava à noite, na Rádio Guanabara, mas para se sustentar dependia dos empregos diurnos, trabalhou como vendedor, farmacêutico, corretor de seguros e em 1940, foi nomeado por concurso para escrevente. Chegando depois a escrivão titular do juízo da 11ª Vara Criminal, cargo que ocupou até sua morte.

Ao lado de César Faria, Claudionor Cruz (violões), Leo Cardoso (afoxê) e Candinho (bateria) formava o Conjunto da Rádio Ipanema.

Em 42, o violonista César Faria, pai de Paulinho da Viola, formou seu próprio regional e Jacob também tocava com ele. Ainda neste ano, ele abriu, com seu bandolim, a gravação de Ataulfo Alves de "Ai, que Saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago. Participou de outros discos mas seu nome não aparecia nos créditos, fato que não o incomodava.

Jacob preferia solar nos saraus com os amigos, no seu casarão Jacarepaguá. Ele prosseguia os estudos e aperfeiçoava sua técnica, pesquisando o repertório, então esquecido, dos chorões.

O primeiro disco foi gravado em 47, pela Continental, com o chorinho

"Treme-Treme", de sua autoria, e a valsa "Glória", de Bonfiglio de Oliveira. O sucesso do disco foi o solo de bandolim, que era usado apenas como acompanhamento. No ano seguinte, lançou pela mesma gravadora, o segundo disco acompanhado pelo regional de César Faria.

O dois discos foram um sucesso, o que fez ressurgir o interesse pelo bandolim, com as gravadoras estimulando solistas desse instrumento.

Em 48, Jacob gravou mais um disco, com o chorinho "Remelexo" e a valsa "Feia", ambos de sua autoria. O seu último disco pela Continental foi gravado em 1949, interpretando o chorinho

"Cabuloso", de sua autoria, e a valsa "Flor Amorosa", de Calado.

Nesse mesmo ano, transferiu-se para a Victor, onde ficou até o fim da vida. Jacob gravou os LPs "Choros Evocativos"

(1957), "Valsas e Choros Evocativos" (1962), "Assanhado"

(1966) e "Era de Ouro" (1967).

Na década de 60, formou o regional "Época de Ouro", com o qual gravou os LPs "Chorinhos e Chorões" e "Vibrações".

Jacob preferia o choro, à valsa e à polca, mesmo durante a fase da bossa nova. Ele tocava com facilidade vários instrumentos de cordas, e o bandolim brilhantemente. Foi pesquisador incansável de suas possibilidades como instrumentista.

Com Elisete Cardoso e Zimbo Trio, em 1968, Jacob fez um espetáculo de muito sucesso no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, gravado ao vivo e lançado em álbum de dois LPs pelo MIS. Este foi um dos momentos mais bem-sucedidos da arte do instrumentista. Vítima de um ataque cardíaco, Jacob morreu pouco depois, deixando dois filhos, também compositores, Sérgio e Helena.

Em 1971, foi lançado o LP "Os Saraus de Jacob - Jacob do Bandolim", no qual ele recebe o modinheiro Paulo Tapajós. O encontro foi registrado em fitas que havia gravado e com participação dos músicos do seu conjunto acompanhando o cantor.

Seus choros têm sido gravados no Japão, Venezuela, França, EUA e outros países. Uma antologia dele como solista (dois CDs com 43 faixas) foi produzida pelo bandolista norte-americano Dexter Johnson, mas não foi lançada no Brasil; e a Columbia editou o CD Retratos, em que toca com a Radames Gnatalli Orchestra.