Uma jovem em busca de sua história
Uma jovem em busca de sua história
Texto: Fábio Grellet
Moça abandonada em Espírito Santo do Turvo não se lembra de seu passado. Moradores a adotaram, mas procuram familiares da moça
Espírito Santo do Turvo - Se você se lembra de já ter acompanhado história semelhante, numa novela qualquer, prepare-se: esta é uma história verdadeira de esquecimento, que envolve tragédia e solidariedade e acontece na pequena cidade de Espírito Santo do Turvo.
No último dia 30 de maio, um domingo, por volta de 11h30, uma moça aparentando 27 anos, pesando 56 quilos, que media 1,52 metro de altura e vestia roupas apropriadas ao frio porém já desgastadas, chegou à Fazenda São João, situada próximo ao km 310 da rodovia Castelo Branco, quase no final dela (a rodovia acaba no km 315). Entrando na propriedade rural, encontrou o caseiro, Oscar Fraga, e lhe pediu um copo d'água. Dispunha apenas das roupas do corpo, não tinha qualquer documento e, pior: não se lembrava de onde tinha vindo, nem onde estavam seus familiares ou o que fazia da vida. Sabia apenas o próprio nome: Denise Ferreira da Silva.
Diante da situação inusitada, Fraga lhe serviu água e comida e permitiu que ela ficasse em sua casa, ao menos por algum tempo. Depois de permanecer na moradia, conforme a versão exposta pela filha de Fraga, Zenaide, durante uma semana, como a moça apresentava frequentes ataques de bronquite, Fraga levou-a até Espírito Santo do Turvo, onde informou a situação de Denise aos funcionários do Posto de Saúde da cidade.
O caso então chegou ao conhecimento da assistente social Fátima Anzolin, que coordena as atividades sociais da Prefeitura de Espírito Santo do Turvo, e da presidente do Conselho Tutelar da cidade, Maria Cícera Zuntini. Elas começaram a acompanhar Denise e, junto com outras pessoas da comunidade, a prestar auxílio a ela.
Quando foi à cidade buscar tratamento para a bronquite, conduzida por Fraga, Denise se estabeleceu na casa de uma filha do caseiro, Sueli, que mora na cidade. Permaneceu ali durante três dias. Enquanto isso, Anzolin e Zuntini procuravam uma família que quisesse acolher Denise, enquanto ela não encontrasse seus familiares - já que a permanência na casa de Sueli não podia se prolongar indefinidamente. A família de Silvana Aparecida Cunha, que mora com seu marido e dois filhos numa pequena casa do Jardim Zanata, decidiu acolhê-la, e Denise ficou lá por alguns dias.
Como parecia tensa, a moça foi avaliada por uma psicóloga que atua em Espírito Santo do Turvo e levada até um hospital psiquiátrico de Ourinhos, onde permaneceu internada entre os dias 8 de junho e 14 de julho. Nesta data, recebeu alta
e retornou para a casa de Silvana, onde está até hoje. O JC não conseguiu contato com os médicos que atenderam a jovem em Ourinhos.
O dia-a-dia de Denise é quase ocioso: ela lava a louça e suas roupas, submete-se a sessões de inalação quando a bronquite ataca e cuida do filho menor de Silvana, Leonardo, de quatro meses, quando necessário.
A única recomendação dos médicos que a trataram no hospital de Ourinhos foi para que Denise tomasse um calmante, se necessário. Ela também faz tratamento para a bronquite, que insiste em atacá-la com alguma frequência. As roupas que usa foram doadas por pessoas da comunidade. A comida
é proveniente da cesta básica oferecida pela Prefeitura, que também lhe fornece os remédios eventualmente necessários. O comportamento de Denise, apesar da ansiedade demonstrada em alguns momentos (razão de sua internação), apresenta comportamento de uma pessoa normal e educada, que tem modos à mesa e não estranha qualquer situação. Detalhes como as unhas cortadas e a limpeza indicam que Denise não era uma andarilha, mas uma pessoa tratada com atenção e cuidados.
Denise já estabeleceu uma relação de afeto com a família que a acolheu, de forma que Silvana nem pensa em mandá-la embora de seu lar. As dificuldades para mantê-la em Espírito Santo do Turvo, porém, obrigam a assistente social da Prefeitura a procurar um lar para a moça. Embora não se descarte a possibilidade de interná-la em uma entidade que preste assistência social, o ideal seria encontrar a família de Denise, e este é o objetivo fundamental que justifica a divulgação do episódio.
Lembranças esparsas
Denise Ferreira da Silva contou algumas coisas de que se lembra, quando entrevistada pelo Jornal da Cidade. As informações, porém, algumas vezes são contraditórias e nem sempre expressas com a certeza de quem sabe o que está dizendo.
Denise tem um leve sotaque nordestino, sabe ler, embora não decifre todas as palavras, e escreve ao menos o próprio nome. Ela diz que já consultou seu registro de nascimento, encontrado na cidade pernambucana de Escada. O Jornal da Cidade, durante a última sexta-feira, não conseguiu contato com o Cartório de Registro Civil daquele município, para confirmar essa informação e descobrir familiares de Denise.
Ela se lembra também que morou em Santos, onde tinha muitas
"colegas". Lembra-se de um hospital em frente à praia e tem recordações também de São Paulo: a avenida Radial Leste e o metrô são as menções que faz à cidade.
Mas o município de que mais se recorda é Diadema: Denise diz que teve um filho (o que é confirmado pela cicatriz da cesariana, existente em seu ventre), do sexo masculino, numa maternidade de Diadema, mas nunca chegou a morar com ele. A assistente social de Espírito Santo do Turvo pesquisou em hospitais de Diadema, mas não encontrou qualquer registro em nome de Denise Ferreira da Silva. Ela também se lembra que a cidade tem muitos prédios e indústrias. Esporadicamente, menciona também um enfermeiro e uma quitanda.
Sobre a viagem até Espírito Santo do Turvo, ela diz que o meio de transporte foi o ônibus, até um certo ponto que ela desconhece. A partir dali, teria viajado de carona com uma pessoa chamada Paula, que a deixara às margens da rodovia Castelo Branco, na porteira de entrada da fazenda.
Denise afirma que, como não tinha dinheiro para adquirir a passagem de ônibus, queria trocar por passes de metrô. A proposta não foi aceita, mas a moça acabou viajando de graça, por caridade do motorista.
Caridade, aliás, que ressalta nas pessoas que têm acolhido e tratado de Denise desde que ela chegou a Espírito Santo do Turvo. Famílias que, apesar da renda muitas vezes restrita, não se recusaram a auxiliar uma pessoa que, protanista de uma história trágica, não tinha a quem recorrer. A esperança de todos é que Denise finalmente consiga encontrar seus familiares ou um lar onde possa ter garantida sua subsistência.