Stress a bomba interna
Stress A bomba interna
Texto: Gustavo Cândido
Quando se ouve falar em stress o que vem a mente logo de cara
é o estrago que ele causa, que fez com que a ONU o declarasse, em 1992, como o "mal do século". Entretanto o stress é um mecanismo de defesa do nosso corpo, que faz parte de nossa vida. É normal ficar estressado, por exemplo quando se anda sozinho numa rua deserta; o coração acelera, as mãos ficam frias, a audição e a visão ficam mais aguçadas e seu corpo fica preparado para qualquer eventualidade, para lutar ou até fugir de qualquer "perigo". O problema é que o stress em excesso torna-se muito prejudicial a nossa saúde física e emocional. Se esta reação fosse esporádica, tudo bem, mas com as complicações da vida moderna, a cada minuto nos deparamos com situações aparentemente ameaçadoras e verdadeiramente delicadas: o chefe mal-humorado, a briga com o marido, os filhos exigentes, a empregada que não veio, uma prova difícil, aquela colega que puxa seu tapete, as contas a pagar, a falta de dinheiro, o trânsito maluco, o vizinho que liga o som em altas da madrugada... Todo mundo necessita do stress em sua vida. Sem ele a vida seria monótona e sem atrativos, pois o stress adiciona sabor, desafio e oportunidade
à vida. Um grande desafio neste estressante mundo é fazer o stress em sua vida trabalhar a seu favor e não contra você.
Todo dia a situação se repete: não se atrasar para o trabalho, cuidar da casa, ir ao supermercado, enfrentar o trânsito, sair correndo para pegar as crianças no colégio, se apressar para pegar o banco aberto, pagar contas, controlar o orçamento, e ainda por cima manter-se bem informado, atualizado para competir e manter-se no mercado profissional, etc. Estas são algumas situações presentes repetitivamente em nosso dia a dia e que podem tornarem-se fontes inesgotáveis de stress.
Segundo estimativas, no Brasil cerca de 35% da população sofre com o stress, isto significa atualmente 57 milhões de brasileiros. Incluído na porcentagem acima 10% daquela população acaba desenvolvendo um quadro depressivo e conseqüentemente uma depressão.
De acordo com a psicóloga Maria Beatriz Bernardi Faulin o stress é um mal que atinge a pessoa em todos os aspectos de sua vida, ou seja: físico, emocional, social e profissional, revelando-se assim um problema sério, que não deve ser encarado como "frescura". Trata-se de uma resposta do organismo, que passa a interpretar de forma hipervalorativa os fatos do dia a dia, tendo respostas orgânicas e emocionais exageradas. "Portanto não basta sanar os sintomas, que são sinais de que algo não anda bem, neste caso o adequado é a pessoa investir em procurar descobrir quais as causas desencadeadoras da reação de stress, e se necessário buscar apoio profissional adequado", diz a psicóloga.
Mãos geladas, suor frio, coração acelerado, respiração ofegante: stress, uma mistura de ansiedade e tensão, resultando num possível estado de letargia e depressão. Sabe-se que stress pode ocorrer a qualquer pessoa. Além de não existirem exames que permitam seu diagnóstico, as pessoas tendem a desvalorizar os sintomas que poderiam ser indicadores de que o stress estaria se instalando e buscando evitá-lo; assim o diagnóstico em geral ocorre tardiamente, quando já existe comprometimento nos aspectos: físico, emocional, relacional e até profissional.
"Cada pessoa reage particularmente ao stress, o que pode ser uma situação relaxante para uma pessoa pode significar uma situação estressante para outra. Por exemplo, um executivo atarefado que gosta de manter-se ocupado o tempo todo, 'ficar ocioso' na praia, pode fazê-lo sentir-se extremamente frustrado, não-produtivo e chateado", explica Faulin.
Causas possíveis
Stress é uma reação do organismo sinalizando que algo anda fora do nível aceitável e saudável, que este "algo errado" tende a se repetir. Recente pesquisa feita pela USP e Instituto do Coração - São Paulo, revelou que as principais fontes de stress são: problemas financeiros, violência, falta de tempo e acúmulo de tarefas. Além destas também é possível incluir: dificuldade de adaptação, aumento de responsabilidade, ausência de estímulos e desafios, estímulos ameaçadores constantes, desencontros amorosos, incomunicação, expectativas e incertezas quanto ao futuro, pressão profissional, momentos particulares na vida como: início do casamento, nascimento de um filho, doenças na família, mudança de emprego.
"Na sociedade atual onde tudo é para 'ontem', o organismo acaba reagindo a esta pressão de uma forma exagerada gerando sintomas e até doenças", alerta a psicóloga.
Sinais de alerta
O stress interfere em todos os aspectos da vida da pessoa, trazendo assim consequências como: problemas afetivos, problemas de relacionamento, dificuldades profissionais, gerando problemas na saúde e no bem estar físico e emocional: alterações nos sistemas imunológicos e endócrinos, perda da auto-estima e conseqüentemente há uma perda significativa na qualidade de vida; infelizmente a recuperação de uma pessoa com "stress" e que tenha estes aspectos de sua vida comprometidos é lenta.
Segundo Beatriz Faulin, se uma pessoa do seu convívio lhe diz que você anda nervosa demais, detectando um sintoma que você não havia percebido, o ideal é procurar o diálogo com esta pessoa e não perder a oportunidade de conhecer-se um pouco melhor. "Você deve se lembrar que algo de diferente pode estar acontecendo em você e em casos de stress o terapeuta é a pessoa mais indicada para detectar o problema e indicar uma cura".
Fases
O stress se manifesta basicamente em 3 fases:
* Momento de Alerta - Nesta primeira fase existem alguns sinais mais comuns, que se revelam no comportamento e no corpo da pessoa, e alguns deles sinalizam além do stress um evidente aumento na ansiedade; dentre eles: dores musculares, mãos frias e suadas, taquicardia, respiração ofegante, distúrbios do sono, excessos na alimentação, fumo e álcool, e também pode-se notar que a energia pessoal se modifica com aparente aumento em sua magnitude. Quase todas as pessoas em alguma fase da vida já tiveram experiências desse tipo, mas que são passageiras.
* Momento de Resistência - Os sintomas são os mesmos da fase anterior, mas já comprometendo levemente o funcionamento saudável do corpo, por exemplo: aquela dor muscular pode se manter constante e realmente causar lesões ao músculo, nervos e tendões. Os sinais mais freqüentes nessa fase são: dor de cabeça, problemas de concentração e memória, dificuldade em tomar decisões, cansaço, queda do rendimento profissional, desgaste, desmotivação, diminuição da resistência do organismo e com isto o aparecimento de doenças oportunistas, como exemplo: gripes, herpes, asma, aftas.
* Momento de Exaustão - Se a pessoa não for capaz de diminuir o stress nesta fase, podem se instalar doenças mais graves, como: hipertensão-arterial, depressão, problemas coronários, úlceras entre outras. Nesta fase os sintomas são: queda de cabelo, problemas de mandíbula, desgaste dos dentes, tonturas, mau hálito, gastrite, alterações no ciclo menstrual, oscilações da pressão arterial, micoses, aparecimento ou aumento de tiques nervosos, arritmia cardíaca, infarto, diarréia, prisão de ventre, distúrbios no apetite alimentar e sexual, obesidade, aumento da sensibiliade e da labilidade, desânimo, exaustão e queda na auto-estima.
É evidente, que em todos os momentos do stress é necessário o acompanhamento terapêutico, mas na fase de exaustão se faz necessário também o acompanhamento médico, pois já existe um comprometimento da saúde, principalmente dos sistemas: endócrino, gastrointestinal, circulatório e nervoso.
A psicóloga conclui que o "stress" é uma situação vivencial que atinge o ser humano em todas as suas dimensões e potencialidades, acarretando consequências nos relacionamentos profissionais, afetivos, familiares, sociais, além de gerar problemas de saúde, emocionais, traduzindo-se numa perda considerável na qualidade de vida. "A pessoa com stress percebe o mundo de forma singular, onde tudo torna-se fonte de irritação: o cachorro que não pára de latir, o chefe, o clima, a TV, o som alto...", explica Beatriz Faulin.
A comunicação interpessoal
Os relacionamentos de intimidade e proximidade são os mais estressantes, por envolverem afetividade e incluírem as particularidades pessoais. Portanto buscar o auto-conhecimento pode proporcionar possibilidades de agirmos em nosso dia a dia com maior discernimento, assertividade, compreensão e assim diminuir os conflitos no dia a dia que são geradores de tensão, pressão e stress.
Em nossa comunicação diária, utilizando-nos de diversos tipos de comunicações por mantermos diversos tipos de relacionamentos, por exemplo: nosso relacionamento com nossos familiares, são relacionamentos afetivos - então nos utilizamos da comunicação afetiva, na maior parte do tempo. Existem ainda os relacionamentos: operativos, funcionais e anônimos; em cada um destes relacionamentos utilizamo-nos da linguagem específica a estas relações.
Somos seres de relações, nós necessitamos estar em contato com outras pessoas para preenchermos necessidades pessoais, estas necessidades são principalmente: afeto, comunicação, contato, reconhecimento, afiliação, amizade, autonomia, auto-realização, transcendência, sentido de vida; tudo isto nos proporciona o encontro pessoal e o sucesso na vida social. Aqui se encontram a morada dos conflitos interpessoais e afetivos, são sentimentos de ambivalência, alianças, exclusões, duplicidade, negociações, formas de organizações - fixas ou mutáveis, tudo ocorrendo simultaneamente e constantemente. Portanto continuamente estamos experimentando o caráter problemático dos relacionamentos interpessoais. Por exemplo: conflitos entre membros familiares, podem se dar pelas incompatibilidades e atritos entre os membros, atritos conjugais e ressentimentos entre estes.
A efemeridade dos relacionamentos, no caso de relacionamentos conjugais, a percepção que se tem do outro que se construindo a cada dia, o encontro da satisfação de necessidades e motivações, principalmente psicológicas e sociais como: afeto, segurança, reconhecimento, autonomia, contato, comunicação, aceitação, realização sexual, entendimento mútuo. Todos estes fatores podem estar condensados pelo modo positivo, ou seja: coesão e junção, ou podem condensarem-se pelo modo negativo: disjunção, desintegração, desentendimento, provocando assim os atritos e conflitos infindáveis, podendo se tornarem fontes stress, ansiedades e até depressões.