08 de julho de 2026
Geral

Protesto dos caminhoneiros

Luciano Augusto
| Tempo de leitura: 4 min

A carga pesada dos caminhoneiros

A carga pesada dos caminhoneiros

Texto: Luciano Augusto

Depois do protesto, no final de julho, que parou o País, os caminhoneiros mostraram sua força e deixaram à mostra as dificuldades por que passa a categoria. O alto custo do combustível e a tarifa cobrada nos pedágios corroem o que se ganha com o frete.

"Viver do caminhão já foi melhor. Hoje, está bem pior". Assim o caminhoneiro autônomo Edenício José Ferreira, 38 anos, resumiu as dificuldades atuais da categoria. Ele acusa o Governo de Fernando Henrique Cardoso pela queda na qualidade de vida.

"Está pior por causa desta política que está aí. Tenho muito gasto e pouco lucro".

Ele conta que, no início do primeiro mandato do presidente, o frete valia R$ 1,00 por quilômetro. Ultimamente, as empresas pagam, no máximo, R$ 0,80. Por outro lado, o óleo diesel está custando até R$ 0,60 o litro. O seu caminhão, um Volvo, faz dois quilômetros por litro. Fazendo as contas, os gastos com combustível e tarifas de pedágio consomem, praticamente, a metade do valor do frete.

No seu roteiro mais comum, o transporte de cargas de açúcar de cidades da região para o Rio de Janeiro, cujo frete "é um dos melhores por causa da safra (R$ 850,00)", ele gasta mais de R$ 200,00 com os abastecimentos.

Outros R$ 150,00 são deixados nos seis pedágios que existem no trajeto. "Tem pedágio de todo preço, que chegam até R$ 24,00. Outros, numas estradas que não tem nem acostamento, custam R$ 2,80 por eixo", reclama.

Ainda sobram os gastos com alimentação e com a manutenção do caminhão. "São 18 pneus rodando e cada um custa R$ 650,00", argumenta Ferreira. Carretas como a do motorista, natural de Torrinha (região de Jaú), consomem um pneu por mês. Um preço justo para o frete, segundo o caminhoneiro, seria mais de R$ 1,00 por quilômetro.

Outra reclamação é a qualidade e a segurança das estradas. "A segurança está péssima, praticamente não tem nenhuma", diz. Já as condições das estradas, segundo ele, é relativa. Nas estradas privatizadas e mais próximas aos pedágios as estradas estão em boas condições.

"Onde o Governo toma conta, está uma droga", finaliza.

Situação semelhante vive o caminhoneiro Mário Waldir Rodrigues, 62 anos, natural de São Paulo, capital. "As mudanças do (Governo) Fernando Henrique foram para pior, porque está faltando tudo para a gente. O que mais mata o caminhoneiro é o pedágio, que está muito alto", apontou o motorista. Rodrigues ironiza dizendo que os caminhoneiros, atualmente, não estão cobrando mais nada e as empresas pagam quanto elas querem.

O caminhoneiro paulistano afirma que já não faz mais viagens muito longas, como para os Estados do nordeste. Segundo ele, as viagens longas são inviáveis economicamente e, até mesmo, por questões de segurança. Rodrigues optou, então, pelas viagens curtas, principalmente no trecho entre Jacareí e Agudos.

O frete pago pelas empresas está custando R$ 400,00, "que ainda é muito baixo". Somente com combustível, os gastos chegam a R$ 170,00. Além disso, tem as tarifas de pedágio, que abocanham outros R$ 60,00. Ele diz estar "quase certo de que a firma (que contrata a empresa de transporte) paga para as transportadoras mais elas não repassam para o motorista".

Na sua opinião, a vida dos caminhoneiros só melhora se forem revistos os preços do frete, pedágio e

óleo diesel.

Em relação à segurança nas estradas, o senhor que trabalha desde os 13 anos nas estradas não tem o que agradecer. Ele foi raptado no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, e ficou durante quatro horas, deitado no banco de trás do caminhão, com um revólver apontado para a sua cabeça. Felizmente, depois de descobrir que ele trabalhava como autônomo, os assaltantes desistiram de levar o caminhão.

Contudo, ele não culpa os policiais rodoviários, "pois também não ganham

à altura para colocar o corpo na frente de uma bala".

Já sobre o novo Código Nacional de Trânsito (CNT), que estabeleceu o esquema de pontuação para o motorista, ele diz que não é ruim. "A pessoa que tem que cumprir as obrigações".

Uma das reclamações mais fortes dos caminhoneiros em relação ao CNT é a multa, que geralmente acontece na pesagem entre cada eixo. Os caminhoneiros são unânimes em afirmar que esta multa é injusta porque nos locais onde o caminhão é carregado não há balança e, por isso, o motorista não tem controle sobre o peso da carga.