08 de julho de 2026
Geral

Patrimônio histórico

Andréia A. Ascari
| Tempo de leitura: 5 min

Associação denuncia trem em abandono

Associação denuncia trem em abandono

Texto: Andréia A. Ascari

A Associação dos Amigos de Museus de Bauru está preocupada com a deterioração de uma composição histórica - formada por sete vagões de madeira (inclusive o vagão que foi feito para o ex-presidente Getúlio Vargas) e duas locomotivas a vapor. Segundo o presidente da Associação, Fábio Paride Palota, muitas peças da composição estão sendo roubadas, como o capitel (chapéu da chaminé da locomotiva), os lustres dos vagões (que foram importados da Bélgica), um ventilador irlandês

(feito no mesmo estaleiro que construiu o Titanic) e até canos de bronze (que ficam nos vagões e locomotivas).

Palota afirmou que a Associação precisa da colaboração de toda a sociedade, empresas e políticos, para que ajudem a fazer a segurança e uma cobertura para os vagões.

"Estamos muito preocupados com essa composição histórica, que sofre o perigo de desaparecer", disse.

Palota contou que a Associação já está entrando em contato com a Novoeste para que seja autorizada a transferência de uma estrutura metálica (onde ficava a antiga rouparia) para começar a cobertura e pedir a doação de dois sinos de bronze, que eram das locomotivas, para a Rede Ferroviária Federal (RFFSA).

O Museu Histórico Federal foi montado pela Novoeste e a RFFSA. "Vamos pedir a colaboração dos vereadores, das associações de bairros, ao empresariado em geral e a toda população para que nos ajude a preservar esse patrimônio, que eu considero não só meu, mas de todo o povo de Bauru", afirmou.

Associação dos Amigos de Museus de Bauru, criada em fevereiro deste ano, é uma Organização Não Governamental (ONG), sem fins lucrativos, que funciona através de trabalhos voluntários de pessoas que tentam valorizar e preservar o patrimônio histórico de Bauru. "Não é só o patrimônio histórico ferroviários, mas também o do Museu Histórico Municipal. No futuro, pretendemos ajudar, no que for possível, todos os museus de Bauru", finalizou Palota.

História da Noroeste

A antiga Noroeste do Brasil teve início em Bauru em novembro de 1905. O trecho paulista foi construído com capital franco-belga e inaugurado em 27 de setembro de 1906, com a circulação de um trem especial entre Bauru e Jacutinga (atual Avaí). A estrada de Ferro passou a se chamar Bauru-Itapura.

Em 1909, a ferrovia atingiu a barranca do rio Paraná, divisa do Mato Grosso. Começou, então, a construção da Estrada de Ferro Itapura-Corumbá. No dia 14 de outubro de 1914, os trilhos se encontraram e foi construída a estação

"Ligação". Em 1918, o Governo Federal encampou a Estrada de Ferro Bauru-Itapura.

Em 1921, foi inaugurada a primeira locomotiva, a 410, montada nas oficinas de Bauru. A primeira viagem foi de Bauru a Mirante e contou com a presença do engenheiro Arlindo Luz. "Agora, 79 anos após esse fato, visitamos o que resta das oficinas da ex-NOB e podemos constatar que uma das locomotivas daquele lote se encontra sucateada e toda enferrujada, com falta de muitas peças. Se não fosse a atitude do engenheiro Oquendo Lopes, quando estava à frente da direção da ex-NOB, em 80, cedendo a locomotiva n.º 404 para a Prefeitura Municipal, e que hoje está instalada no Bosque da Comunidade, jamais poderíamos conhecê-la em seu total esplendor", disse Vivaldo Pitta, ferroviário aposentado, artista plástico, numismata (colecionador de moedas) e pesquisador da história de Bauru e região.

Serviço

A cobertura de cada vagão custa R$ 600,00 (manta de alumínio) ou R$ 1.500,00 (fibra de vidro). Quem quiser ajudar, com qualquer quantia ou outro tipo de ajuda, basta entrar em contato ou se filiar à Associação, através dos telefones 991 3527 (Fábio), 998 5252 (Toninho) e 222 5045 (João). Para depósitos em dinheiro, o número da conta da Associação dos Amigos de Museus de Bauru é 001 101 877 - 1, agência 0020, no Banco Bilbao Bizcaya (BBV).

Memória Ferroviária

Entre 13 e 16 de julho foi realizado, em São João Del-Rei (MG), um encontro sobre a preservação da memória ferroviária. As palestras, seminários e painéis do encontro integram o programa "Inverno Cultural", realizado nas principais cidades mineiras, todos os anos, durante o mês de julho.

Participaram do encontro representantes de arquivos, museus e bibliotecas dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. João Francisco Tidei de Lima, coordenador do Centro de Memória Regional Unesp/RFFSA, subordinado ao Centro de Documentação e Memória da Unesp (Cedem), representou Bauru.

No encontro, Lima fez uma avaliação da realidade ferroviária em Bauru e projetou imagens sobre as atividades do Centro de Memória Regional e sobre os vagões e locomotivas do Museu Ferroviário Regional. Ele também falou sobre as dificuldades encontradas pelos administradores do patrimônio no trabalho de conservação.

Os participantes se ocuparam da discussão dos termos de um documento que incluirá, além do balanço de atividades, uma avaliação crítica da política cultural voltada para a preservação da memória ferroviária. "Na verdade, também nesse aspecto, não existe nenhum projeto. Quem conduziu a privatização das ferrovias foi o BNDS, de forma desastrosa, lançando

à dilapidação, bens móveis, imóveis, peças, equipamentos e conjuntos arquitetônicos", disse.

Ele continua a crítica dizendo que "a própria Rede Ferroviária Federal, através de seu pessoal técnico e especializado, foi atropelada no processo. Se uma política voltada para o desenvolvimento do transporte ferroviário não é preocupação dos governos que aí estão, imagine então a situação da preservação da memória ferroviária", afirmou João Tidei de Lima. Nos finais de semana, um trem, puxado por uma maria-fumaça, corre o trecho entre São João Del-Rei e Tiradentes, um percurso de aproximadamente 12 quilômetros.