08 de julho de 2026
Geral

Dia da pendura

Adriana Rota
| Tempo de leitura: 4 min

"Pendura" garante refeições gratuitas a estudantes de Direito

"Pendura" garante refeições gratuitas a estudantes de Direito

Texto: Adriana Rota

Estudantes de Direito de todo o País mais uma vez exerceram seu "direito" de comer e beber à vontade sem pagar a conta, ontem, dia em que se comemorou a fundação dos cursos jurídicos no Brasil. Em Bauru, o famoso "pendura" ocorreu sem incidentes (pelo menos até o fechamento desta edição). O curso de Direito da Universidade Paulista

(Unip) não aderiu, mas os alunos da Instituição Toledo de Ensino (ITE) aproveitaram bem.

O Diretório Acadêmico 9 de Julho, da ITE, emitiu 2.200 cartas, número referente à quantidade de alunos do curso. Essas cartas são tradicionalmente entregues ao proprietário do estabelecimento, que as coloca em local visível na entrada para livrar-se de outros pedidos de pendura. Elas são uma espécie de "atestado de vítima".

Geralmente, o proprietário do bar, restaurante ou lanchonete

é previamente contatado por grupos de alunos para que não haja confusão durante a brincadeira. Há, inclusive, casos de reservas prévias. Isso porque a procura é grande e os primeiros escolhem os lugares mais concorridos. Como cada estudante recebe uma carta e, geralmente, apenas uma é entregue, ele pode fazer uma peregrinação com os colegas por diversos estabelecimentos.

Um proprietário, que preferiu não ser identificado, não avaliou a prática exatamente como um prazer, mas como uma espécie de coerção. "Não tem remédio. Então, a gente procura atender da melhor forma possível", disse.

Mas nem todos pensam assim. Osmar Garcia, por exemplo, proprietário da churrascaria Baby Buffalo, lamentou o fato de não poder atender mais pessoas. "Hoje, foram oito no almoço. Muita gente procurou, mas atendi apenas as duas primeiras cartas. Alguns acabam até ficando chateados, mas, na atual situação, tem de haver coerência de ambas as partes".

O proprietário da lanchonete Papa Tutti compartilha da mesma opinião. "Nós participamos todos os anos e nunca tivemos problema algum. A única ressalva é que não vendemos bebidas alcoólicas. Um negócio interessante é que, geralmente, quem vem aqui já

é cliente. Tem mais: isso é muito melhor do que receber cheque sem fundo", avaliou.

A estudante do 4.º ano, Fabíola Aznar, participa pela terceira vez do Dia do Pendura. Ela afirmou que existe um controle grande para coibir abusos: comprova-se se a pessoa é mesmo futura advogada através da carteira de identidade e da faculdade. "O proprietário foi muito simpático, os garçons também. Não existe conflito: se a pessoa não aceita, a gente simplesmente vai embora, sem briga".

Questionada sobre o tamanho do "rombo" e os 10% do garçom, ela disse nunca ter se preocupado com esses detalhes. "O nosso grupo não abusa", garantiu. Fabíola disse saber que a comemoração não é vista com bons olhos por muita gente, mas considera a brincadeira válida independentemente disso. "Minha mãe, por exemplo, acha bárbaro", vibrou.

Os universitários da Unip não chegaram a procurar o Diretório Acadêmico para conseguir as cartas. Edson Mitsuiya, um de seus membros, afirmou que ele mesmo não se interessa por esse tipo de coisa por inibição, embora considere a brincadeira saudável desde que todos estejam de acordo.

Tradição é do tempo de Dom Pedro I

Os dois primeiros cursos da área de Direito foram criados em São Paulo e Olinda pelo imperador Dom Pedro I, em 11 de agosto de 1827. Até então, só fora do Brasil era possível obter essa formação. No princípio, os donos dos estabelecimentos ofereciam comida e bebida gratuita. Com o aumento do número de estudantes, a maior parte deles passou a se auto-convidar, solicitando formalmente a "gentileza" do proprietário.

O autêntico "pendura" deve ser iniciado com muita discrição. Após a refeição ou a sobremesa, é hora de pedir a conta. No lugar de seu pagamento, ouve-se o discurso de um dos membros da mesa, previamente destacado para isso. Se o proprietário da casa aceitar,

é fornecido o "atestado de vítima". Caso contrário, os estudantes devem chamar a polícia ou ir à delegacia mais próxima, contando com o possível trunfo de ser perdoados porque a autoridade policial também deve ter comemorado a data da mesma forma. Caso não dê certo, é possível argumentar a inexistência de crime, que seria caracterizado pela falta de condições de pagar a refeição. Nesse ponto, contam os "manuais" que o talonário de cheques, o dinheiro e o cartão de crédito devem ser apresentados.

A tradição sofreu alterações ao longo do tempo. Há quem saia correndo do estabelecimento após a refeição, levando consigo os objetos que encontra pela frente (o que pode caracterizar crime de dano). Existem, ainda, aqueles que reservam antecipadamente, revelando à

"vítima" suas intenções, tendo essa o direito de discordar (há quem questione esse procedimento, alegando que tira o "sabor" do pendura tradicional).