Interferência política pode afetar economia
Interferência política pode afetar economia
Texto: Márcia Buzalaf
O economista, professor da Faculdade de Economia e Administração
(FEA) da USP e coordenador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Marco Antônio S. Vasconcellos, teme a interferência política nos assuntos de ordem econômica no Brasil. Em passagem por Bauru para uma palestra na Instituição Toledo de Ensino (ITE), na comemoração do dia do economista, o professor se manifestou como sendo um otimista em relação ao Brasil, mas perplexo diante da ação política no rumo da economia.
O professor acredita que as interferências políticas que atualmente rondam as decisões econômicas realmente podem prejudicar o caminho positivo da ordem econômica. O surgimento de uma proposta para acabar com a miséria, do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães,
é citado como um exemplo disso.
Para ele, o Brasil está sendo regido por uma turma de economistas e cientistas sociais que pensam, basicamente, em um crescimento sustentável da economia a longo prazo.
A sobrevalorização do câmbio durante mais de quatro anos é defendida pelo professor, que acredita neste caminho como um viabilizador do desenvolvimento o futuro.
"Eu me pergunto se a taxa de inflação seria essa se não houvesse o câmbio fixo do Gustavo Franco", opina. Segundo ele, o período escolhido pelo Brasil para um crescimento econômico com baixa inflação foi infeliz, já que o País não contava com três crises internacionais. "Há 12 anos que não tinha este tipo de crise", afirma o professor.
A diferença entre as linhas seguidas por cada economista dentro do governo pode determinar o caminho da economia. Para Vasconcellos, os economistas mais de mercado, como Armínio Fraga e Pedro Malan, têm maior importância para o governo atualmente do que a ala mais voltada para a elaboração de planos econômicos, como é o caso do Francisco Lopes e do André Lara Resende, que recentemente fizeram parte do governo. "O governo tem, hoje em dia, uma equipe de economistas de primeiro mundo", afirma.
O professor afirma que, em contraposição ao benefício da equipe econômica formada pelo presidente, o principal problema é que o governo está perdendo força política: "O político está prevalecendo sobre o econômico, o que é assustador".
Crescimento
Na opinião de Vasconcellos, a economia poderia estar voltando a ativa no início deste semestre. "Mas, quanto eu fiz esta previsão, eu não esperava as CPIs e o crescimento do poder político na economia, que é o que eu mais temia", justifica.
Embora o primeiro semestre tenha registrado um superávit primário, superior inclusive àquela meta estabelecida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o futuro do País não está garantido. "Muito deste superávit foi feito com receitas não-revistas, como demanda judicial", explica o professor.
O potencial de crescimento e de atração de investimentos externos que o Brasil tem são as chaves para o crescimento estabilizado. "Tem o nosso potencial agrícola, o turismo, a estabilidade político e religiosa e o Brasil também tem uma das taxas de retorno mais altas do mundo", conta. O que o professor questiona é que o caminho político pode, realmente, levar o País ao "fundo do poço" para, depois, poder crescer efetivamente.
Na opinião de Vasconcellos, a principal ação do Governo Federal seria investir na reforma na previdência, que onera o custo do governo. Em seguida, a reforma tributária pode ajudar o governo a aumentar a competitividade das empresas.
Quanto aos índices de inflação, o professor afirma, a tendência é que o Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) - índice que serve de base para o acordo com o FMI
- seja mais alto do que o Índice Nacional de Produtos ao Consumidor (INPC). Isso porque o INPC é mais voltado para o preço de produtos ao consumidor, excluindo os importados.
"O IGP sofre mais o reflexo da desvalorização, porque leva em conta os produtos importados, da construção...", afirma.