08 de julho de 2026
Geral

Torcedores de futebol

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 10 min

O torcedor

O torcedor

Texto: Gustavo Cândido

Existem basicamente dois tipos de torcedores de futebol: uns que simplesmente se dizem torcedores e só acompanham "seu" time quando eles vencem e outros, que realmente conhecem e acompanham o esporte, amam seus clubes e sabem tudo sobre eles. O professor de gramática Sinuhe Daniel Preto se encaixa na segunda categoria mas vai além, é completamente fanático pelo Palmeiras, a ponto de saber escalações, guardar datas e resultados e chegar ao extremo de quase brigar pelo clube. Ele é, como já diz o título, "o torcedor", aquele que realmente faz diferença quando está no estádio, se transformando no 12º jogador do time.

Jornal de Cidade - Como começou a sua paixão pelo futebol?

Sinuhe Daniel Preto - Até os onze anos eu não gostava de futebol. Quando mudamos para Santos eu fiz amizade com um cara chamado João Luiz que estudava comigo, que gostava muito de futebol. Até então eu não tinha jogado nem pelada na rua. Ele, que era santista fanático, começou a me levar para jogar futebol na praia e queira que eu torcesse para o Santos. O João Luiz colecionava a revista Placar e a gente ia ver o treino do Santos na Vila Belmiro. Vi o Pelé encerrar a carreira e comecei a gostar de futebol e freqüentar o estádio, que era do lado da minha casa.

JC - Como você se tornou palmeirense?

Sinuhe - Meu cunhado, aqui de Bauru, um dia me deu uma camisa do Palmeiras, nº 3, como a do Luís Pereira. Já estava com 13 anos e comecei gostar muito do Palmeiras. Antes disso, aqui em Bauru, fui a uma pizzaria uma vez e vi muitos japoneses comemorando a vitória do Palmeiras do campeonato brasileiro. Tinha um inteirinho de verde que foi tirando a roupa e ficou só de cueca, verde também. Aquilo para mim foi demais, um cara ser palmeirense daquele jeito me impressionou e comecei a gostar do time. Com 18, 20 anos passei a ver o clube como uma extensão de mim, eu era o Palmeiras. Se o Palmeiras perdesse um jogo era eu quem estava perdendo. Criei uma identidade imensa com o clube que não dá para explicar, coisa de mudar o meu comportamento, me fazer chorar ou rir. Melhorei um pouco agora com o nascimento do meu filho, mas minha mulher já sofreu muito com isso.

JC - Você se abalava por uma derrota, pelo comentário dos outros?

Sinuhe - Muito. Eu dou aula, de vez em quando o pessoal falava que eu não dava aula de gramática e sim de futebol. Isso chegou até a me atrapalhar um pouco mas melhorou agora. Com o nascimento do meu filho agora a minha família

é o mais importante. Antes eu me apeguei ao Palmeiras como se ele fosse minha família, tudo para mim, até hoje eu não vejo jogadores como mercenários.

JC - Como foi agüentar os jogos da Libertadores?

Sinuhe - Com os jogos da Libertadores tive várias enxaquecas, comprovadamente por tensão. O meu maior medos nessas decisões toda é o sarro que os outros tiram se o time perde. Quando o time está perdendo eu começo a lembrar de caras que vão me tirar um sarro depois. Como dou aula, quando estou na sala é para ensinar e se eu falo do Palmeiras quando ganha tem sempre um que reclama e diz que

"quer aula" e não futebol, tudo bem. Só que quando o Palmeiras perde não tem um que não tire o um sarro, o que é uma grande injustiça. O que eu faço quando o Palmeiras ganha é ir com a camisa apenas, não preciso falar nada. Quando perde é duro porque juntam-se todos contra mim, santistas, corintianos, são-paulinos...

JC - Já brigou por isso?

Sinuhe - Já perdi a boa, briguei com alunos, perdi amizades, xinguei. Já tive comportamentos irracionais que começam com uma brincadeira e logo depois vira ofensa. Modéstia a parte eu tenho muitos argumentos e muita memória, lembro de jogos de 1970 quando esses caras que tiram sarro nem eram nascidos.

JC - O Palmeiras tem mais títulos do que o Corinthians em todos os campeonatos menos no paulista onde perde apenas por dois. Em compensação tem títulos mais importantes. Também no confronto direto é vencedor e fez mais gols, isso tudo sendo 4 anos mais novo. Não te incomoda especialmente que um corintiano te tire sarro?

Sinuhe - Isso me irrita muito porque todo mundo só quer saber do momento, onde já se viu o Lance colocar na capa: "Corinthians campeão do século", o verdadeiro campeão do século é o Palmeiras, que tem 47 títulos no total, nacionais e internacionais. Em 51 o Palmeiras venceu a Copa Rio que era um campeonato de nível, entre clubes importantes como a Juventus de Turim, que credibilidade vai ter esse próximo Mundial da Fifa que vai acontecer no Brasil, onde os representantes brasileiros vão ser Vasco e Corinthians? O Vasco é o campeão brasileiro de 98. É tudo armação, tudo comercial. Porque então não colocar o São Paulo e o Flamengo, que já foram campeões da Toyota Cup? Porque o Corinthians participa da Copa Mercosul e o Santos, bi-mundial e bi da Libertadores, não?

JC - Como você fica em dia de jogo?

Sinuhe - Eu me transformo e tenho certos rituais, como usar a mesma cueca e a mesma meia, por exemplo. Uma vez em fiz minha sogra lavar e passar uma cueca só porque era dia de jogo. Descobri às seis que a cueca estava suja, o jogo era às nove. Ela lavou correndo na máquina e secou com o ferro para eu colocá-la ainda semi-úmida para ver o jogo. Também coloco minicraques (bonequinhos de plástico com a cara dos jogadores) em cima da televisão. Nas finais da Libertadores uma mulher levou uma imagem de Santo Expedito para o Felipão (Luiz Felipe Scolari) para dar sorte e o Palmeiras ganhou, então o santo ficou ligado ao Palmeiras. Então eu assisti o resto dos jogos com uma imagem do santo na mão, inclusive na hora dos pênaltis eu clamei aos céus, fiz várias promessas para o time vencer e ele venceu.

JC - Você acha que foi sua fé?

Sinuhe - Foi fé. O futebol mexe com essa mistura mas só quem gosta entende. Quem está de fora pode achar tudo ridículo, por exemplo: quando eu vou comprar uma escova de dentes eu escolho uma verde, o mesmo com qualquer outra peça que entra em casa, se puder ser verde, melhor. Algumas coisas que também citam a palavra verde ou o Palmeiras, eu sempre vivo lembrando. Mas nem todo mundo é assim.

JC - Como é o palmeirense comum?

Sinuhe - Ele é um cara "na dele", que não compra a camisa, quando compra não a coloca quando o time perde...

JC - Por que?

Sinuhe - O Palmeiras tem torcedores de várias origens, os italianos, já que o clube tem origem na colônia italiana, os japoneses, não se sabe porque e o pessoal da moda, que torce para o time só porque agora está vencendo. Tem também aquele que nem faz questão de dizer que torce. No geral, são caras tímidos, introvertidos, que se manifestam na hora de comemorar um título, por exemplo. O palmeirense são é um apaixonado como o corintiano nem um modista como o são-paulino, é um cara de essência, que pode passar um bom tempo sem ser percebido.

JC - Então você é um palmeirense com espírito de corintiano?

Sinuhe - Eu acho que sim. Muita gente me fala isso e pergunta porque eu não torço para o Corinthians.

JC - Você acha que o palmeirense é assim por causa do grande intervalo sem títulos que viveu na década de 80?

Sinuhe - Isso talvez seja um fator, mas no caso do Corinthians o resultado foi inverso, a torcida aumentou. Isso também

é comum no corintiano, esse amor mesmo sem título. O corintiano gosta de carrinho, de jogo ganho nos 49 do segundo tempo, mas hoje o time toca bem a bola. Alguns dizem, inclusive que o Palmeiras parece o Corinthians e o Corinthians parece o Palmeiras.

JC - Você gosta do futebol de resultado do Palmeiras?

Sinuhe - Gosto, o Felipão é o meu ídolo, junto com o Paulo Nunes. Eu odiava os dois quando estavam no Grêmio. Hoje acho que o futebol de resultado é o ideal. O que você prefere a Seleção de 82, que deu show e perdeu ou a de 94, que ganhou a copa nos pênaltis? Eu prefiro a de 94. A seleção de 82, como o Dunga já disse, ganhou da União Soviética com a ajuda do juiz, da Escócia e da Nova Zelândia, que não são times fortes. Venceu apenas uma partida de verdade, contra a Argentina, quando pegou a Itália, perdeu. O que adianta o Palmeiras de 96, que fazia 100 gols e perdia a final em casa? É melhor agora vencer nos pênaltis mas vencer.

JC - Como você acha que deveria ser o palmeirense?

Sinuhe - Mais apaixonado, que coloca a camisa. Não digo ser fanático como eu já fui mais e ainda sou, o fanatismo não leva a nada e altera o julgamento das pessoas, fazendo com elas sofram e faça os outros sofrem também. Minha mulher já sofreu muito comigo mas melhorei. Acho fanatismo uma ignorância extrema e estou melhorando disso.

JC - Você vai à Tóquio ver o jogo contra o Manchester?

Sinuhe - É uma época complicada por causa da escola e dos vestibulares, mas quero muito ir, não sei se vai ser possível. Para alguns parece que não faz diferença mas um dia vou falar para o meu filho e meus netos, que estive lá e fiz parte, como na final da Libertadores, dia 16/06/99, contra o Deportivo de Cáli, que é uma experiência que está na minha memória e que eu vou levar comigo para sempre.

JC - Qual o seu time favorito do Palmeiras?

Sinuhe - O time de 93 e 94, que tirou o clube da fila.

JC - Você gosta mais do Palmeiras ou da Seleção?

Sinuhe - É claro que eu vibro com o Brasil, principalmente nas Copas, mas vou sempre torcer mais para o Palmeiras, para mim a conquista da Libertadores foi mais importante, eu não vou esquecer.

JC - Você não tem um segundo time?

Sinuhe - O Noroeste, pena que não é um time sério e a cidade não ajuda. Amo bastante o Noroeste quando jogava contra o Palmeiras torcia para o Noroeste, por incrível que pareça. O Noroeste é paixão de poucos, torcida de alguns e polêmica de todos. Todo mundo gosta de criticar e dar opinião sobre o time, mas ninguém dá apoio de verdade.

JC - Você já passou a paixão pelo Palmeiras para o seu filho?

Sinuhe - Já, mas não quero que ele seja fanático como eu. Ele canta parte do hino, gosta do time mas eu não quero que ele seja obrigado a torcer pelo Palmeiras. Vou esperar ele escolher, ele não sendo corintiano pode ser qualquer coisa.

JC - O que você diria para as pessoas que acham você exagerado demais?

Sinuhe - Eu gostaria que as pessoas respeitassem a paixão porque ela acontece em todos os esportes. Um cara que gosta de rodeio fica o ano todo preparando a roupa para ir até Barretos e se sentir um peão de verdade. Não existem pessoas que gostam de aeromodelismo? Ou são fanáticos por grupos de rock, ou por qualquer religião? O futebol é a minha paixão e eu agradeço o meu cunhado Bertinho Monteiro por ter me mostrado o Palmeiras. Gostaria que as pessoas respeitassem minha paixão.