08 de julho de 2026
Geral

Cinema nacional

Redação
| Tempo de leitura: 11 min

Exibição de "Dois Córregos" deixa a cidade na expectativa

Exibição de "Dois Córregos" deixa cidade na expectativa

Dois Córregos - Moradores de Dois Córregos vivem um clima de total expectativa às vesperas da exibição do filme que leva o nome da cidade e desde que ficou pronto só foi exibido no Festival de Locarno (na Suíça) e no Festival de Gramado. Em Dois Córregos, o filme será exibido na noite do próximo sábado, 21 de agosto. Em São Paulo e no Rio de Janeiro o filme deve estrear dia 27 de agosto, pouco antes de ir ao Festival de Toronto (Canadá).

Grande parte de "Dois Córregos", de Carlos Reichenbach foi rodada em Dois Córregos, num sítio especialmente preparado para as locações. Mas houve cenas também na cidade de Cidreira, no litoral do Rio Grande do Sul e na Serra da Cantareira, em São Paulo

O filme conta a história de duas adolescentes e uma jovem mulher que passam um fim de semana prolongado num sítio em Dois Córregos. No contato com um homem estranho e fascinante, que está ilegalmente no País, despertam para sentimentos inesperados.

As filmagens em Dois Córregos foram realizada entre março e abril do ano passado e contaram com a mobilização de pelo menos 200 figurantes da própria cidade.

Preparativos

Para a exibição do filme, a Prefeitura de Dois Córregos está empenhada na preparação da área verde do ginásio de esportes, onde será instalado um telão de 15x9m, onde serão projetadas as imagens. Desde o começo do mês, jardineiros trabalham no local para dar um novo aspecto à área. O gramado onde os espectadores vão se acomodar tem 4,8 mil metros quadrados. O projetor ficará numa estrutura elevada no meio do público, a 50m do telão.

Uma atração à parte para o público que for à estréia será a presença de parte do elenco. A intenção da Prefeitura e Câmara Municipal que cuidam da divulgação da exibição, que será gratuita, é tornar a projeção de "Dois Córregos" um evento regional e para tanto já iniciaram a expedição de convites.

Direção de arte

A preparação da cidade de Dois Córregos e do pequeno ranho que se transformou em casarão para as filmagens consumiu cerca de trinta dias. O diretor de arte, Luís Rossi, conta que, aproveitando as características da cidade,

"que já trazia a imagem dos anos 60/70", buscou dar a ela um ar festivo e religioso. "Lembro que na minha infância, à época da repressão, as famílias não saíam da igreja, aconteciam procissões, a religiosidade dominava o ambiente", explica. Ao mesmo tempo, a movimentação política foi resgatada com a inserção de elementos típicos como panfletos, cartazes etc. Isso deu a Dois Córregos a cara que o diretor queria.

O casarão onde convivem os quatro personagens era na verdade duas casinhas. Elas foram unidas por uma rápida reforma, de modo a possibilitar os movimentos de câmera e as tomadas tão desejadas por Reichenbach, abarcando a um só tempo um frondoso flamboyant, o córrego e o céu.

Fotografia

Em Dois Córregos, o diretor de fotografia, Pedro Farkas, procurou marcar bem as duas épocas do filme, fazendo com que as cores do passado fossem vivas e as do presente, menos saturadas.

O ambiente do piano - "um importante personagem do filme", como ressalta ele - recebeu atenção especial. "A sala onde ele estava foi iluminada de modo a ficar mais fora da realidade do sítio". O instrumento ficou 'protegido' da luz que viria do exterior e, com isso preservamos aquela atmosfera".

Além disso, trabalhou-se com o forte contraste entre certas seqüências - as da praia de Cidreira e as da guerrilha

(estas realizadas em super 8 e preto e branco) -, demarcando nitidamente o espaço onde se constróis a memória (no caso, as recordações de Hermes) e aquele onde há o mundo real (as lembranças de Ana Paula, no tempo passado e, o momento presente).

Sinopse

Final dos anos 90

Ana Paula (Beth Goulart) vai ao interior de São Paulo recuperar a casa de campo que herdou dos pais, atualmente ocupada por grileiros. Constrangida com a indiferencá de seu advogado e com a rispidez da ação policial, ela lembra a última vez que esteve ali.

Final dos anos 60

Aos 17 anos, Ana Paula (Vanessa Goulart) traz a colega Lydia (Luciana Brasil), precoce e exímia pianista, para conhecer o seu reduto em Dois Córregos. As moças passam quatro dias na companhia de Teresa (Ingra Liberato) - empregada de confiança, meio pajem, meio irmã de criação de Ana Paula

- e e Hermes (Carlos Alberto Riccelli), o tio que morou no Rio Grande do Sul e que Ana Paula vê pela primeira vez.

Ela descobre que o tio, envolvido com grupos ativistas de extrema esquerda, está escondido na casa enquanto tenta oficializar sua volta ao país, o que o obriga a manter-se afastado dos filhos.

Jovem e imatura, alienada dos acontecimentos políticos que chacoalham o país, Ana Paula procura entender as razões que a distanciam do tio. Lydia, por sua vez, filha de um militar de alta patente, expõe em conversas todos os preconceitos que assimilou do pai, mas encurtará a distância entre seu mundo e o de Hermes por intermédio das músicas que executa ao piano.

A efêmera convivência das ingênuas adolescentes com o amargurado, taciturno e belo clandestino transforma aquele feriado num momento capital de suas vidas, quase um rito de passagem.

Ao mesmo tempo, mostra a Teresa a possibilidade da afeição

íntegra e sensual.

Entretanto, um incidente envolvendo um quinto personagem, o sargento Percival (Kaio César), namorado de Teresa, ocasiona a súbita partida de Hermes do sítio.

Final dos anos 90

Ana Paula soluciona só agora o mistério que envolveu o destino de Hermes, homem que amou em segredo durante anos, e resolve finalmente suas diferenças com o passado.

Elenco

Hermes ....Carlos Alberto Riccelli

Ana Paula (adulta)....Beth Goulart

Teresa.... Ingra Liberato

Ana Paula (jovem).... Vanessa Goulart

Lydia .... Luciana Brasil

Sargento Percival .....Kaio César

Dr. Armando Sumaqueiro...Luiz Damasceno

Pimpolho.....Thomas Jorge

Oficial de Justiça.....Sergio Ferrara

Motorista Cláudio.....Antoune Nakhle

Tânia....Cristina Cavalcanti

Mulher de Percival....Lina Agifu

Caseiro do Grileiro (José) .....Zé da Ilha

Filho de Hermes....Ingrid Silveira e Igor Silveira

Toninho.... Paulo Mendes

Mãe de Pimpolho... Jacqueline Jorge

Sr. Tenório... Francisco Cestari

Pai de Pimpolho....Sebastião Manoel de Abreu

Instrutor de Armas... Maurity Fornazaro

Guerrilheiros..... Joana Curvorita Martins

Fabiana Barbosa, Déia Brito, Sérgio Cavalcante, Maurílio Taddeu, Marcelo Araújo (Jacó), José Jerônimo, André Mürrer

Ficha Técnica

um filme escrito e dirigido por

Carlos Reichenbach

uma produção Sara Silveira

uma co-produção Dezenove

Som e Imagens - TV Cultura

- Secretaria de Estado da

Cultura de São Paulo

produtora executiva Maria

Ionescu

diretores de produção Caio Gullane e Fabiano Gullane

diretor de fotografia Pedro Farkas

operador de câmera Pedro Ionescu

montagem Cristina Amaral

som direto Gabriel Coll e Pedro Mejia

edição de som Eduardo Santos Mendes

mixagem José Luiz Sasso

preparação das atrizes Fátima Toledo

produtora de elenco Vivian Golombek

assistentes de direção Daniel Chaia e Sérgio Concílio

diretor de arte Luís Rossi

figurinos André Velloso

música original Ivan Lins

arranjos e produção musical Nelson Ayres

música incidental Mario Gennari Filho, Eduardo Souto, Alexander Scriabin, César Franck, Robert Schumann, Ferrúcio Busoni, Fréderic Chopin, Franz Schubert.

assessoria de imprensa Margarida Oliveira telefone: 815-2537/ e-mail: margom@uol.com.br e Flávia Arruda Miranda telefone: 3872-6846/ e-mail: marketing@procultura.com.br

Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. Rua Professor Basileu Garcia, 87 - Jd. América - CEP: 05410-000/ Telefone: 3064-8001/ e-mail: dezenove@uol.com.br

distribuição Rio Filme

filmado nas cidades de Dóis Córregos - Estado de São Paulo e Cidreira - Estado do Rio Grande do Sul

negativos Eastmancolor Kodak

laboratórios de imagem revelação e processeamento Líder Cine Laboratórios S.A.

Rio de Janeiro - Brasil

cópias e internegativos CFI - Consolidated Film Industries Los Angeles - EUA

blow-up Super 8-35 mm Interformat San Francisco - USA.

laboratório de som JLS Facilidades Sonoras São Paulo

Dois Córregos foi realizado com o incentivo do PAC - Projeto de Apoio ao Cinema - Secretaria Municipal de Cultura Prefeitura de São Paulo e PIC - Projeto de Incentivo ao Cinema - TV Cultura - Secretaria de Estado da Cultura - Governo do Estado de São Paulo - Empresas Investidoras pela Lei do Audiovisual

(Lei 8685/93).

Banco do Estado de São Paulo S/A

Banespa S/A Corretora de Câmbio e Títulos

Banespa S/A Corretora de Seguros

Banespa S/A Arrecadamento Mercantil

Banespa S/A Administração de Cartões de Créditos e Serviços

Sabesp Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo S/A

Eletropaulo Eletricidade do Estado de São Paulo S/A

CRT - Cia Riograndense de Telecomunicações

CEEE - Cia Estadual de Energia Elétrica

GZT Confecções Materiais de Construção e Serviços Ltda. Grazziotin S/A

Dois Córregos por Carlos Reichenbach

Foi em 1960, algumas semanas após a morte de meu pai, que conheci a cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo. Estudava em um colégio interno em Rio Claro e um colega me convidou para conhecer sua cidade natal. Lembro o impacto provocado pela visão da estação de trem local, uma reprodução fiel, obviamente reduzida, da estação de Marselha, França.

Estação de trens e plataformas marítimas são imagens recorrentes em meus filmes. Como metáforas da percepção de perda, foram as primeiras obsessões imagéticas que me aproximaram do cineasta italiano Valério Zurlini.

Zurlini e Dois Córregos, gênese de meu décimo segundo longa-metragem.

Desde "O Paraíso Proibido", cujo personagem interpretado pelo ator Jonas Bloch é um duplo do Alain Delon de "A Primeira Noite de Tranquilidade", venho perseguindo exaustivamente a atmosfera desencantada e existencial, os tempos "de um quarteto e cordas" e os desfechos submetidos ao inexorável que tanto caracterizam o cinema de sentimentos de Zurlini.

Escrevi e filmei Dois Córregos tendo como fonte inspiradora a cópia em vídeo de "A Moça com a Valise", presente do amigo e escritor Márcio de Souza. Mas, após ver a cópia final pela terceira vez, descubro estarrecido que meu débito é com o filme anterior de Zurlini, o também extraordinário "Versão Violento"

(State Violenta).

Poucos filmes na história do cinema mostraram de maneira tão intensa e poética o momento histórico e a realidade política invadindo o cotidiano sentimental das pessoas.

Assim como Zurlini, também me interesso pelos personagens masculinos à deriva, à esquerda da esquerda, subversivos por sua generosidade obscena e que almejam uma "ordem sem coação" em sua fé irrestrita na utopia. Incompreendidos em seu tempo e fragilizados ao máximo, busco trabalhar estes "heróis" sem a complacência e a afetividade dos meus personagens femininos.

Em Dois Córregos, entre a transgressão de Hermes e a renúncia de Teresa, trafegam a geração do acordo MEC-Usaid (Ana Paula e Lydia) e marionetes do AI-5.

Busquei centralizar a "ação" dramática no trivial do convívio entre um homem maduro e angustiado com duas jovens imaturas e uma mulher carente, inspirando-me diretamente nos dolorosos dias em que meu padrinho de batismo passou escondido na casa de campo quemeus pais tinham à beira da represa Billings. O expediente de trocar o sexo das adolescentes e a opção pela tônica romântica, à diferença do real, buscou acentuar a idéia de "rito de passagem" e de um processo de desalienação. Mas foi a partir de uma imagem, que me marcou profundamente na puberdade, que o filme começou a existir no papel e no celulóide: alguém escreve cartas para os filhos, justificando seus atos para si mesmo, mas não consegue enviar...

Mais uma vez a música é personagem fundamental de meus filmes. É ela que possibilita existir o entendimento entre personagens antagônicos. Foi um privilégio trabalhar com Ivan Lins e Nelson Ayres. Como costumo filmar com play-back, usando músicas conhecidas como referência, o desafio ao compositor e ao arranjador foi se aproximar ao máximo da sugestão. São preciosas as versões pessoalíssimas trabalhadas a partir de Joe Cocker (You Are So Beautiful) no tema da cena de amor e no John Lennon póstumo (Free as a Byrd) na seqüência da chuva.

Sob a tônica musical, Dois Córregos se inspira em César Frank pela busca de uma atmosfera melancólica e impressionista. Assumidamente um filme triste, como as felicidades efêmeras, mas evitando a todo custo a sedução da chantagem.

Sobre o Diretor

Carlos Reichenbach nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1945. Criou-se em São Paulo. Filho e neto de editores de livros, imaginou que seguiria o caminho da família, mas apaixonou-se pelo cinema. E pela música. Durante muitos anos dividiu-se entre os dois.

Cursou a Escola Superior de Cinema de São Luiz, onde pôde aprender com Anatol Rosenfeld, Luís Sérgio Person e Roberto Santos, entre outros. Realizou seu primeiro curta-metragem, Esta Rua Tão Augusta, em 67.

Ao lado de outros cineastas paulistas, entre 67/70 realizou produções de baixo orçamento e muita inventividade, promovendo o nascimento daquele que ficou conhecido como o "cinema pós-novo"

(ou Boca do Lixo), entre o experimentalismo e o cinema popular. Nos anos 70 atuou em trabalhos de outros diretores e fez a direção de fotografia de vários filmes. Em 1974, abandonou uma atividade de dois anos no cinema publicitário e escreveu, fotografou, produziu e dirigiu "Lilian M., Relatório Confidencial", numa opção radical pelo cinema autoral e artesanal. Dez anos depois, foi este mesmo filme que revelou o cinema de Reichenbach para a crítica européia, através do Festival de Rotterdam, do qual participou por cinco anos consecutivos.

Foi duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas com "Amor, Palavra Prostituta" e "Anjos do Arrabalde", e recebeu o prêmio de melhor filme no 30º Festival de Cinema e Pesaro, Itália, por "Alma Corsária".

Autora, o cinema de Reichenbach não só continua a nascer de roteiros seus como, algumas vezes, chega a ser musicado pelo próprio diretor.

Dois Córregos, seu 12º longa-metragem, integra uma produção que conta com vários curtas, médias e alguns episódios para longas-metragens.