Exibição de "Dois Córregos" deixa a cidade na expectativa
Exibição de "Dois Córregos" deixa cidade na expectativa
Dois Córregos - Moradores de Dois Córregos vivem um clima de total expectativa às vesperas da exibição do filme que leva o nome da cidade e desde que ficou pronto só foi exibido no Festival de Locarno (na Suíça) e no Festival de Gramado. Em Dois Córregos, o filme será exibido na noite do próximo sábado, 21 de agosto. Em São Paulo e no Rio de Janeiro o filme deve estrear dia 27 de agosto, pouco antes de ir ao Festival de Toronto (Canadá).
Grande parte de "Dois Córregos", de Carlos Reichenbach foi rodada em Dois Córregos, num sítio especialmente preparado para as locações. Mas houve cenas também na cidade de Cidreira, no litoral do Rio Grande do Sul e na Serra da Cantareira, em São Paulo
O filme conta a história de duas adolescentes e uma jovem mulher que passam um fim de semana prolongado num sítio em Dois Córregos. No contato com um homem estranho e fascinante, que está ilegalmente no País, despertam para sentimentos inesperados.
As filmagens em Dois Córregos foram realizada entre março e abril do ano passado e contaram com a mobilização de pelo menos 200 figurantes da própria cidade.
Preparativos
Para a exibição do filme, a Prefeitura de Dois Córregos está empenhada na preparação da área verde do ginásio de esportes, onde será instalado um telão de 15x9m, onde serão projetadas as imagens. Desde o começo do mês, jardineiros trabalham no local para dar um novo aspecto à área. O gramado onde os espectadores vão se acomodar tem 4,8 mil metros quadrados. O projetor ficará numa estrutura elevada no meio do público, a 50m do telão.
Uma atração à parte para o público que for à estréia será a presença de parte do elenco. A intenção da Prefeitura e Câmara Municipal que cuidam da divulgação da exibição, que será gratuita, é tornar a projeção de "Dois Córregos" um evento regional e para tanto já iniciaram a expedição de convites.
Direção de arte
A preparação da cidade de Dois Córregos e do pequeno ranho que se transformou em casarão para as filmagens consumiu cerca de trinta dias. O diretor de arte, Luís Rossi, conta que, aproveitando as características da cidade,
"que já trazia a imagem dos anos 60/70", buscou dar a ela um ar festivo e religioso. "Lembro que na minha infância, à época da repressão, as famílias não saíam da igreja, aconteciam procissões, a religiosidade dominava o ambiente", explica. Ao mesmo tempo, a movimentação política foi resgatada com a inserção de elementos típicos como panfletos, cartazes etc. Isso deu a Dois Córregos a cara que o diretor queria.
O casarão onde convivem os quatro personagens era na verdade duas casinhas. Elas foram unidas por uma rápida reforma, de modo a possibilitar os movimentos de câmera e as tomadas tão desejadas por Reichenbach, abarcando a um só tempo um frondoso flamboyant, o córrego e o céu.
Fotografia
Em Dois Córregos, o diretor de fotografia, Pedro Farkas, procurou marcar bem as duas épocas do filme, fazendo com que as cores do passado fossem vivas e as do presente, menos saturadas.
O ambiente do piano - "um importante personagem do filme", como ressalta ele - recebeu atenção especial. "A sala onde ele estava foi iluminada de modo a ficar mais fora da realidade do sítio". O instrumento ficou 'protegido' da luz que viria do exterior e, com isso preservamos aquela atmosfera".
Além disso, trabalhou-se com o forte contraste entre certas seqüências - as da praia de Cidreira e as da guerrilha
(estas realizadas em super 8 e preto e branco) -, demarcando nitidamente o espaço onde se constróis a memória (no caso, as recordações de Hermes) e aquele onde há o mundo real (as lembranças de Ana Paula, no tempo passado e, o momento presente).
Sinopse
Final dos anos 90
Ana Paula (Beth Goulart) vai ao interior de São Paulo recuperar a casa de campo que herdou dos pais, atualmente ocupada por grileiros. Constrangida com a indiferencá de seu advogado e com a rispidez da ação policial, ela lembra a última vez que esteve ali.
Final dos anos 60
Aos 17 anos, Ana Paula (Vanessa Goulart) traz a colega Lydia (Luciana Brasil), precoce e exímia pianista, para conhecer o seu reduto em Dois Córregos. As moças passam quatro dias na companhia de Teresa (Ingra Liberato) - empregada de confiança, meio pajem, meio irmã de criação de Ana Paula
- e e Hermes (Carlos Alberto Riccelli), o tio que morou no Rio Grande do Sul e que Ana Paula vê pela primeira vez.
Ela descobre que o tio, envolvido com grupos ativistas de extrema esquerda, está escondido na casa enquanto tenta oficializar sua volta ao país, o que o obriga a manter-se afastado dos filhos.
Jovem e imatura, alienada dos acontecimentos políticos que chacoalham o país, Ana Paula procura entender as razões que a distanciam do tio. Lydia, por sua vez, filha de um militar de alta patente, expõe em conversas todos os preconceitos que assimilou do pai, mas encurtará a distância entre seu mundo e o de Hermes por intermédio das músicas que executa ao piano.
A efêmera convivência das ingênuas adolescentes com o amargurado, taciturno e belo clandestino transforma aquele feriado num momento capital de suas vidas, quase um rito de passagem.
Ao mesmo tempo, mostra a Teresa a possibilidade da afeição
íntegra e sensual.
Entretanto, um incidente envolvendo um quinto personagem, o sargento Percival (Kaio César), namorado de Teresa, ocasiona a súbita partida de Hermes do sítio.
Final dos anos 90
Ana Paula soluciona só agora o mistério que envolveu o destino de Hermes, homem que amou em segredo durante anos, e resolve finalmente suas diferenças com o passado.
Elenco
Hermes ....Carlos Alberto Riccelli
Ana Paula (adulta)....Beth Goulart
Teresa.... Ingra Liberato
Ana Paula (jovem).... Vanessa Goulart
Lydia .... Luciana Brasil
Sargento Percival .....Kaio César
Dr. Armando Sumaqueiro...Luiz Damasceno
Pimpolho.....Thomas Jorge
Oficial de Justiça.....Sergio Ferrara
Motorista Cláudio.....Antoune Nakhle
Tânia....Cristina Cavalcanti
Mulher de Percival....Lina Agifu
Caseiro do Grileiro (José) .....Zé da Ilha
Filho de Hermes....Ingrid Silveira e Igor Silveira
Toninho.... Paulo Mendes
Mãe de Pimpolho... Jacqueline Jorge
Sr. Tenório... Francisco Cestari
Pai de Pimpolho....Sebastião Manoel de Abreu
Instrutor de Armas... Maurity Fornazaro
Guerrilheiros..... Joana Curvorita Martins
Fabiana Barbosa, Déia Brito, Sérgio Cavalcante, Maurílio Taddeu, Marcelo Araújo (Jacó), José Jerônimo, André Mürrer
Ficha Técnica
um filme escrito e dirigido por
Carlos Reichenbach
uma produção Sara Silveira
uma co-produção Dezenove
Som e Imagens - TV Cultura
- Secretaria de Estado da
Cultura de São Paulo
produtora executiva Maria
Ionescu
diretores de produção Caio Gullane e Fabiano Gullane
diretor de fotografia Pedro Farkas
operador de câmera Pedro Ionescu
montagem Cristina Amaral
som direto Gabriel Coll e Pedro Mejia
edição de som Eduardo Santos Mendes
mixagem José Luiz Sasso
preparação das atrizes Fátima Toledo
produtora de elenco Vivian Golombek
assistentes de direção Daniel Chaia e Sérgio Concílio
diretor de arte Luís Rossi
figurinos André Velloso
música original Ivan Lins
arranjos e produção musical Nelson Ayres
música incidental Mario Gennari Filho, Eduardo Souto, Alexander Scriabin, César Franck, Robert Schumann, Ferrúcio Busoni, Fréderic Chopin, Franz Schubert.
assessoria de imprensa Margarida Oliveira telefone: 815-2537/ e-mail: margom@uol.com.br e Flávia Arruda Miranda telefone: 3872-6846/ e-mail: marketing@procultura.com.br
Dezenove Som e Imagens Produções Ltda. Rua Professor Basileu Garcia, 87 - Jd. América - CEP: 05410-000/ Telefone: 3064-8001/ e-mail: dezenove@uol.com.br
distribuição Rio Filme
filmado nas cidades de Dóis Córregos - Estado de São Paulo e Cidreira - Estado do Rio Grande do Sul
negativos Eastmancolor Kodak
laboratórios de imagem revelação e processeamento Líder Cine Laboratórios S.A.
Rio de Janeiro - Brasil
cópias e internegativos CFI - Consolidated Film Industries Los Angeles - EUA
blow-up Super 8-35 mm Interformat San Francisco - USA.
laboratório de som JLS Facilidades Sonoras São Paulo
Dois Córregos foi realizado com o incentivo do PAC - Projeto de Apoio ao Cinema - Secretaria Municipal de Cultura Prefeitura de São Paulo e PIC - Projeto de Incentivo ao Cinema - TV Cultura - Secretaria de Estado da Cultura - Governo do Estado de São Paulo - Empresas Investidoras pela Lei do Audiovisual
(Lei 8685/93).
Banco do Estado de São Paulo S/A
Banespa S/A Corretora de Câmbio e Títulos
Banespa S/A Corretora de Seguros
Banespa S/A Arrecadamento Mercantil
Banespa S/A Administração de Cartões de Créditos e Serviços
Sabesp Cia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo S/A
Eletropaulo Eletricidade do Estado de São Paulo S/A
CRT - Cia Riograndense de Telecomunicações
CEEE - Cia Estadual de Energia Elétrica
GZT Confecções Materiais de Construção e Serviços Ltda. Grazziotin S/A
Dois Córregos por Carlos Reichenbach
Foi em 1960, algumas semanas após a morte de meu pai, que conheci a cidade de Dois Córregos, no interior de São Paulo. Estudava em um colégio interno em Rio Claro e um colega me convidou para conhecer sua cidade natal. Lembro o impacto provocado pela visão da estação de trem local, uma reprodução fiel, obviamente reduzida, da estação de Marselha, França.
Estação de trens e plataformas marítimas são imagens recorrentes em meus filmes. Como metáforas da percepção de perda, foram as primeiras obsessões imagéticas que me aproximaram do cineasta italiano Valério Zurlini.
Zurlini e Dois Córregos, gênese de meu décimo segundo longa-metragem.
Desde "O Paraíso Proibido", cujo personagem interpretado pelo ator Jonas Bloch é um duplo do Alain Delon de "A Primeira Noite de Tranquilidade", venho perseguindo exaustivamente a atmosfera desencantada e existencial, os tempos "de um quarteto e cordas" e os desfechos submetidos ao inexorável que tanto caracterizam o cinema de sentimentos de Zurlini.
Escrevi e filmei Dois Córregos tendo como fonte inspiradora a cópia em vídeo de "A Moça com a Valise", presente do amigo e escritor Márcio de Souza. Mas, após ver a cópia final pela terceira vez, descubro estarrecido que meu débito é com o filme anterior de Zurlini, o também extraordinário "Versão Violento"
(State Violenta).
Poucos filmes na história do cinema mostraram de maneira tão intensa e poética o momento histórico e a realidade política invadindo o cotidiano sentimental das pessoas.
Assim como Zurlini, também me interesso pelos personagens masculinos à deriva, à esquerda da esquerda, subversivos por sua generosidade obscena e que almejam uma "ordem sem coação" em sua fé irrestrita na utopia. Incompreendidos em seu tempo e fragilizados ao máximo, busco trabalhar estes "heróis" sem a complacência e a afetividade dos meus personagens femininos.
Em Dois Córregos, entre a transgressão de Hermes e a renúncia de Teresa, trafegam a geração do acordo MEC-Usaid (Ana Paula e Lydia) e marionetes do AI-5.
Busquei centralizar a "ação" dramática no trivial do convívio entre um homem maduro e angustiado com duas jovens imaturas e uma mulher carente, inspirando-me diretamente nos dolorosos dias em que meu padrinho de batismo passou escondido na casa de campo quemeus pais tinham à beira da represa Billings. O expediente de trocar o sexo das adolescentes e a opção pela tônica romântica, à diferença do real, buscou acentuar a idéia de "rito de passagem" e de um processo de desalienação. Mas foi a partir de uma imagem, que me marcou profundamente na puberdade, que o filme começou a existir no papel e no celulóide: alguém escreve cartas para os filhos, justificando seus atos para si mesmo, mas não consegue enviar...
Mais uma vez a música é personagem fundamental de meus filmes. É ela que possibilita existir o entendimento entre personagens antagônicos. Foi um privilégio trabalhar com Ivan Lins e Nelson Ayres. Como costumo filmar com play-back, usando músicas conhecidas como referência, o desafio ao compositor e ao arranjador foi se aproximar ao máximo da sugestão. São preciosas as versões pessoalíssimas trabalhadas a partir de Joe Cocker (You Are So Beautiful) no tema da cena de amor e no John Lennon póstumo (Free as a Byrd) na seqüência da chuva.
Sob a tônica musical, Dois Córregos se inspira em César Frank pela busca de uma atmosfera melancólica e impressionista. Assumidamente um filme triste, como as felicidades efêmeras, mas evitando a todo custo a sedução da chantagem.
Sobre o Diretor
Carlos Reichenbach nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1945. Criou-se em São Paulo. Filho e neto de editores de livros, imaginou que seguiria o caminho da família, mas apaixonou-se pelo cinema. E pela música. Durante muitos anos dividiu-se entre os dois.
Cursou a Escola Superior de Cinema de São Luiz, onde pôde aprender com Anatol Rosenfeld, Luís Sérgio Person e Roberto Santos, entre outros. Realizou seu primeiro curta-metragem, Esta Rua Tão Augusta, em 67.
Ao lado de outros cineastas paulistas, entre 67/70 realizou produções de baixo orçamento e muita inventividade, promovendo o nascimento daquele que ficou conhecido como o "cinema pós-novo"
(ou Boca do Lixo), entre o experimentalismo e o cinema popular. Nos anos 70 atuou em trabalhos de outros diretores e fez a direção de fotografia de vários filmes. Em 1974, abandonou uma atividade de dois anos no cinema publicitário e escreveu, fotografou, produziu e dirigiu "Lilian M., Relatório Confidencial", numa opção radical pelo cinema autoral e artesanal. Dez anos depois, foi este mesmo filme que revelou o cinema de Reichenbach para a crítica européia, através do Festival de Rotterdam, do qual participou por cinco anos consecutivos.
Foi duas vezes premiado pela Cinemateca Real de Bruxelas com "Amor, Palavra Prostituta" e "Anjos do Arrabalde", e recebeu o prêmio de melhor filme no 30º Festival de Cinema e Pesaro, Itália, por "Alma Corsária".
Autora, o cinema de Reichenbach não só continua a nascer de roteiros seus como, algumas vezes, chega a ser musicado pelo próprio diretor.
Dois Córregos, seu 12º longa-metragem, integra uma produção que conta com vários curtas, médias e alguns episódios para longas-metragens.