Aulas de esporte para crianças devem ter regras simplificadas
Aulas de esporte para crianças devem ter regras simplificadas
Texto: Sabrina Magalhães
Qualquer atividade que gere tensão, estresse ou ansiedade
é maléfica para os pequenos
Na opinião do pediatra Ajax Machado, é altamente prejudicial impor regras rígidas para uma criança. No entanto, ele observa que muitos pais colocam seus filhos em escolas especializadas para praticar basquete, futebol e outros esportes. Ele acredita que haja bons professores, mas que a maioria não tenha conhecimento sobre psicologia infantil ou medicina esportiva, o que pode resultar em problemas lesionais e emocionais para a criança.
De acordo com o médico, nas escolinhas, o aluno recebe ordem de não sair de tal posição, de não correr naquele sentido; são instruídos sobre esquemas táticos, "o que para ele não importa. Ele não está entendendo direito e fica tolhido de sua liberdade, o que já gera um estresse. Antigamente, íamos jogar bola, alguém lançava e dizia 'corre atrás da bola'. E os 20 meninos partiam para cima dela. Um dava um bico para um lado, todos corriam para lá. Esse exercício
é muito bom para a criança. Mas hoje, os professores querem impor para elas regras de adulto".
Outra observação do pediatra é que as escolas incentivam a competição: os pais são convidados a assistir às partidas, aumentando o estresse e a ansiedade da criança. Ela pode adotar comportamentos agressivos para ganhar ou depressivos, quando não acredita no próprio potencial. "Então, ao invés do esporte ser um negócio saudável, ele acaba se tornando prejudicial."
Machado defende que as regras específicas dos jogos só devem começar a ser incutidas no aluno a partir da adolescência, por volta dos 12-13 anos de idade. E que, mesmo assim, é preciso adequar o esporte ao jogador. Por exemplo, numa partida de futebol, a bola usada por crianças tem que ser mais leve que a bola oficial, porque ao chutar uma bola pesada demais, a criança pode sofrer uma lesão séria. "E nada de competição. Isso não é bom. Quando as crianças são submetidas a tantas regras muito cedo, passa o tempo e elas desistem daquele esporte. Isso acontece com muita freqüência."
Ele ressaltou que na Universidade de São Paulo, na capital paulista, filhos de funcionários têm aulas de esporte de uma forma muito saudável. A criança aprende noções de todas as modalidades esportivas, futebol, basquete, vôlei, natação. Ela tem contato com tudo e não enjoa, só se diverte, brinca. "Por volta dos 12 anos, ela começa a perceber que se adapta mais a um ou outro e faz sua escolha. Aí sim ela começa a entender as regras, a se dedicar mais. Qualquer coisa que gere estresse para a criança
é maléfica para ela."
Dor de cabeça atinge 25% das crianças
As dores de cabeça, ao contrário do que se pensa, não são doenças exclusivas de adulto. Elas acometem, segundo o neurologista infantil Erasmo Barbante Casella, 25% das crianças de até cinco anos de idade, pelo menos uma vez por ano. Destas crianças, 6% tem dor de cabeça uma vez por mês. Ele explica que as dores podem ser sintoma de várias doenças, como tumores na cabeça, tensão, febre, sinusite, distúrbio visual, meningite ou até pressão arterial alta. Para acabar com as dores, é preciso diagnosticar o problema e curá-lo, retirando o tumor, iniciando trabalhos de relaxamento, baixando a febre, liberando as vias respiratórias.
Mas quando a dor não é sintoma de nenhuma dessas patologias, a criança pode estar sofrendo de enxaqueca, uma doença de origem genética, geralmente acompanhada de náuseas e vômitos. Neste caso, a dor costuma aparecer só de um lado da cabeça e ser pulsátil, ou seja, a cabeça dói conforme o bater do coração. Na maioria das vezes, piora quando a pessoa é exposta à claridade e a ambientes barulhentos e só melhora depois que o paciente dorme.
Questionado a respeito do tratamento, Casella explicou que, por ser genética, não tem cura. A pessoa tem que evitar os fatores desencadeantes. "A tensão é a causa mais freqüente que desencadeia uma crise de enxaqueca. Mas uma pessoa pode sentir a dor depois de um jejum prolongado, ou após a exposição a um ambiente muito iluminado. Algumas pessoas têm enxaqueca depois de praticar esportes, ou de comer determinados produtos, como salsicha, chocolate, temperos orientais, queijos, vinho. É preciso fazer um mapa do dia da dor, o que ela comeu, quanto tempo ficou sem comer, onde esteve, para identificar os fatores desencadeantes individuais. Então você tenta afastar o desencadeante."
Segundo ele, quando não é possível fugir do fator que inicia a crise ou quando a dor é muito forte, pode-se administrar um analgésico comum, observando-se cuidado especial na escolha do medicamento e na dosagem a ser oferecida à criança. E quando as crises ficam muito freqüentes - mais de duas por mês - o médico faz um tratamento profilático, com o objetivo de interromper o ciclo da enxaqueca. Então o paciente toma remédios específicos por 3 a 6 meses. E fica um bom tempo sem sofrer com as dores.
* Casella atua no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.