Ferroviárias de Bauru abriram caminho para mulheres modernas
Ferroviárias de Bauru abriram caminho para mulheres modernas
Texto: Adriana Rota
"O bom viajante é aquele que não tem planos fixos nem hora para voltar" (Lao Tzu, 570-490 a.C)
As mulheres que trabalharam na estrada de ferro Noroeste do Brasil
(NOB) ou de alguma forma estiveram ligadas a ela, como mães, filhas ou esposas de ferroviários, conquistaram espaços e promoveram mudanças gradativas na mentalidade repressora em vigor no início do século. Ousadas e perseverantes, elas contribuem ainda hoje para o avanço nas relações sociais. Essa foi uma das constatações feitas pela historiadora Lidia M. V. Possas após um estudo minucioso sobre o assunto, que lhe rendeu o título de doutora pela Universidade de São Paulo (USP) no início deste mês. Com um texto de cunho literário e de fácil compreensão, Lidia leva o leitor a uma verdadeira viagem no tempo e nos sentimentos de suas personagens, até então relegadas ao anonimato.
Professora de História do Brasil no Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp de Marília, Lidia despertou para o tema ainda durante a preparação de sua dissertação de mestrado, apresentada em 1992, na qual tratou sobre os integralistas de Bauru, muitos deles ligados
à ferrovia. Uma frase da funcionária Maria Nunes foi o ponto de partida:
"Eu vesti a camisa verde de que me orgulho porque, embora mulher, desejo contribuir para a salvação da minha Pátria". A ressalva provocou um certo desconforto na historiadora, que iniciou suas investigações tão logo teve possibilidade.
"Mulheres, Trens e Trilhos - beirando uma história do impossível. Sociedade brasileira nos anos 30-40"
é o título do trabalho de 292 páginas que levou quatro anos para ser concluído. Para sua composição foram feitas mais de 80 entrevistas, analisados 14 mil prontuários de trabalho, diversos registros escritos, como relatórios administrativos e ofícios e consultadas mais de 330 obras bibliográficas de autores e especialidades variadas. As informações foram obtidas nos centros de documentação e memória da Unesp (Cedem) e da Unesp/RFFSA, Museu Ferroviário Regional de Bauru, Núcleo de Documentação e História de Bauru da Universidade do Sagrado Coração
(USC), Instituto Histórico Antonio Eufrásio de Toledo e Escritório Remanescente da Rede Ferroviária Federal de Bauru. O resultado foi um texto repleto de informações sobre a história local, do Brasil e Geral, ilustrados com fotos de arquivos pessoais e institucionais e mapas, que funcionam como documentos visuais da época.
A proposta da autora foi "analisar o espaço dos trens e trilhos a partir de um olhar que focalizasse as experiências sociais das mulheres, percebendo-as como sujeitos concretos que construíram sua identidade com interesses específicos, atitudes e sensibilidades". Durante a entrevista, Lidia enfatizou não só o conhecimento obtido com a pesquisa mas, sobretudo, o auto-conhecimento. "Claro que passa pelo interesse científico, da historiadora, mas tive grande satisfação como mulher em indagar sobre o nosso papel na sociedade. Apesar de ser um trabalho sobre os anos 30 e 40, ele carrega muitas das questões da trajetória das mulheres de hoje. Essa busca por visibilidade não se trata de lutas feministas que visem ocupar um espaço supostamente masculino, nem de um desejo de ser igual aos homens, mas da convivência enquanto cidadãos. A igualdade está nos direitos", alertou.
Quanto ao assunto ferrovia, Lidia acredita que ela representou em sua vida "uma mágica que ocupou meu imaginário infantil e adolescente e ficou em estado de hibernação". Ela explica essa relação contando um episódio marcante de sua época de menina: as férias que passava na casa da avó materna em Nova Friburgo, região serrana do Rio de Janeiro, sua terra natal. "Toda tarde sentava na praça em companhia de minha avó para ver passar a maria-fumaça. O maquinista apitava e nós batíamos palmas". Mais tarde, já casada e com uma filha, mudou-se para Iacanga e, posteriormente, para Bauru, mantendo sua paixão. A dissertação de mestrado acabou colocando-na de frente com o assunto que mais tarde seria esmiuçado, longe da narrativa oficial que aprisionava suas "meninas"
- como, carinhosamente, chama as funcionárias com as quais teve contato.
"Tive o desejo de quebrar o silêncio sobre a presença feminina no mundo eminentemente masculino da NOB. A produção historiográfica tem tido a preocupação de enfatizar as análises sobre a ferrovia apenas nas perspectivas da industrialização, da urbanização, da crise economia oligárquica-cafeeira e da proletarização da sociedade brasileira, tudo isso propiciando a criação de representações de virilidade".
Uma de suas maiores vitórias, acredita, foi perceber ao final do trabalho que as mulheres que nele aparecem se reencontraram.
"'Eu me descobri. Agora eu estou registrada na história oficial', elas disseram. A história das mulheres é uma abordagem recente no Brasil (começou nos anos 80) e ganhou cunho político porque é uma forma de dar voz a sujeitos que nunca foram contemplados. Eu comecei a perceber que minha profissão não é neutra. Para mim foi muito gratificante. Normalmente as pessoas vêem a tese com uma espécie de fardo, querendo terminar o quanto antes. Confesso que esse trabalho eu terminei porque tinha prazo, mas o prazer de fazer foi indescritível", contou.
Mulheres adaptaram-se ao ambiente hostil da NOB
Entre 1918 e 1945 havia 235 mulheres atuando na NOB frente a um universo de 6 mil homens. O auge ocorreu na década de 40, em pleno Estado Novo. Lidia conta que muitas das entrevistadas são ferrenhas admiradoras do então presidente Getúlio Dornelles Vargas, que garantiu a elas acesso ao emprego por concurso, dentre outros benefícios. Foi uma oportunidade de mostrarem sua capacidade, já que costumavam obter resultados superiores aos dos homens. Essa medida coibia, também, a entrada na empresa por indicação de pessoas influentes.
As funcionárias vinham tanto da classe média quanto baixa, eram originárias de localidades diversas e atuavam como datilógrafas, telefonistas, telegrafistas, auxiliares de escrita, mensageiras, zeladoras e lavadeiras. Muitas dessas funções eram de diaristas, o que provocava grande instabilidade emocional, já que as dispensas podiam ocorrer a qualquer momento.
Elas viviam jornada dupla de trabalho. Para complementar a renda, muitas fabricavam e vendiam trabalhos artesanais, lavavam roupas de cama e mesa de restaurantes e dormitórios ou prestavam outros tipos de serviços. Preocupavam-se com a política e buscavam ampliar seus conhecimentos, mesmo depois que se desligavam da ferrovia.
A princípio, não tinham acesso nem a banheiros próprios, apenas a alguns horários fixados. "Chegava a haver reclamações por uso 'excessivo' de papel higiênico", indignou-se Lidia. Demissões, suspensões, repreensões e advertências eram constantes por motivos às vezes banais, como quando eram taxadas de "faladeiras", observaçào destacada em vermelho no prontuário. Falta de atenção
à rotina e ausências periódicas, motivadas por inadaptação ao sistema de trabalho, também resultavam em punições.
Apesar das dificuldades, elas obtinham crédito nas lojas, o que causava uma certa vaidade. Os motivos de saída eram variáveis: por aposentadoria, dispensa, transferência, desligamento a pedido, falecimento ou invalidez.
Boa parte das trabalhadoras da estada de fero tinham família de origem ferroviária, que não só conheciam o ambiente, mas tinham vistas para o futuro, incentivando a busca por melhores condições de vida. A pesquisadora constatou que a maior parte dos casamentos ocorreu quando as mulheres já estavam na casa dos 30 anos e, geralmente, com companheiros de trabalho. Há também as que optaram por não casar, como Nair Salles, 85 anos. "Tive namorado, mas sempre fui muito observadora e exigente. Acho que a mulher tem de ser tratada com delicadeza, educação... Sou muito feliz assim, vivo com independência e fiz tudo que queria fazer. A única coisa que eu lamento é o descaso do governo com a ferrovia hoje. É triste porque aquilo faz parte da gente. De resto, só tenho boas lembranças".
Enfrentando com garra as "caras feias", "ousavam" fumar em público, usar calças compridas e dar tapinhas nas costas, mas dificilmente chegavam a postos de chefia. Às vezes até tinham oportunidade de alcançá-los, mas se recusavam para não ter de se submeter a exigências que consideravam incompatíveis, como fez Nair Salles numa ocasião.
Na época (anos 30 e 40), trabalhar fora de casa num ambiente tipicamente masculino bastava para ser classificada pela sociedade como "vagabunda", em oposição às
"mulheres de família". Segundo a pesquisa, no Código Civil de 1916 a mulher aparece como "dependente e subordinada ao homem" e, esse, como "senhor da ação". Para trabalhar, era necessário conseguir a ordem do marido ou uma decisão judicial. O tempo passou mas a realidade não mudou tanto.
"Expondo-se à competitividade do mercado de trabalho, em processos seletivos cuidadosamente elaborados com critérios baseados em conhecimentos científicos cada vez mais complexos e habilidades técnicas, elas provaram competência e derrubaram mitos como lugar de mulher é na cozinha", cita Lidia em seu trabalho.
Lourdes Dias Flora, 80 anos, em entrevista ao JC, deixou uma lição para as mulheres de hoje: "Elas devem se destacar, ir em busca de seu crescimento, não ficar humildemente esperando como se fazia desde aquela época. Embora alguns avanços tenham ocorrido, ainda existem abusos como diferenças de salários entre os sexos e é para acabar com isso que a gente deve lutar. Creio que se cada uma tiver a consciência de seu próprio valor, as coisas podem melhorar", afirmou, com sabedoria.
Ferrovia foi sinônimo de modernidade
As ferrovias representaram uma renovação das técnicas de transporte no começo do século 19, na Europa Ocidental, ampliando a Revolução Industrial. A conquista efetiva do mundo pela estrada de ferro deu-se de 1850 a 1900. No Brasil, chegou no século 20. Saindo do litoral em direção
às regiões produtoras do Oeste Paulista, elas atenderam os interesses de uma burguesia industrial urbana nascente. A inovação representou o acúmulo de um significativo montante de capitais e o aparecimento de muitas empresas particulares, geradora de empregos.
"A ferrovia foi um instrumento valioso de organização da sociedade brasileira burguesa, capitalista-industrial e como tal não fugiu à responsabilidae de ser um agente fiscalizador de todo o esforço do Estado legislador ao prever papéis para a manutenção da família brasileira. E também no universo do cotidiano, no mundo do trabalho, passou a discipliná-lo com a criação de modelos imaginários de trabalhador e de família", explicou a estudiosa.
A NOB surgiu em 1905 e ao longo de toda sua extensão foram se desenvolvendo cidades. Ela foi privatizada em 1995, passando para uma empresa norte-americana. Recentemente chegou a ser firmado um acordo para tentar pôr fim à discriminação ainda hoje presente na cultura ferroviária referente à cor, preferência sexual, idade, sexo e ideologias políticas.
Leia alguns trechos da tese
"Percebendo a tensão e os conflitos no cotidiano de suas vidas, procurei evidenciar nas trilhas femininas as suas lutas pelo prestígio pessoal e social, pela condição de assumir uma sexualidade impossível de ser completamente disciplinada e domada e pela visibilidade mais expressiva e concreta"
"Os caminhos de ferro não só construíram uma territorialidade, na ocupação do espaço físico, mas neste mesmo espaço esquadrinharam práticas sociais, estratégias de controle e tarefas rotineiras para o exercício do poder disciplinar que a sociedade burguesa exigia para a reprodução do capital e conseqüentemente para sua acumulação"
"Não sei o que a minha vida, uma vida tão insignificante, tem para que faça parte da história das mulheres..."
(Nair Salles)
"Entrar para a Noroeste era a coisa mais linda do mundo!"
(Eulália Pasquarelli Camargo)
"Para dizer a verdade a mulher não se sentia muito importante lá dentro, não, porque davam mais valor aos homens e ao que eles faziam. Tanto é que muitas vezes se fazia o mesmo serviço e ganhava-se menos" (Lourdes Dias Flora)