08 de julho de 2026
Geral

Aids na terceira idade

Adriana Amorim
| Tempo de leitura: 3 min

Bauru tem 67 idosos com Aids

Aids no idoso ainda é subestimada

Texto: Adriana Amorim

Atividade sexual menos intensa, dificuldade em assimilar a necessidade de utilização de preservativos e uma certa vergonha em falar sobre sexo. Essas são características em comum dentro de um grande número de pessoas pertencente

à terceira idade e que podem estar colaborando para que a aids nessa faixa etária não esteja recebendo a atenção necessária. A opinião é da médica infectologista e coordenadora do programa DST/aids da Divisão Regional de Saúde (DIR-10), Denise Arakaki, que aponta a necessidade da intensificação das discussões sobre o assunto.

Em Bauru, 67 idosos (pessoas com mais de 50 anos de idade) já contraíram a aids. O número faz parte de levantamentos da DIR que contabilizam os casos notificados até janeiro deste ano. Os soropositivos pertencentes à terceira idade representam 4,7% do total de 1.423 casos registrados e começaram a fazer parte das estatísticas em 1988. De lá para cá, a doença vem acometendo tanto homens como mulheres. A diferença é que, a partir de 96, os casos envolvendo o sexo feminino passaram a ser notificados quase que com a mesma intensidade dos masculinos.

Denise Arakaki afirma que os números não são preocupantes do ponto de vista epidemiológico. Isso porque as pessoas da terceira idade usam drogas com menos frequência e diminuem as relações sexuais. Portanto, apresentam poucas chances de transmitir a aids.

Mesmo assim, a médica ressalta que a atenção que vem sendo dada a essa faixa etária pode não ser a ideal. Isso devido a dois fatores: a inibição dos pacientes e a falta de iniciativa dos médicos em questionar a vida sexual da pessoa que vai fazer a consulta. Por esses dois motivos, Denise Arakaki acredita que os números atuais podem não representar a realidade.

"Quando a pessoa vai ao médico, pergunta sobre os sintomas que está sentido, mas raramente fala sobre a sua vida sexual ou assuntos relacionados a isso", afirma. "O médico também questiona sobre a próstata, a coluna e a artrose. Talvez por isso tenhamos mais casos que os notificados atualmente", afirma.

Ser não-sexual

Pelo fato do idoso não ser visto como um ser sexual, nem médicos e nem o próprio paciente acreditam na possibilidade de contaminação. As queixas rotineiras, como fadiga, falta de disposição em realizar atividades rotineiras e perda de peso podem estar relacionadas à aids. Por serem comumente verificadas nessa faixa etária, passam despercebidas, explica a médica. "A aids também pode começar com sintomas básicos, só que o paciente não consegue se avaliar como pessoa de risco, a não ser que seja algo muito descarado", acrescenta Denise.

A demora no questionamento pode fazer com que a constatação da doença seja feita quando a aids já está em estado avançado, estimulada pela debilitação do sistema imunológico característica de pessoas da terceira idade. Denise Arakaki diz que a patologia muitas vezes

é detectada quando o paciente já está hospitalizado e os sintomas estão evidentes demais.

A médica acredita que o assunto merece ser mais discutido para garantir melhor de qualidade de vida aos idosos. Ela descarta a necessidade de campanhas institucionais, mas defende mais rigor dos médicos nas consultas cotidianas e mais diálogo dos pacientes. Atualmente, a saúde pública não mantém programas anti-aids específicos para essa idade. "Será que nós, médicos, estamos procurando todos casos?", questiona. "Pode ser uma lacuna que nós não estamos conseguindo preencher".